marisa

Estar vivo merece um esforço maior que o simples acto de respirar.

Irrespirável: até quando?


"Temos de nos tornar na mudança que queremos ver" Gandhi

indignados.jpg

Contra os canhões marchar, marchar!”

Era sempre assim que começava a contar-me a história. Repetia a frase, até à exaustão, para não se esquecer de quem foi.

Contava-me, pormenorizadamente, como, naquele inverno, marcharam as atordoadas (in)consciências contra petardos de incompetência acumulada, até ao limite da insustentabilidade. Marcharam sem medo - nem alternativa - contra um exército de inevitáveis decisões que ditaram o fim. Indignados; revoltados; resignados; pseudo-determinados; enfileiram-se, empunhando, engatilhadas, as palavras da desordem. Queria-se mudança; sonhava-se mudança; mastigava-se mudança; gritava-se mudança; respirava-se mudança; riscando (furiosamente) as sete letras em todo o lado.

Indignados Roma Madonna 5.jpg

Da surdina dos eus desorganizados, o desejo passou, assumido e confiante, para as ruas. Foram dias de absoluta embriaguez de mudança: até um coma da razão. Era-se contra. E pronto. Queria-se a mudança – e já. As bocas que a gritavam, tornavam-se perigosos predadores com fome de culpados. Os olhos, enraivecidos, perscrutavam tudo - vendo cada vez menos. Numa precipitada e promíscua junção de intenções, nasceram grupos; partidos; matilhas; facções e improváveis uniões. Sem líderes, nem homens – apenas multidão, feita de várias multidões, gigantescas ondas da corrente contra – não se sabendo a favor de quê - arrasaram, inapelavelmente, a horda dos acomodados, vitalícios e intocados. Ânimos incendiados preencheram dias e noites em fogos sem previsão de extinção. Inevitavelmente, chegou o dia de agarrar o acobardado sistema podre pelo anafado pescoço, rasgando-lhe a farda manchada da democracia, movidos pela mórbida curiosidade de perceber o que trazia por baixo. Foi violado: até à sua última golfada de ar; até estar feito em mil pedaços irreconhecíveis, impregnados nas mãos de todos e de cada um.

15nov.jpg

O dia seguinte amanheceu, comatoso, num país sem pátria; sem lei - sem rumo. Com feridas profundas - agudizadas por motivos surdos dos profetas esquizofrénicos – sobrevivia-se, agoniando numa morte lenta: sem luz; sem água; sem nada. Os verbos doidos saíram à rua, conjugando pilhagens, debandadas, violações e crimes, legitimados pelo regresso ao pré-histórico de nós. Arderam campos e casas e tudo aquilo que pôde ser devorado pelas bulímicas chamas da raiva cega. Arderam os sonhos e as vidas e, da história, fez-se cinza fina que desapareceu à primeira rajada do vento norte. As nações sentaram-se, ao longe, a observar. Ficámos à venda – a preço de saldo. Na terra queimada, em terreno baldio, outros escreveram um recomeço fácil.

Esta foi a história, que me contou o meu avô, de um país que existiu um dia, chamado Portugal.

marisa, 26 Out' 2011


marisa

Estar vivo merece um esforço maior que o simples acto de respirar..
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/// @destaque, @obvious //marisa