2 doses de delírio e 3 baldes d´água

Inventuário de criações descabidas e realidades nuas. Transeunte cotidiano da terceira margem do olhar.

Noronha Rosa

Um espasmo em contratempos, mil compassos em transe.

Tempo

Sobre o pingar das horas


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Estava mais frio do que de costume para essa época do ano. Também pudera, o calor dos últimos dias não parecia comum, estalava nas pedras da rua como se anunciasse um contratempo. Nem os pensamentos conseguiam caminhar, com o sol a pino daquele insuspeito verão acabavam esbarrando-se em tropeços de um lado a outro da cabeça.

Esquentava a água enquanto procurava o pó de café na prateleira entre os restos de biscoitos e o pacote de açucar já quase no fim. A água já começava a pular, escorrendo pelas alças de madeira verde musgo pintadas à mão. Corria com o pó para o bule, e como de costume derrubava parte no chão - parecia ser incontrolável, os trejeitos e os pequenos desastres na cozinha ritualizavam a hora do café, 17h48. O chão, de um piso vermelho opaco e cheiro forte de madeira, vivia como um cemitério de pequenas migalhas.

O velho labrador parecia conhecer as manias de casa antiga, deixada vez ou outra às moscas, ora e meia aos pombos no quintal. Com o corpo truculento, caminhava como quem deixa profundos rastros de pegadas no chão. Dormia onde se podia comer sem ter que dividir os restos e surpresas derrubadas da mesa com um velho gato de saltos travessos. Sempre duas lambidas sincopadas e já não se via mais café. Rotina. Por mais que odiasse essa palavra me arrisco a dizer, assim como quem espia de esguelha, que sentia era mesmo certo prazer pelas repetições cotidianas - inconfessáveis, evidente.

Passava o café acendia o cigarro apagava o cigarro levantava da cadeira sentava acendia outro cigarro olhava os livros na estante voltava ao bule mais café.

A chuva já havia passado dando lugar a um céu preguiçoso. Um vendaval! Foi tanto que duas bacias de aço não foram suficientes pra conter a entrada d'agua pelos fundos da casa. Uma telha se quebrou, meses atrás, desde então havia se estabelecido um estado de secura. Tudo soava árido, até mesmo as prosas perdidas nas mesas de bar e nas esquinas de casas noturnas. Nunca mais choveu. Nunca mais foi ontem. Uns bons palmos d'água subiam agora pelas calçadas de algumas ruas formando pequenas cascatas.

Pegou um maço de cigarros amassado entre a poltrona e as revistas espalhadas pelo chão - parara de fumar, mas a sensação do corpo-objeto entre os dedos facilitava-lhe os gestos das mãos (o telefone tocou).

O cão latia formando uma espécie de sinfonia perturbadora com o tilintar do aparelho. Olhou para um exemplar envelhecido na estante, pena não ter conseguido vê-lo melhor. Mas era longe demais, e algo de esfumaçado me turvava a vista. Havia uma janela entreaberta que dava para um simpático bosque, algumas gotas d'água caiam lentamente no telhado escorrendo pela janela, formavam prismas, ou caleidoscópios, se preferir. O telefone ainda tocava. Tocava. E ainda.


Noronha Rosa

Um espasmo em contratempos, mil compassos em transe..
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