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Maria Fernanda Cavalcanti

Editora do blog de planejamento urbano sustentável TheCityFix Brasil, viajante inquietamente serena e costureira de palavras.

A batida pop do caboclo do Pará

Os pobres paraenses reinventaram a forma de produzir, vender e consumir música no Pará através da digitalização do brega aliada ao domínio da tecnologia. Não só um novo estilo musical tomou conta das ruas do estado inteiro a partir de 2002, como um complexo e milionário modelo de produção passou a ser implantado com o nascimento e a disseminação do tecnobrega na capital Belém.


Aparelhagem SuperPop - Henrik Moltke.jpg Aparelhagem Superpop. Foto: Henrik Moltke

Sobreviventes de um sistema que sempre os manteve à margem da grande produção cultural e artística, os pobres paraenses são, antes de tudo, os fortes caboclos do "chacumdum" do Norte. Eles reinventaram a forma de produzir, vender e consumir música no Pará através da digitalização do brega aliada ao domínio da tecnologia. Não só um novo estilo musical tomou conta das ruas do estado inteiro a partir de 2002, como um complexo e milionário modelo de produção passou a ser implantado com o nascimento e a disseminação do tecnobrega na capital Belém. A guitarrada do Mestre Vieira, a lambada caribenha, o brega romântico de Reginaldo Rossi, o rock nacional ingênuo dos anos 60, o sensual carimbó africano foram misturados a batidas de música eletrônica no grande caldeirão criativo da periferia jovem de Belém para dar vida ao tribal tecnobrega, longe da poesia e da discrição sedutora de Jayme Ovalle. "Os músicos ligados ao estilo vieram todos de bandas de baile, onde tocavam de Reginaldo Rossi a Bon Jovi, de Pink Floyd a Bartô Galeno. Quando o tecnobrega surgiu em 2002, ele atualizou essa matriz musical, misturando-a a eurodance, jungle, miami bass e reggaeton." explica Vladimir Cunha, jornalista especializado em música, diretor e roteirista do documentário Brega S/A (2009), que retrata o cotidiano das pessoas envolvidas com o tecnobrega na região metropolitana de Belém. Assim como o açai, o cupuaçu e a castanha, o tecnobrega saiu do Pará para envolver os sentidos de milhões de pessoas não só no Brasil como fora dele com suas letras ousadas, danças sensuais, figurinos extravagantes e apresentações montadas com a última tecnologia. Na periferia de Belém, os jovens começaram a misturar todas as influências da cultura pop da grande indústria para dar vida ao universo do brega eletrônico. "Desenhos japoneses, Street Fighter, Tropa de Elite e camisetas da Puma. Tudo o que era passível de reprodução ilegal, e que podia ser vendido a baixo preço nos camelôs do centro de Belém, passou a ser incorporado ao universo temático do tecnobrega", explica Cunha.

O maior exemplo de sucesso do ritmo, hoje, é a Banda Calypso, formada pelo guitarrista Chimbinha e pela cantora Joelma. O grupo, que surgiu em 1999 no Pará, bateu recordes de vendas na última década, com seus 14 CD's e cinco DVD's lançados. Silvia Ribas, presidente do "Tchê Calypso" (um dos três fã clubes da banda no Rio Grande do Sul), explica como o ritmo envolveu um povo tradicionalmente fechado como o gaúcho e tão distante das origens do brega paraense. "Somos gaúchos acima de qualquer coisa. Temos o 'tchê' no nome e a cuia, que representa o Rio Grande do Sul, no símbolo do nosso fã clube. Mas o ritmo e a dança do Pará nos envolveu. Se tu for ver tudo é brega. Em algum momento do teu dia tu cai na 'breguice', não tem como fugir."

Silvia é cabeleireira e, paralelamente, sempre esteve envolvida com música e dança. Hoje, coordena os mais de 50 integrantes do fã clube. "Tem gente de tudo quanto é jeito: idoso, criança, homem, mulher, homossexuais - muitos. A música deles é universal. Já ficamos mais de 13 horas na fila para ver um show da Calypso, porque nós gostamos de ficar bem na frente do palco. É a única banda que nos faz fazer isso. É uma loucura", disse a chefe do grupo que ainda declarou que nem sempre foi fácil encarar o preconceito, ainda mais aqui no Sul, mas o poder da música sempre falou mais alto para eles.

