Caroline Barrueco

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Breve análise dos comentadores e compartilhadores da internet

Resolvi catalogar 599 opiniões a respeito de um único artigo.


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Entre as opções de temas para o primeiro texto aqui na Obvious escolhi “As mulheres de Chico Buarque” principalmente por se tratar do assunto mais improvável da lista, mas também porque mesmo com milhares de textos sobre isso não achei nenhum que concordasse com a minha opinião.

Descobri que Chico Buarque está amplamente associado à compreensão da “alma feminina”. Escutei todas as músicas dele em ordem cronológica e fui anotando o que achava interessante durante o processo.

Depois do texto publicado comecei a receber infinitos comentários. 

Muitos dos leitores estavam extremamente desconsertados, como se eu estivesse apunhalando o Chico pelas costas, como se o meu texto fosse uma ofensa pessoal a todas as pessoas que gostam das músicas dele, como se só houvesse uma forma correta de perceber a arte, e não fosse a minha.

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Jamais imaginei que pessoas se importassem tanto assim com esse assunto e quis entender melhor da onde vinha tanta energia. Para isso cataloguei todos os comentários e compartilhamentos que tive acesso do dia 11 ao dia 19 de setembro – 599 comentários no total –  uma pequena parcela dos 12 mil compartilhamentos até então, mas que serviria de amostra.

Sempre tive vontade de produzir gráficos verdadeiros. Não tenho a pretensão de solucionar dúvidas, só quero olhar para esses dados organizados. São lindos.

No twitter em geral as pessoas gostaram do texto. No facebook as opiniões eram diversas e divididas, as discussões eram interessantes, se desenvolveram um pouco. Na página do texto as opiniões se repetem, e a grande maioria das pessoas não gostou.

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Constatei também o que já parecia óbvio: as pessoas se sentem mais corretas se embasadas pela maioria . Quanto mais gente reclamando do texto, mais gente aparecia, e aí não tinham nem vontade de desenvolver seus argumentos, que eram cada vez mais agressivos e rasos.

Me chocou o fato de que o segundo principal motivo de rejeição do texto é simplesmente ser considerado feminista. Vi muitas vezes essa palavra sendo usada como desqualificadora de qualquer que fosse a opinião.   

INTERNET = ANEL DE GIGES?

Tem um trecho da Repúblida em que o Platão conta a história de Giges, um fazendeiro comportado e querido em seu vilarejo, que em um determinado momento encontra um anel que o torna invisível. Então, invisível, Giges se torna mau, ganancioso... sua personalidade muda completamente. Isso porque não está mais vigiado pelo olhar castrador e controlador dos outros. 

Então fica difícil saber se pessoas são tão comportadas e obedientes porque realmente querem, ou porque estão sendo observados a todo momento. Mas internet é tipo um “anel de Giges” da nossa época. Porque podemos fazer o que quisermos sem sermos vigiados pelos outros, podemos nos tornar invisíveis, e por isso, livres para sermos quem “realmente somos” ou queremos ser.

Na leveza do cyberespaço, portando nossos anéis da invisibilidade, nós nos sentimos confortáveis para agir de maneira que não faríamos, fora da internet.

Se isso é bom ou ruim? É ótimo.  Sou completamente apaixonada por esse movimento de libertação que a vida digital desencadeia, se não existisse um outro sintoma da vida online, que é a total falta de paciência para aprofundar qualquer pensamento, quem sabe poderíamos até ter conversado e discutido muito mais.


Caroline Barrueco

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