2 doses de delírio e 3 baldes d´água

Inventuário de criações descabidas e realidades nuas. Transeunte cotidiano da terceira margem do olhar.

Noronha Rosa

Um espasmo em contratempos, mil compassos em transe.

Agora

Dos instantes...


527867_392262880805543_100000655042644_1224732_1075785378_n.jpg

Estava lavando a louça num desses rompantes de inquietação, misto de pensamento e corpo pra lá e pra cá. Faz agora aqui uma dessas noites em que as temperaturas e a chuva parecem combinar entre si quem fica mais tempo. Lavar louça mais parece uma tentativa mecânica de lavar pensamentos, num desses dias de insônia e saudade, pra ver se faz chamar o sono.

Pensei sobre aquela coisa toda que todo mundo diz, e a gente escuta, repete, brada quase feito discurso de político em dia de sessão eleitoral na tv. Aquela coisa, sabe? Do tal do agora. Que a gente tem que viver o agora, que os problemas do mundo, da fome ao sexo, parecem até se resolver se nos concentrássemos no momento presente.

Momento presente. É agora. Agora é aqui, escrevo. O frio e a louça são lá, já foi. Toda aquela história de que o agora é da intensidade de, pra viver tudo, e mais, parece servir pra enganar a gente, deixar assim com cara de espera, enquanto se acha que o que se faz é viver. Agora parece muito mais simples que grandes ações de vida que vão dizer todo o futuro se fizermos aquilo que temos que fazer, a g o r a.

A questão é que agora é lavar louça. Agora pode ser escovar os dentes. Tomar um chá novo, daquele sabor diferente que descobriu e quis experimentar. Sentir o calor dos lábios quase se tocando. O suspiro entre as bocas entregues. O café passado nas tardes frias pra aconchegar amigos. O cachorro deitando a cabeça entre o travesseiro e o seu colo. O abraço de encontro...

Ah, agora é tudo. Contém. Só não é ação projetada. A espera de. Agora é pequeno, de tão grande. É encontrar, no gesto, no gosto, no colo, na música, na esquina, no olhar, no afeto sincero, bonito de vasto... É encontrar a gente sem esperar chegar depois. Não é fazer tudo o que se quer como se fosse realmente o querer. Isso é correr feito cão em volta do próprio rabo, e ficar tonto na esquizofrenia do querer sem saber se, no miúdo, no detalhe, a gente está mesmo em nós.

Agora eu estou só lavando louça. Agora eu sinto frio, e sinto sem pensar no calor depois. Agora eu estou fazendo amor, e faço. Agora eu grito, e sai. Agora é madrugada, eu durmo. Agora eu brigo, e passa. Agora eu amo, e cresce. Agora você vive, de tanto e muito, que entrega, pra você e pro outro, tudo o que se sente sem tanta confusão das sensações, mas só porque parou pra sentir, sem embrulhar o agora e atropelar o depois.

E depois, que já é outra história, chega... Mas só se agora for a gente mesmo demais. É assim que o futuro conta o compasso do tempo. Se a mão lavando a louça sentir bem e inteiro o frio d’água. Igual assim o beijo naquela noite estrelada, que estremeceu o peito inteiro, por dentro, mas só porque se esteve lá, no antes dos instantes presentes, no futuro de nós.


Noronha Rosa

Um espasmo em contratempos, mil compassos em transe..
Saiba como escrever na obvious.

deixe o seu comentário

Os comentários a este artigo são da exclusiva responsabilidade dos seus autores e não veiculam a opinião do obvious sobre as matérias em questão.

comments powered by Disqus
x5
Site Meter