2 doses de delírio e 3 baldes d´água

Inventuário de criações descabidas e realidades nuas. Transeunte cotidiano da terceira margem do olhar.

Noronha Rosa

Um espasmo em contratempos, mil compassos em transe.

Em tempo e cólera, mas amor sempre - A miscelânea criativa da Calle 13

Força e inspiração latentes na voz e na criação musical do duo porto-riquenho, Calle 13. A dupla de Hip-Hop-jazz-tango-eletrônico-bossa tudo e um pouco de tantos vem da criação livre e se faz do cotidiano. Os rapazes e a sua tão diversa música cantam o que buscam e onde estão. Cantar as suas vozes e as outras tantas que carregam em vidas e histórias da sua gente, e de nós mesmos. É isso o que eles fazem.


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Do sangue que transpassa as veias históricas e que corre avassalador. Que nos liga uns aos outros irremediavelmente nessa colcha de retalhos sociais, culturais, políticos, artísticos, humanos! Esta é a Calle 13, de René Pérez, conhecido por Residente – cantor e compositor - e Eduardo Cabra conhecido por Visitante – backing vocal, pianista e também compositor. Mais que cantar, trazem no seu hip-hop a pulsão da vida cotidiana.

O nome Calle 13 vem do nome da rua do setor onde cresceram, em Trujillo Alto, Porto Rico. Seus apelidos são em função da identificação que tinham que dar ao segurança para entrar no setor El Conquistador, onde moravam. As letras e a maneira pela qual são conduzidas em ritmo e voz, não poderiam guardar melhor expressão do que aquela que vem da alma. A singularidade feminina se faz em presença e voz das mulheres que os circundam. A mãe de René, a irmã de Eduardo, Ileana Cabra, e Flor Joglar de Gracia contribuiram ocasionalmente com a dupla, deixando marcas específicas no som da banda.

calle 13 entrevista Regaettón, uma espécie de cultura musical característica de Porto Rico, forma de musicalidade, que também transpassa as fronteiras territoriais, chega a ser mesmo trans-cultural. Mas o som de Calle 13 não se limita, nem mesmo é de fácil distinção. Passando pelo jazz, bossa nova e até mesmo salsa, indo para o tango, música eletrônica, rap e hip-hop. Não há um rótulo, e ainda bem.

eduEduardo Cabra

A criação musical dos rapazes simplesmente segue, com formas singulares e pegadas tão deles. Há um quê de tambor, de brasileiro também. O som de piano, e outros instrumentos inusitados, dão vida à uma dialética musical quase mística. Na canção 'A Girafa', há uma interessante combinação de canções francesas – inspiradas no filme o Fabuloso Destino de Amélie Poulain – com o tambor e a percussão brasileira. Inconvencionais, nos instrumentos musicais escolhidos, nas letras, nos ritmos, e no invisível - uma espécie de universo sensível, mergulhado em uma sinceridade rasgada que permeia suas produções.

images (3).jpgRené Pérez

Foi em 2005 que Calle 13 lançou seu primeiro álbum intitulado Calle 13, muito popular devido as canções "Se Vale Tó-Tó" e "atrevete-te-te!". Em 2007, veio o segundo álbum, Residente o Visitante, onde a experimentação pelo transitar entre diferentes gêneros musicais ganhou força. E o terceiro álbum, Los de Atrás Vienen Conmigo, em 2008.

O mais recente álbum, Los Que Quieran, foi lançado em novembro de 2010. No dia 5 de novembro de 2009, a banda ganhou 5 prêmios do Grammy Latino 2009. Em 2011 ganharam 9 Grammy's Latino. A canção "latinoamerica" ganhou o prêmio de canção do ano. Há algo de memórias, gosto, cor e gente. Talvez seja a comunhão de carne, música e sangue entre as imagens incríveis do videoclip com a pungente vibração da letra. A cantora Maria Rita emprestou a alma da voz feminina e da brasilidade, ao lado da peruana Susana Baca e da colombiana Totó la Momposina.

Soy... soy lo que dejaron Soy toda la sobra de lo que se robaron Un pueblo escondido en la cima Mi piel es de cuero, por eso aguanta cualquier clima Soy una fábrica de humo Mano de obra campesina para tu consumo frente de frío en el medio del verano El amor en los tiempos del cólera, mi hermano!

A música, assim como as letras, melodias, suas partes e corpo, precisam ser experimentadas. É uma coisa intima, do contato com a canção e do que ela causa e reverbera em nós. Existe muito de Porto Rico nas criações do duo, da vivência latina, do amor, do sexo, da política. Tudo se aproxima e se entrelaça, como grande ode ao sangue quente que burbulha nas veias abertas da nossa história. Como disse Galeano em Sangue Latino – somos um mar de foguinhos. O mundo é isso, revelou: Um monte de gente, um mar de foguinhos. Não existem dois fogos iguais. Cada pessoa brilha com luz própria entre todas as outras!

show

Calle 13 - Entren los que quieran -

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Se o tempo permitir e o interesse aguçar, vale prolongar a estadia perambulando pelas Veias abertas da América Latina – Eduardo Galeano –

Sobre o Sangue Latino...

Os meninos, a música e tudo o mais – Calle 13. Entren los que quieran -

'Si es por buscar, mejor que busques'

Martín Caparrós


Noronha Rosa

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