2 doses de delírio e 3 baldes d´água

Inventuário de criações descabidas e realidades nuas. Transeunte cotidiano da terceira margem do olhar.

Noronha Rosa

Um espasmo em contratempos, mil compassos em transe.

Sobre a palavra entalada, e os perigos da palavra enlatada

Palavra. Palavra tem forma, tem jeito, tem força, mas tem mais que isso. Palavra tem gente, gente por trás da palavra, intenção por trás dos discursos.


Imagen Thumbnail para “Pouco pão e péssimo circo. Desligue a tv e lute” Via – http://olheosmuros.tumblr.com

Os povos indígenas vêm sendo submetidos a violações de direitos históricas, mas ninguém sabe. Quando situações extremas como essa em MS vem à tona, é quase um susto, uma ironia que nos assalta. Seria um conflito pela disputa de terras, se já nao fossem terras indígenas. A Constituição de 1988 reconhece os direitos indígenas no seu capítulo VIII. Isso seria uma conquista, não fosse absurdo. É como se os povos indígenas só passassem a existir com esse capítulo de lei, há cerca de pouco mais de 20 anos, uma herança da nossa velha prepotência, talvez. Antes, viviam como qualquer coisa alheia, qualquer coisa assim distante da ‘civilização’, que a eles também, por muito tempo, negligenciou qualquer possibilidade de pertencimento.

Pertencimento não para homegeneização, mas como processo necessário para o desenvolvimento de uma sociedade orgânica, que não se mascara no guarda-chuva frágil do discurso de ‘igualdade’. Uma sociedade que assuma e valorize suas tensões e diferenças como alimento para constituição de qualquer coisa próxima de uma democracia, e dos direitos humanos, seria o ideal. Seria.

Recentemente, o governador do Estado do Rio, a respeito da privatização do estádio do Maracanã, declarou que o Museu do Índio no entorno estádio não era problema dele. “Isso aí é um problema da Funai, não é problema meu. O fato é que nós compramos o prédio, pagamos por ele para destruí-lo e permitir que a população tenha qualidade de mobilidade para ir e vir no entorno do Maracanã.” E voltamos à estaca zero.

A mídia se movimento sob um estratégico discurso no clássico estilo desvia-foco, colocando em questão o uso da palavra suicídio - trazida em algumas matérias para tratar do numero de mortes entre os jovens indígenas - como uma problemática. Evidente que o sensacionalismo nunca foi uma boa pedida quando o assunto é honestidade da informação oferecida, mas não se trata disso. Evidente também que nessa máquina do politicamente correto, aclamada pelos defensores da concepção imparcial e objetiva do jornalismo, os valores de ‘verdade’ estão há muito deturpados. Evidente por fim que não vale gastar a escrita para explicar o óbvio, questão de percepção. O jornalismo, como qualquer outro campo de conhecimento possui lá suas ‘técnicas’, que possuem lá suas razões de ser – que não vieram de nenhuma cartilha de bons modos, mas de uma construção empresarial da comunicação, de um campo inserido no contexto onde tudo se vende, se transforma, e nada se cria.

Palavra. Palavra tem forma, tem jeito, tem força, mas tem mais que isso. Palavra tem gente, gente por trás da palavra, intenção por trás dos discursos. Nesse sentido, os discursos não são o mal-estar da questão, nem as intenções implícitas neles, e também não é questão à quem servem estas mesmas intenções das palavras. Mas é questão, sim, ter verdade na escrita. Não estou falando da verdade quase apocalíptica vendida pelas empresas de comunicação. Estou falando daquela verdade que é quase miscelânea entre paixão e fome. Fome de conhecer, de olhar, transver, e de ouvir, sobretudo ouvir. O perigo da palavra enlatada, essa que a gente encontra em vitrines, estantes, holofotes, e em caixas pretas que passam imagens, é que elas perdem a verdade da escrita, é difícil encontrar alguém que escreva com verdade.

Nao se trata de povos indígenas, mas de pessoas de direito nesta sociedade, que também vivem neste território. Por isso, fazer da violência sofrida pelos indígenas em MS e por todos os outros uma questão entorno de uma palavra mal ou bem colocada é mesquinho, merecedor de asco. Pormenoriza a situação concreta de desrespeito, não só aos guarani-kaiowá, mas a qualquer concepção de uma sociedade saudável possível, porque conta uma história única, insistentemente, até que pareça suficientemente real para ser introjetada no cotidiano. Isso é violação das subjetividades, aniquila qualquer potencial de libertação dos indivíduos da violência real e simbólica à que estamos submetidos. Isso é ruim pra mim, e pra você também.

A palavra jejuvy, na língua dos Guarani, significa aperto na garganta, voz aniquilada, impossibilidade de dizer, palavra sufocada, alma presa. Jejuvi é um ritual ancestral em que os kaiowas praticam o suicídio, por enforcamento ou ingestão de veneno. Nos últimos anos o jejuvy alastrou-se pelas aldeias em escala epidêmica. São cerca de 50 suicídios por ano, envolvendo jovens de 9 a 14 anos de idade. Isso significa, minimamente, que esse povo vive o sufocamento imposto pela violência e pelos descaso, e vem reagindo bravamente como pode. Não é como os guarani-kaiowá irão morrer, mas o fato de que já estão morrendo, não um, ou dois, mas muitos, há muito tempo. Agora, basta desse puritanismo linguístico-semântico de quais palavras devem ou não ser usadas. Isso mais parece a covardia dos que não sabem talvez onde está a sua própria palavra, e não tem a força de usá-la com honestidade.

Diante disso, não posso deixar de expressar uma frase que pra mim trata-se de uma blasfêmia pela maneira em que é utilizada: qualificar a informação. Pergunto, como? Me parece ideal a concepção de qualificar os discursos, mas como isso é possível quando este meio de fazer jornalismo parece desqualificar, em bombardeios de aspas, objetividade e imparcialidade, o próprio sujeito que produz e compartilha a informação? Como qualificar a informação quando se desqualifica o jornalista? Desqualifica-se como qualquer coisa amorfa, suprimida de etos, sem qualquer expressão de verdade na palavra veiculada, incapaz de ter voz própria.

Libertar a palavra, libertar o indío, libertar o olhar. Libertar a palavra que é alma, libertar a palavra n’alma de todo fazer jornalístico. Que isso ecoe, rompendo as tumbas de jornalistas sentados acuados e oprimidos pelo valor-notícia diante de suas mesas. Existem outros valores mais importantes por aí, e eles não passam simplesmente pela máxima infantil de se ouvir os dois lados da história, como se isso significasse qualquer comprometimento humano da profissão. Não existem dois lados, porque não existe uma história única. Em El Direcho ao Delírio, o escritor e jornalista Eduardo Galeano oferece um lugar de respiro, tão necessário quanto balsâmico à todos que não pretendem se formatar pelo simples gozo proporcionado pelas zonas de conforto. E que assim seja. ‘E Serão reflorestados os desertos do mundo e os desertos da alma’.


Noronha Rosa

Um espasmo em contratempos, mil compassos em transe..
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/geral// @destaque, @obvious //Noronha Rosa