Caroline Barrueco

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As meninas que compartilham o cérebro

Alguns dos raríssimos casos de gêmeos siameses craniópagos, e como eles ajudam a expandir nossos conceitos de identidade.


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Segundo a wikipedia, personalidade é um conjunto de características dinâmicas influenciadas por diversos fatores, principalmente hereditariedade (ou genética), meio social (amizades, cultura, família, etc...), e experiências pessoais (que basicamente são o resultado dos impulsos recebidos pelo nossos sentidos e decodificamos pelo cérebro).

Mas de fato a identidade não pode ser dessa forma simplificada, o neurocientista Oliver Sacks complementa “O milagre é a maneira como elas (as áreas do cérebro) cooperam, como se integram, na criação de um eu. De fato, este é o problema, a questão definitiva, em neurociência -- uma questão que não pode ser respondida, sem uma teoria global da função cerebral, uma teoria capaz de mostrar as interações de todos os níveis, desde os micromodelos das respostas neuronais individuais até os macromodelos de uma vida em seu dia-a-dia.

Gêmeos xifópagos, ou siameses, são aqueles que são fisicamente conectadas um ao outro, gêmeos xifópagos craniópagos são os conectados pelo crânio, que muitas vezes também dividem parte do cérebro, são individuos que compartilham o DNA, o meio social e, em alguns casos, até mesmo a interpretação da realidade.

Um em cada 2,5 milhões de nascimentos é de gêmeos xifópagos craniópagos, mas a maioria deles morre minutos após parto. Observar pessoas tão singulares nos da a oportunidade de descobrir as capacidades do nosso próprio organismo. Condições adversas e deficiências em geral revelam habilidades surpreendentes, que comprovam o grande poder de adaptação humano.

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Lori e George Schapell são os únicos gêmeos craniópagos adultos que ainda estão vivos. Nascidos na Pensilvânia em 1961, os irmãos dividem a corrente sanguínea e 30% do cérebro.

Gêmeos siameses são necessariamente univitelinos, o que implica em terem o DNA idêntico, por isso não é possível que possuam sexos diferentes. O que torna o caso deles especialmente intrigante é o fato de George ser transgênero. Ele nasceu geneticamente mulher, mas se identifica com o gênero masculino, e assumiu essa identidade em 2007. Antes disso ele era conhecido por Reba Schapell. Relatos de apenas um irmão transgênero entre gêmeos univitelinos são bastante incomuns.

George fez carreira internacional como cantor de música country, Lori ganhou alguns campeonatos locais de boliche e atualmente trabalha em uma lavanderia. Por ser portador de espinha bífida, George e não caminha, mas sua irmã o carrega por aí, em uma cadeira desenhada por ele mesmo, que também já elaborou cadeirinhas de rodas para cachorros e gatos. Por falta de locais adequados à sua condição, os dois viveram em uma instituição para deficientes mentais até os 24 anos, quando conseguiram autorização judicial para morarem sozinhos.

Apesar de serem conectados pelo cérebro, eles nunca relataram alguma forma de troca de informações de maneira direta através dessa conexão, então cada um tem sua maneira individual de experienciar o mundo.

Com Krista e Tatiana Hogan, acontece algo diferente: cada uma das meninas possui um cérebro completamente estruturado, com cerebelo, dois hemisférios e córtex, mas existe uma espécie de ponte de tecido cerebral que liga os tálamos das duas. O tálamo é responsável por receber, organizar e reenviar estímulos sensoriais e motores. Então, cada uma das irmãs pode também “acessar” o cérebro da outra e receber os estímulos que a outra está percebendo.

krista tatiana hogan by caroline barrueco.png

A avó das meninas conta que elas se comunicam sem precisar usar palavras. Muitas vezes uma alcança um objeto para a outra, sem que ela tenha pedido. Quando uma se machuca as duas sentem dor e choram, quando se faz cócegas em uma, as duas riem. E mesmo que só uma das meninas esteja com o rosto voltado para a televisão, a outra também interage com os personagens, como se estivesse vendo pelos olhos da irmã.

Para comprovar a suspeita de que elas podiam de fato enxergar pelos olhos uma da outra, foram realizados testes em que uma das meninas têm os olhos cobertos e então é questionada sobre um objeto que teoricamente só a irmã estaria vendo, além de conseguir responder a todas as perguntas, a região do cérebro responsável pela visão, na menina que teve os olhos cobertos, também é ativada.

Assim como George e Lori, as duas têm personalidades e preferências individuais, Tatiana detesta ketchup e Krista adora, ao que parece, elas possuem a habilidade de bloquear ou habilitar os inputs cerebrais uma da outra, ou seja, escolhem se querem receber as informações do cérebro da irmã ou não. Mas com ketchup é diferente: Tatiana se sente incomodada sempre que sua irmã come.

A maneira como as irmãs Hogan percebem o mundo está sendo descoberta a um ritmo cada vez mais acelerado. Por terem apenas 8 anos de idade elas ainda não conseguem explicar como as imagens se organizam distribuídas pelos dois campos de visão, nem se acessam os quatro olhos simultaneamente. Existem inúmeras questões que ainda nem foram formuladas, já que esse caso é totalmente sem precedentes.

manar islaam by caroline barrueco.png

Manar e Islaam nasceram no Egito em 2004.

No início da gestação elas seriam gêmeas craniópagos, então, por algum motivo, Islaam não desenvolveu um sistema circulatório completo e passou a depender do sangue bombeado pela irmã, se tornando uma gêmea parasita. A parte mais próxima do corpo de Manar, a cabeça, se desenvolveu completamente, mas o resto do corpo de Islaam era composto apenas por um começo de coluna vertebral e algumas costelas.

Mesmo que Islaam pudesse chorar e sorrir de maneira autônoma, não se sabe exatamente se esses eram movimentos reflexivos ou conscientes. As pessoas que conheceram as duas afirmaram que apesar de Islaam não ter membros ou órgãos internos, ela era uma pessoa individual e expressava emoções e vontades diferentes das da irmã. Islaam também conseguia movimentar seu corpo de maneira independente.

Aos 10 meses, Manar, sobrecarregada pela tarefa de sustentar e alimentar dois corpos, já havia sofrido seis paradas cardíacas. Constatau-se que a menina não resistiria por muito tempo, e em fevereiro de 2005 foi realizada uma cirurgia para a remoção de Islaam.

Obviamente Islaam não resistiu à cirurgia. Treze meses depois Manar também morreu, devido a persistentes infecções cerebrais.

É difícil saber se Islaam conseguiria ter um cérebro funcional, já que o sangue que a alimentava precisava passar por todo o corpo da irmã antes de chegar até ela. Casos como esse são tão intrigantes quanto raros, então pouco se sabe sobre a individualidade de gêmeos parasitas.

Irmãos gêmeos siameses atravessam novos caminhos para a elaboração de suas identidades, e elas possuem outros significados. Observar esse movimento nos lembra o quanto o nosso sistema nervoso é adaptável e fascinante.


Caroline Barrueco

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