marisa

Estar vivo merece um esforço maior que o simples acto de respirar.

Game over


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Abro a porta e vejo o teu sorriso - ficamos mudos. Entras; abraças-me; elevas-me - ou então sou eu que flutuo. Arrancas-me a roupa, em segundos, e com ela perco a minha identidade - com ela ficam espalhadas pelo chão as minhas ilusões. Ouço-te respirar(me). Sinto-te: intensamente. Estilhaço em mil pedaços e derreto: fundimo-nos; numa estranha e improvável cumplicidade; numa fusão irreversível. Tenho-te à flor da pele: tenho-te em mim. Não sei quem sou - não quero saber quem és. Exploras-me como território desconhecido; como lua conquistada - é a essa lua que me levas. É como um céu cheio de estrelas que me envolves. Cravo as minhas unhas em ti: deixo-te marcas que em nada se comparam com aquelas que deixas em mim; aquelas que não irão desaparecer muito depois de teres partido. Cantas-me a nossa música ao ouvido enquanto, enroscados, paramos o tempo. Percorres-me.

Deixo-me seduzir; deixo-me embalar; deixo-me ir: e de cada vez que vou, não sei se regresso. Encaixas em mim mesmo sendo a peça errada do puzzle. Bebo dos teus lábios; dizes, uma vez mais, as mesmas frases já tão repetidas, dessa cartilha que sei de cor. Retribuo: só que eu sinto cada umadas palavras que te digo.

Olhas o relógio e vais tomar um duche - ouço a água cair e sinto-a levar de ti o meu cheiro. Fico deitada a pensar no vazio: no vazio em que mergulho de cada vez que os teus braços me largam. Sei que és tóxico: um vício; um engano assumido, um jogo que correu mal. És o meu presente sem qualquer futuro. És o aperto na garganta e o murro no estômago; és descida vertiginosa; sinal proibido. És olhos vendados: és a materialização da minha atracção pelo abismo. Regressas, tocas-me: recolho as garras e a minha respiração abranda. O coração dispara novamente: a minha pele reconhece-te - o meu corpo grita-te. Como sempre; como nunca. Abraças-me com toda a força deste engano - sinto-me tão pequena nos teus braços. Beijas-me: olhas-me na alma e dizes que me amas. Sais. Sei que não vais voltar - deixo para sentir só depois.

Fico sentada no chão, vestindo apenas: o teu cheiro.


marisa

Estar vivo merece um esforço maior que o simples acto de respirar..
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