2 doses de delírio e 3 baldes d´água

Inventuário de criações descabidas e realidades nuas. Transeunte cotidiano da terceira margem do olhar.

Noronha Rosa

Um espasmo em contratempos, mil compassos em transe.

Trânsito de gentes e o pão francês pela hora da morte...

Sobre as travessias nossas de cada dia


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Aqui os passantes são espécies de transeuntes de si mesmos. Contornam carros, bicicletas, pedras, lixo, o tempo, e a falta dele. Aqui é Mariana, de história e cidade. Seu Francisco limpa o jardim da histórica pracinha 8h por dia, todos os dias. Dona Conceição varre essas mesmas ruas de tantas histórias quanto seus paralelepípedos. Entre o fluxo das pequenas ruas de pedra, a sinalização precária faz ver toda a (des)ordem de movimentos conflitantes. Mas parece não fazer ver dona Conceição, nem os olhos do seu Francisco sempre cabisbaixo, enquanto o ciclista passa sobre o lixo varrido e faz tudo voltar ao seu não-lugar. Outro dia dei de encontro com um cordão de pequenas mãos dadas. Tocavam instrumentos sem muita harmonia, mas via-se melodia no ar, e nos olhos dos moradores vendo a pequena banda passar. A professora atravessa a rua guiando o pequeno cordão. A travessia da rua parece ser grandiosa para os pequenos passos saltitantes. Mas não há sinalização devida, é um perigo, todo mundo sabe. Mas o que é que se faz com isso? Se faz? A falta de infra-estrutura urbana tem ares de negligência, como é de mal costume na administração pública do país.

Os aproximadamente 55 mil habitantes de Mariana não são os quase 20 milhões de moradores da paulicéia desvairada, nem os 15 milhões de cariocas indo e vindo entre maresia e asfalto. Diferente do desarranjo do trânsito, o respeito não sobra por aí. É a falta dele, transitando por todas as ruas, que impregna o dia-a-dia desta cidade, e deve fazer falta no cotidiano do seu Francisco, da dona Iolanda, do senhor jogando xadrez, das crianças correndo na areia suja dos parques, dos jovens caminhando pela Augusta, de tanta gente, deve faltar. Feito Sertão de Guimarães Rosa, sobra chão árido, é que falta brotar outros processos políticos, culturais, artísticos em toda espécie de vivência dos sujeitos em sociedade. Falta fazer nossas travessias.

Problemas urbanos desencadeiam outros, e refletem-se em todos os nossos de alguma maneira. Mas observar nossos desajustes socioeconômicos como constantes de uma degradante administração publica é anular nosso potencial enquanto sujeitos de nós mesmos e das comunidades a nossa volta.

Entender que a rua é para gente, carro, bicicleta, vendedor, cachorro, pipa... Mas é também para se respirar, sem a pressa imposta pelo carro do lado que não consegue respeitar o tempo do outro. Todo mundo tem filho na escola, tem trabalho, tá cansado. A buzina estridente não vai buscar o filho na escola nem virar um calmante no volante. Isso de transferir paras as escolas e outras instituições a obrigatoriedade da chamada 'educação', é irônico, muito cômodo, para não dizer bem estratégico para nos aliviar. É como dizer que o poder vem do Estado. E não, nossa primeira instância de poder reside em nossos próprios corpos. São as nossas subjetividades, que movimentam e que não podem ser sufocadas. Deslocar o poder de lugar, não contra, mas sendo parte. A coisa toda está com a gente.

As dificuldades estruturais de uma cidade não parecem possíveis de serem observadas de maneira isolada, como produtos avulsos em prateleiras, ou roupas separadas por cor em uma gaveta e outra. Efetivas ações em micro esferas. Nas ideais inusitadas, entre uma prosa e outra. Nas conversas de rua, de boteco, de fim de tarde, entre vizinhos, entre iguais e entre opostos, nas esquinas, nas universidades, no Senado, na fila do banco, que se fale sobre, e a respeito de.

O trânsito, a educação, a moradia, o pão francês pela hora da morte, o lixo entulhado nas esquinas, o medo constante, o respeito nas ruas... Para eliminar as afrontas nossas de cada dia, é importante eliminar a ignorância da nossa descrença. Começa por aí.


Noronha Rosa

Um espasmo em contratempos, mil compassos em transe..
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