2 doses de delírio e 3 baldes d´água

Inventuário de criações descabidas e realidades nuas. Transeunte cotidiano da terceira margem do olhar.

Noronha Rosa

Um espasmo em contratempos, mil compassos em transe.

No caminho do meio

Entre café, asfalto e gente...


pixinguinha

Às vezes falta um pouco o ar, ou muito. Uma centena de pessoas com seus passos inquietos, apressados, desajeitados, o asfalto quente do calor do dia sob os duros pés de concreto dos prédios sisudos.

Ontem caiu uma folha verde no chão no meio da imensa Rio Branco. A criança que passava com os pequenos pés em saltos a acompanhar a correria da gente toda grande,sem importar a cor do sinal, não seguiu, nem parou, mas olhou, num estado transitório e quase imperceptível em que a gente grande olhando lá de cima sequer sentiu. A folha de tão verde acho que acalmou um pouco o chão, não foi flor nascida do asfalto, mas furou o tédio do olhar que viu, que escapou da rotina, do bolo de gente, e sorriu.

Aqui também tem pedras, além das duras do dia a dia. O Rio de Janeiro tem paralelepípedos que dividem as ruas com os pedaços de concreto, e a gente anda até diferente quando sai da linha do asfalto e pisa na memória viva das ruelas do centro. Só que nem todo mundo percebe. O moço de estátua viva naquele prata de cor e textura chega a reluzir com o sol, umas moedas aqui, outras pratas acolá, não sei bem se dá pra se juntar um pouco que sustente o dia, mas vi que deu pra juntar um tanto, só que de sorrisos, e até sustos quando o movimento delicado da estátua desperta o olhar e entrega a flor de arame e pano pra moça que passava às pressas, ali ela parou.

As ruas se cruzam em vielas e gente, e bancos e pedras. Tem lojas de todo tipo, igual centro das coisas mesmo que circula de tudo, de gente e mais um pouco. É bonito, tem cor, tem aos montes em tons inusitados. No meio do caminho tinha uma travessa, do Pixinguinha! Era do Pixinguinha.

Na correria do tempo, ou na ocupação do dia a gente passa que nem vê. Mas foi numa distração, num instante, questão de segundos, olha pro lado e pluft! Uma ruela apertada, de um jeito esquisito. Daí vem o nome, lembra música... Entra, entra lá e vai ver! No meio do sem fôlego dos dias, Pinxinguinha tocando entre pinturas do cotidiano, de arte e cor num muro branco de pedra antiga.

Era estátua, mas era viva, feito o moço da flor na rua. Era viva porque memória e cor pulsam, não sei, ao menos parecia. As buzinas até somem, ficam distantes. Só se escuta uma música que parece vir de algum lugar, um bar talvez; os ecos dos passos no chão e as vozes desaparecendo ao fundo. Tem uma livraria, com café dentro e gente de todo jeito - abrindo uns livros, olhando de canto, sentada conversando, tocando piano, soprando o café....

Na entrada, num quadro negro escrito a giz em letra torta e corrida, Graciliano Ramos. Dizia lá sobre escrever feito as lavadeiras fazem seu ofício, com calma, parte por parte... que "a palavra não foi feita para enfeitar, a palavra foi feita para dizer." E a rua passa. Continua. Fluída. E os passantes, se distraídos, com sorte encontram Pinxinguinha, trombam em Graciliano, veem o instante exato da folha ao cair, e a moça passando na esquina com a flor de pano entre as mãos...


Noronha Rosa

Um espasmo em contratempos, mil compassos em transe..
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