marisa

Estar vivo merece um esforço maior que o simples acto de respirar.

Número mecanográfico 4789

Hoje levantei-me às cinco da manhã – como, aliás, faço todos os dias. Saí do quarto precisamente a meio de um sono agitado da minha esposa que, entre outras imperceptíveis palavras, se fartava de murmurar “José, José”. Fui tomar banho e vesti-me. Sentei-me – como sempre – à mesa, na cozinha, a beber um café de ontem, aquecido. Enquanto segurava a chávena quente entre as mãos, aquele odor requentado despertou-me uma (re)visão da vida que me tenho permitido (sobre)viver, nos últimos anos.


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Caro Dr.º Frederico Pereira Alves, Sou um dos funcionários da sua empresa: número mecanográfico 4789. Trabalho para si há mais de 22 anos. Ainda assim, talvez não saiba quem sou. Compreendo. Hoje levantei-me às cinco da manhã – como, aliás, faço todos os dias. Saí do quarto precisamente a meio de um sono agitado da minha esposa que, entre outras imperceptíveis palavras, se fartava de murmurar “José, José”. Fui tomar banho e vesti-me. Sentei-me – como sempre – à mesa, na cozinha, a beber um café de ontem, aquecido. Enquanto segurava a chávena quente entre as mãos, aquele odor requentado despertou-me uma (re)visão da vida que me tenho permitido (sobre)viver, nos últimos anos. Trabalho na mesma linha de produção desde o primeiro dia que entrei na sua empresa. Hierarquicamente, respondo a um chefe de linha, o Sr. Maximino Torres, que, por sua vez, responde ao chefe de sector, o Sr. Malaquias Gonçalves, que, acima de si, tem um encarregado, o Eng. Oliveira Tavares, que presta contas ao Director Geral, o Eng. Silva Almeida, que lhe reporta a si, Dr.º Frederico Pereira Alves. Almoço diariamente na mesma fétida cantina. Sou servido por diferentes pessoas que nunca levantam os olhos das encardidas panelas, enquanto nos enchem os pratos com comida inanimada. Nunca perguntaram se preferia assim ou assado. Ao domingo, compro o jornal no quiosque da senhora de aspecto e alma enfadados, que se chama Albina, e que não se dá (sequer) ao trabalho de agradecer o facto de eu levar sempre o dinheiro certo, não a sobrecarregando com a necessidade de contar pelos dedos (inchados) o troco a entregar-me. Para os meus filhos sou o “pai”; para os colegas da fábrica sou o “Silva dos pistões”; para as Finanças sou um número; para a minha execrável sogra sou o “estupor do inútil com que casaste”; para a minha esposa sou o “estupor do inútil com que casei”. Para o resto do mundo: simplesmente não existo. Decidi, então, pegar numa folha de papel para o informar que, pela primeira vez, não vou trabalhar. Se não lhe escrevesse esta carta, a minha ausência seria apenas um registo na folha do funcionário com o número mecanográfico 4789.

Hoje lembrei-me que tenho voz e que tenho estado calado a maior parte da minha vida. Tenho voz e quero dizer-lhe: chamo-me António da Silva.


marisa

Estar vivo merece um esforço maior que o simples acto de respirar..
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