marisa

Estar vivo merece um esforço maior que o simples acto de respirar.

Tornámo-nos família

Histórias da vida de um prato


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O pai acabou de sair, batendo a porta – desesperadamente – atrás de si. A mãe limpa, com as espessas lágrimas, os estilhaços do chão: eu, e todos os outros, fomos, hoje, feitos em pedaços. As pequenas letrinhas, que tenho estampadas nas costas, já não são uma frase completa. Estou, definitivamente, rasgado. Os meninos dormem, de barriga vazia.

Os dias (já há muito) sussurravam, entre si, que algo não ia bem. A chegada, amarga, da hora de jantar era o momento mais sufocante deste magro desfiar de vidas pequeninas. Noites sucessivas de pratos cheios de fome. O pai andava nervoso, olhos vazios e intenso hálito a vinho - sorvido como anestésico, barato, de realidades pesadas. A mãe chorava, calada, e eu, por vezes, sentia-lhe o sal que lhe secava o sorriso e a pele, enquanto ela nos ordenava na mesa, num mecânico ritual. E era sempre doloroso o momento em que o pai chegava: carregado de rancores e frustrações, vazio de comida. Olhava os meninos alinhados, à nossa frente, na mesa: e os silêncios eram o que se jantava. Mas havia dias bons (poucos): aqueles em que éramos enfeitados com uma batata cozida – partida em mil bocadinhos, para se fazer mais e maior. Os imensos olhos dos meninos brilhavam e, em silêncio, todos ficávamos felizes. Por vezes, a mãe fazia bolinhas de pão seco e enfeitava-nos: os meninos sorriam e fingíamos todos. Quando aqui cheguei, confesso, fiz alguns planos. Sonhei encher-me de massinhas coloridas, salpicadas de fresco manjericão, sonhei abraçar douradas fatias de bolo de iogurte acabado de sair do forno. A vida fez-se diferente. Com o passar do tempo, aqueles olhos expressivos que me olhavam – indefesos - à hora de jantar, conquistaram-me por completo. Tornamo-nos família. Hoje, ele rebentou: gritou todas as dores presas no peito. Preferiu atirar-nos ao chão, a continuar a olhar-nos, vazios, a reflectir os olhos dos meninos. Hoje, dói-me: por mim, por nós. Porque a vida, por vezes, dói – de mais. Ela foi deitar os meninos: abraçou-os, deu-lhes a beber água quente, para enganar as barrigas e aquecer-lhes os sonhos.

Regressou à cozinha e ajoelhou-se na tijoleira gasta. Com as pontas dos dedos ásperas: segura, carinhosamente, as duas metades de mim. Unta-me, lentamente, com a cola que ele usa, para consertar os sapatos no velho anexo. No seu desespero abafado: continua a tentar manter-nos a todos unidos. Tornámo-nos família.


marisa

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