2 doses de delírio e 3 baldes d´água

Inventuário de criações descabidas e realidades nuas. Transeunte cotidiano da terceira margem do olhar.

Noronha Rosa

Um espasmo em contratempos, mil compassos em transe.

O Olhar libertário e o gosto forte da escrita - Geração Mimeógrafo

O cheiro da palavra, o gosto do olhar e a transgressão da poesia marginal...


geração mimeógrafo

Abrir a palavra, feito fruta sem casca. Abrir suas significancias, tirar dela suas representações comuns, sua pele morta. Mutação, ação de ressignificar. Dar novos ares e diferentes asas aos conceitos, palavras e sentidos. C o t i d i a n a m e n t e.

Tropicalismo, cultura Hippie, Helio Oiticica, Caetano Veloso. Efêmero. Glauber Rocha. Modernismo. Cinema. Rock n’ Roll. Humor. Simplicidade. Lygia Clarck. Quadrinhos. Tesão. Lirismo. (Des)forma. Surrealismo. Coloquialidade. Sexo. Quadrinhos. Paródia. Política. Ironia. Um tanto disso, um pouco daquilo, bebendo e comendo destas fontes, e se alimentando das suas próprias fomes, isso é a Geração Mimeógrafo.

paulo_leminski3P.Leminski

Poesia alternativa. Marginal. De outra vertente, de um caminho (in)comum. Ou seja lá como são vistas estas criações desta gente de escritores, artistas, professores, poetas etc e coisa e tal. Mais que ver, ou rotular, há que se sentir com pensamento e corpo a importância de momentos destes e criações assim para a memória coletiva, para a pulsão da arte, e para o desenrolar expressivo de tantos outros que virão.

Ana Cristina Cesar, Francisco Alvim, Paulo Leminski, Cacaso, Chacal, Isabel Câmara, Carlos Saldanha, Zulmira Ribeiro Tavares, Vera Pedrosa, Torquato Neto, Adauto de Souza Santos, Leila Miccolis são alguns dos expoentes deste movimento corporificado nos anos 70, em razão da censura imposta pela Ditadura Militar.

Descartável

Vontade de me jogar fora

Chico_Alvim.jpg Francisco Alvim

Visto também como fenômeno cultural, o que se vivenciou foi a busca pela difusão alternativa da cultura, uma vez que os veículos, meios e mesmo a própria expressão individual estavam sempre sob o julgo da repressão, silenciados por ela. O anseio era pela expressão livre da subjetividade através da poesia, ou o que se propunha como tal. Buscava-se então um caminho fora das castrações violentas - da expressão do sujeito e de todo valor humano - empreendidas pelos anos de chumbo. Formas alternativas de distrubuição e circulação de novas vozes. Daí o mimeógrafo como símbolo e instrumento primeiro de expressão e libertação das formas e das palavras.

Imagen Thumbnail para Imagen Thumbnail para paulo_leminski P.Leminski

A produção literária desse período não foi bem aceita por grandes editoras, pelo menos até 1975. Foi quando a editora Brasiliense publicou o livro 26 poetas Hoje. Daí também a denominação desse movimento como marginal, e de todas as suas produções, consideradas a margem do circuito editorial fechado que havia se estabelecido até então.

ana c ana cristina cesarAna Cristina Cesar

Nem contra cultura, nem contramão, nem contracorrente. A favor de. Pelo artesanal, pela busca, pela ânsia, pela criação, pela arte, por mim, pela reconstrução, pelo outro, olhar, pelos sentidos, por você. Isso é parte, é livre e é experienciar, como quem experimenta a arte, como quem leva a boca! Em plena experiência da mais saborosa embriaguez, como as tão bem ditas de Baudelaire - 'Para não ser o escravo mártir do Tempo, embriague-se; embriague-se sem parar! De vinho, de poesia ou de virtude'.

Rápido e Rasteiro Imagen Thumbnail para Imagen Thumbnail para Imagen Thumbnail para chacal

Vai ter uma festa que eu vou dançar até o sapato pedir pra parar.

aí eu paro tiro o sapato e danço o resto da vida.

Chacal

paulo_leminski_2 Leminski

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Contra são outros,é outra espécie de gente, anti cultura vem de outros lados, de ideia e sentidos restritos, razos. Que minimizam-se e também aos outros, fria e irracionalmente. Manoel de Barros, que não é mimeógrafo mas é tanto quanto artesanal, dos sentidos e dos sem sentidos de tudo, bem sabe e escreve que As coisas não querem mais ser vistas por pessoas razoáveis: Elas desejam ser olhadas de azul .

Em sincronia com os marginais – aquilo e aqueles todos que deram-se à luz na gênese de uma outra forma de querer ver, querer sentir e querer fazer, juntam-se a estes também Guimarães Rosa, na sua Terceira margem do rio, nessa água que não pára, de longas beiras: e, eu, rio abaixo, rio a fora, rio a dentro — o rio. Na ânsia dos que transitam seguindo nas libertárias margens que contornam as velhas e engessadas ideias, escritas e palavras.

navegaçao da palavra

as palavras bocas e ouvidos as palavras hálitos bravios: velas pandas nas noites verticais

Ana C

A produção artesanal, o desconhecer para conhecer e a retirada das naturalidades e normalidades do olhar... Talvez seja o que nos falte, por vezes. Lirismo para se produzir, menos mecanicidade. A literatura, assim e enquanto arte e o processo criativo, não são velhos senhores ranzinzas, enraizados e com seus conceitos milimetricamente encerrados.

Há evidentemente por aí estes estados de espírito ranzinzas, normativos e conceitualmente fechados, claro, há que se existir que é também para alimentar os ares e os lugares de respiro, de outras existências... É o yin-yang, ocidente e oriente, a roda gira é assim, fluindo na não estagnação do sujeito. Mas isso aqui é só um papo de mesa de boteco, boemia latente, existencialismo talvez, um pouco de angustia, quem sabe. Com boas doses de devaneios e uns dedos de prosa.

cacaso.jpg Antônio Carlos de Brito, Cacaso

Há uma gota de sangue no cartão postal eu sou manhoso eu sou brasileiro finjo que vou mas não vou minha janela é a moldura do luar do sertão a verde mata nos olhos verdes da mulata

sou brasileiro e manhoso por isso dentro da noite e de meu quarto fico cismando na beira de um rio na imensa solidão de latidos e araras lívido de medo e de amor

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Se acaso alguém desejar um olhar mais demorado, puxar a cadeira, e tomar um café...

26 Poetas Hoje – Heloísa Buarque de Hollanda

E uma boa leitura de Fernando Pessoa, sob o heterónimo de Álvaro de Campos - Ultimatum. A quem interessar, que se achegue.

'Passai, frouxos! Passais, radicais do pouco! O mundo quer grandes poetas, quer grandes estadistas, quer grandes generais. Quer o político que construa conscientemente os destinos inconscientes do seu povo. Quer o poeta que busque a imortalidade ardentemente e não se importe com a fama. Quer o general que combata pelo triunfo construtivo, não pela vitória que é apenas a derrota dos outros. O mundo quer a inteligência nova, a sensibilidade nova. O que aí está a apodrecer a vida, quando muito, é estrume para o futuro'

Álvaro de campos, 1917


Noronha Rosa

Um espasmo em contratempos, mil compassos em transe..
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