marisa

Estar vivo merece um esforço maior que o simples acto de respirar.

Viver é um rasgar-se e remendar-se

O meu truque: nunca deixar de acreditar. Nunca fazer por menos, nunca fazer por fazer, nunca ser assim assim, nunca calar o cinzento, nunca aceitar o tem que ser. Sei que um dia vou ter que dar este lugar a outro corpo, com mais ou menos alma que a minha, e a única pretensão que tenho é: ter feito valer a pena.


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Nos últimos dias tenho dado por mim a viver, intensamente, partes de alguns todos: a viver histórias das vidas que fazem parte da minha vida. Simultaneamente, num exigente exercício de (im)perfeito (des)equilíbrio, tento viver a minha própria vida. Confesso que, carregar todas as vidas no peito, não é fácil: há momentos em que me sinto sufocar com tantos (des)encontros. Talvez seja um pontual (des)alinhamento dos planetas, mas sinto que há vidas a prazo, a viver aos gritos, sem que ninguém as consiga ouvir.

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Vejo-te. Sinto-te. Leio-te. Compreendo-te. Sei-te de cor. Trato por tu essa tóxica e impiedosa sensação de nos sentirmos absolutamente perdidos, sem saber para onde ir, quando só nos apetece ficar parados. Conheço essa angústia seca que te paralisa o sorriso e te pára o cérebro. Conheço essa traiçoeira desmotivação que te esbate o olhar e te enfraquece e (des)engana a vontade. Mas, sabes uma coisa? Acredito - acredito mesmo - que viemos equipados, de origem, com um mecanismo interno, auto-regulador, que, de cada vez que baixamos os braços, nos faz automaticamente levantar a cabeça: à procura do rumo e do norte! Alguns de nós usam-no de forma mais hábil, outros estão ainda à procura do botão que o liga, numa desenfreada viagem de um viver a correr, viver a doer. Vencemos doenças e fintamos prognósticos, superamos derrotas - superando-nos -, perdemos amores, vivemos paixões, morremos um pouco em cada partida - rasgamo-nos e remendamo-nos – sonhamos, voamos, caímos - rasgamo-nos e remendamo-nos – levantamo-nos, gritamos, choramos, sorrimos, abraçamos, fazemos promessas, acreditamos, desiludimo-nos, prometemos nunca mais prometer - rasgamo-nos e remendamo-nos – renascemos, reinventamo-nos, adaptamo-nos, mudamos, fazemos tudo de novo, erramos, acertamos - rasgamo-nos e remendamo-nos - damos, damos, damos, esperamos, desesperamos, acreditamos - rasgamo-nos e remendamo-nos.... Viemos sem que tivéssemos pedido, não há regras nem manual de instruções, não há atalhos perfeitos ou botão de rewind. Cada um de nós faz o que pode, como pode. Ainda assim, no meio de tantas asneiras e erros: a maioria de nós faz um trabalho espantoso! Dá, a ti própria, o tempo e o espaço para o erro natural, tenta de novo, permite-te bater com a cabeça, deixa-te chorar, fecha-te, rasga-te, mas aprende a remendar-te e regressa - depressa! Enquanto estiveres viva, muita coisa pode acontecer - tudo pode acontecer. IMG_1153.jpg

O meu truque: nunca deixar de acreditar. Nunca fazer por menos, nunca fazer por fazer, nunca ser assim assim, nunca calar o cinzento, nunca aceitar o tem que ser. Sei que um dia vou ter que dar este lugar a outro corpo, com mais ou menos alma que a minha, e a única pretensão que tenho é: ter feito valer a pena. Por isso: abraço, amo, beijo, canto, grito, danço, choro, tento, desespero, tento de novo, caio, levanto, rasgo-me e remendo-me quantas vezes seja necessário. Mas faço questão de passar a maior parte do tempo a voar - sem rede.

Fotos: Fabio Stachi


marisa

Estar vivo merece um esforço maior que o simples acto de respirar..
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