Toda essa explosão da Calypso aconteceu num momento em que a indústria fonográfica formal passava por uma crise e via suas vendas caírem rapidamente com a ascensão da distribuição digital informal. O grupo paraense conseguiu, por meio de gravação e distribuição de forma independente, arrecadar mais do que muitos selos da grande indústria arrecadaram nos últimos dez anos. No início da carreira, Joelma e Chimbinha não se filiaram a grandes gravadoras e colocavam seus CD's à venda em supermercados a preços populares (5 a 10 reais). Uma aposta que deu certo.

2 Fãs da aparelhagem SuperPop - Henrik Moltke.jpg Integrantes da equipe Superpop. Foto: Henrik Moltke

Essa fórmula independente de fazer sucesso despertou o interesse de milhares de pessoas da zona central de Belém, que viram que era possível conquistar dinheiro e fama por meio de um mercado totalmente paralelo àquele que era imposto até então. Com isso, a partir de 2002, iniciou uma transformação na produção musical da periferia jovem da cidade. Com o barateamento das formas de reprodução qualquer pessoa se viu um agente potencial e produtor de música tecnobrega no Pará. Tendo um computador, um software de edição de áudio e uma letra que envolvesse as pessoas era o suficiente para iniciar o ciclo deste grande e promissor mercado.

Apesar de ter servido de inspiração, o 'glamour' da famosa dupla Joelma e Chimbinha está longe daquilo que se vê de fato na periferia de Belém. Um outro exemplo, mais recente e próximo do real movimento underground do tecnobrega paraense, é Gaby Amarantos, vocalista da banda TecnoShow, também conhecida como 'Beyoncé do Pará', título que conquistou com o hit "Tô Solteira", cantado no ritmo de "Single Ladies" da cantora pop norte-americana. Diferente da Banda Calypso, Gaby se aproxima mais do estilo predominante dos subúrbios paraenses. Ela faz questão de se apresentar com roupas justíssimas de cores nada discretas, maquiagem pesada, danças e letras sem qualquer tipo de censura, tendo sucessos como "Melô da Masoquista" e "A Bagaceira".

Nos subúrbios da cidade, toda a produção é caseira e independente, tendo o comércio informal como principal meio de difusão de conteúdo, seguindo uma certa lógica entre seus agentes. O início desta cadeia está nos músicos que escrevem as letras e também fazem as mixagens em casa, com o auxílio de programas de edição de áudio piratas. Como comprovado nas composições de Gaby Amarantos, quanto mais apelo popular tiver a letra, maior a chance de sucesso nas festas. "A fuleragem é que pega", garante o músico Marlon Branco em uma das cenas do documentário de Vladimir Cunha e autor de músicas como "Chupa Safadinha" e "Maciota Light".

Depois de pronta, o autor distribui a música em rádios, programas de TV, sites, e aos ditos 'produtores', que fazem coletâneas das 'melhores' e vendem aos camelôs da zona central. Diariamente, cada rádio popular de Belém recebe cerca de 20 músicas inéditas. Todo esse ramo de distribuição livre de direitos autorais acontece com o consentimento do autor, já que ele tem o objetivo de fazer sua música circular para se tornar conhecida entre o público e assim fazer shows, um dos únicos fins diretamente rentáveis de seu trabalho. "Ninguém abre mão dos direitos autorais. As pessoas apenas procuram outros caminhos de distribuição, vários deles gratuitos, com o interesse de ganhar dinheiro em outros momentos da cadeia produtiva da música, sobretudo em shows ao vivo", garante o antropólogo e estudioso do fenômeno, Hermano Vianna, que recentemente participou do projeto da Fundação Getúlio Vargas sobre mercados open business de produção cultural no Brasil, que resultou num livro completo sobre o movimento, entitulado “Tecnobrega: O Pará reinventado o negócio da música”, da coleção Tramas Urbanas.

