2 doses de delírio e 3 baldes d´água

Inventuário de criações descabidas e realidades nuas. Transeunte cotidiano da terceira margem do olhar.

Noronha Rosa

Um espasmo em contratempos, mil compassos em transe.

Sobre o despertar

Entre a garoa fria e o café forte, o amanhecer da memória.


321659_316591861700004_100000475770031_1325047_2005849659_n.jpgAto Público em memória dos exilados e desaparecidos sob a ditadura militar - Ouro Preto - Fotos Léo Alves

'Acreditar no mundo é o que mais nos falta' - Deleuze in Conversações

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Sentada agora com os olhos diante desta tela e a alma diante o mundo, gira uma espécie de turbina. Movimenta calor no corpo e ebulição do espírito. Vísceras. Talvez eu esteja digitando com o meu estômago nas mãos. Aquele estranho órgão cardíaco parece também ter alterado seu ritmo, inevitavelmente.

Os dias às vezes se sucedem em certas amenidades, ou formas e sensações mornas. Não sei. Sinto assim, às vezes. Você? As pessoas que conheço, e as que não conheço, alguns, chamam isso de cotidiano. Equívoco linguístico. Isso se chama náusea, aquela coisa que vem embrulhando o estômago, vai subindo, turvando a vista, embaralhando pensamentos e embrulhando por fim a alma. Aí vem o vômito, ou não. Aquilo que sai, escorre, exorciza, que deixa ir o que foi indigesto.

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13 de novembro do ano passado, Ouro Preto, largo do cinema, um domingo - como são os domingos, mas além, estranhamente além. Nesta segunda, amanhecida em chuva rala, despertou comigo a memória daquele domingo atípico. Foi lá, vivi. Não o passado, ou uma reprodução deste.

Tão pouco nada que se assemelhe ao horror dos l o n g o s anos mergulhados em chumbo da nossa história. Vivi o meu momento inteiro na dor da impotência pelos mortos e desaparecidos do período militar, e na força bruta e límpida do meu corpo todo e da minha mente resignificando aquele instante, e reconhecendo como de espanto todas as dores de sempre - nem de antes, nem de agora, mas atemporais.

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Vivi a náusea pela prepotência, pela estupidez, pela insensibilidade, pela arrogância, pela intolerância, por você, por mim, por cada parte de tudo que não se livra destas podres amarras limitadoras da transcendência e libertação de nós mesmos.

Memória. Não esquecimento. (Re) velar a memória - dos que se entregaram em corpos e pensamentos por outros e por si mesmos, e por todos os corpos, pensamentos, sentimentos e anseios mutilados, amputados e violados.

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O Ato Público em memória dos exilados e desaparecidos sob a ditadura militar, ocorreu no âmago de Ouro Preto, vivido por estudantes de artes cênicas da Ufop, com o olhar atento, vibrante, da professora Alessandra Vannucci, em direção compartilhada com Paulo Maffei, pela memória daqueles que não podem ser esquecidos. E de nós todos.

Pulsava a homenagem ao Living Theatre, com a força das vozes de Judith Malina, Julian Beck, Sérgio Mamberti, Cecília Boal, Brad Burgess e Tom Walker. E então, diante e ali, parte de tudo, olhando amigos, artistas, escritores, crianças, idosos e toda a gente, me ocorreu um pânico imenso pelos que não estavam, pelos que não viram, não sentiram ou ouviram.

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Mas isso é nada. Agora eu sei. Não é o estar ali, o pre-sen-ci-ar, arrrr, AR... É o faltar o fôlego, que fará qualquer espécie de rompimento, de luz, de epifania à alguém, eu imagino. Fez à mim. Os que ali não estavam, não o estavam. E só.

Assim como o estar não garante a subversão dos sentidos e o resignificar da vida. Seremos todos captados em instantes outros, de igual ou diversa expressão, mas que terão em si a possibilidade de desatar a distância que amarra os abismos de nós mesmos. Confrontar-se. Confrontarmos-nus, expostos!

Há violências, violações e negligências em cada espaço de gente, em cada esquina, a cada lacuna de rua ou de alma. Por isso as lágrimas, a força, a voz, o grito, o PROTESTO, a fome de, a crença em. Por isso o ato público, e o (des)ato individual. Não se trata de recordar. Trata-se de acordar, verbo intransitivo que faz transitar. (Re)agir. Sair do estado de sono. Despertar. Passar a perceber que, conscientizar-se de. Viver.

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Me acalmo então. Uma estranha e envolvente forma de serenidade me toma. Nunca a tinha percebido assim. Mal poderia supor sentir-me agora tão inteira. Penso que a anarquia mais fiel e franca é cá dentro. E isso vai crescendo e transbordando, quase como a chuva que agora cai sem parar, escorrendo telhados, escoando entulhos.

As revoluções hoje são aqui, simples e somente aqui, do lado de dentro, e em cada sujeito. Andando na rua, muitos devem estar neste momento na sua forma de revolução, transeuntes dos seus desejos e utopias. Não vou evocar teóricos, e suas verdades, para dar força e voz ao que são estas utopias, e a cada palavra aqui, ora, sabemos, pois! O que pode ter mais propriedade e voz em você, do que a que te escapa, vívida, pela tua boca e corpo?

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Penso em Clarice, levanto-me um pouco porque os olhos, assim como os pensamentos, queimam. Passo os sentidos em certas palavras ardendo de um dos livros no canto da mesa - Um sopro de vida - penso de novo em tudo, então me vem a frase dela que sempre escuto por aí, leio acolá... 'eu te deixo ser, deixa-me ser então'. Acho que me fui, hoje, num clarão assustador, meio de rompante, me vi. Eu me deixo ver. É isso. Deixa-te ver, portanto. Se existe aquilo que te faz tremer de indignação, que inquieta, se existe o que te excita a, faz ser e querer ser... Avante! Qual é a revolução que te importa?


Noronha Rosa

Um espasmo em contratempos, mil compassos em transe..
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