Aparelhagem SuperPop - Gustavo Godinho.jpg Aparelhagem Superpop. Foto: Gustavo Godinho

Se as músicas agradarem, passamos ao próximo e talvez mais interessante estágio desta cadeia, com as chamadas 'aparelhagens'. Imagine uma boate itinerante, uma estrutura parecida com aquelas em que os DJ's habitualmente usam em festas de música eletrônica, adicione uma esfera em forma de nave espacial com luzes e lasers por toda sua volta, enormes e potentes caixas de som, vários telões piscantes de LED, acrescente um show pirotécnico e coloque o DJ no meio disso tudo. Essa seria uma descrição aproximada das 'aparelhagens' paraenses, que chegam a cobrar até R$ 30 mil por noite para embalar as festas de periferia em chão de terra batido. Estes grupos protagonizam verdadeiras guerras entre si em busca de popularidade e vence quem provocar maior impacto sonoro e fizer o público vibrar mais.

Cada aparelhagem conta com seu grupo de fãs, as chamadas 'equipes', que seguem a estrutura a cada noite com cantos de guerra e danças específicas. Conforme as batidas foram ficando mais pesadas e rápidas na pista, nasceu o filho mais abusado do tecnobrega, o eletromelody - que carrega em suas letras esse teor mais carregado de rivalidade entre as 'equipes'. Com todo esse verdadeiro ritual e com nome como "Tupinambá Treme-Terra", as aparelhagens - mesmo repletas de tecnologia - por vezes, remetem à identidade índica do brasileiro do Norte. "Existe aí uma mediação africanizada da 'indianidade' brasileira. Mas há, sim, hoje um maior interesse pela cultura indígena entre jovens da Amazônia", garante Vianna.

Os responsáveis por armar as festas de tecnobrega são os concorridos 'festeiros', que atuam como promoters desde a contratação das aparelhagens e das bandas até a divulgação do evento e a negociação por serviços de segurança e ao aluguel do local. São eles que decidem quem irá se apresentar nas festas, por isso se tornam disputados entre os músicos que tentam estreitar laços em busca de um lugar no palco para atingir a sonhada visibilidade e a fama. Em muitas ocasiões, os 'festeiros' e os músicos fazem parcerias e gravam CD's enquanto o show está acontecendo, e no final da noite, vendem as gravações por 5 a 7 reais ao público, que já sai da festa com as músicas inéditas que ouviu. Esta prática e os shows ao vivo são as únicas fontes de renda dos compositores.

No final de um mês, estima-se que ocorram cerca de 4.300 festas de aparelhagem no Pará, segundo dados da FGV. Toda essa produção envolve quantias milionárias a cada mês, com um mercado majoritariamente informal e fora de impostos e estatísticas governamentais. Como é habitual nos mercados paralelos, as leis não conseguem acompanhar as rápidas mutações sociais, fazendo com que as respostas criativas dos subúrbios fiquem fora da legalidade, o que, inevitavelmente, acaba levando ao conflito. Na zona central de Belém não é diferente, com confrontos diários entre vendedores ambulantes e fiscalização municipal. "Seria ótimo se houvesse uma formalização, mas é difícil. Esse não é um problema só do tecnobrega, metade da economia brasileira é informal", explica Vianna. O antropólogo ainda chama a atenção para a nova tendência de direitos abertos, que não pode ser confundida com a pirataria propriamente dita. "Essa distribuição gratuita pelos camelôs e sites não é pirataria. Seria se fosse algo não autorizado pelos autores. A forma de circulação dos bens culturais mudou com a descentralização possível a partir da digitalização da cultura".

296711807_9a787924d4_z.jpg Aparelhagem Superpop. Foto: Henrik Moltke

O fenômeno do tecnobrega é, visivelmente, mais um forte movimento cultural da periferia em resposta à centralização consumista da grande, e decadente, indústria. Esse novo modelo de mercado levou oportunidade de divertimento barato e postos de trabalho a inúmeras pessoas que antes não tinham acesso a oportunidades. Porém, na prática, esse sistema não é tão lógico e efetivo quanto parece, fazendo com que muitos desistam pelo caminho. "Muitos artistas não prosperam ou são roubados e ficam sem grana pra montar uma banda. O DJ Maluquinho, por exemplo, virou pastor da Universal", esclarece o diretor paraense Vladimir Cunha, que viveu o movimento de perto.

Além das dificuldades naturais do meio, as pessoas envolvidas diretamente com o tecnobrega também enfrentam um forte preconceito. "A elite tem vergonha do tecnobrega. A elite paraense quer ser paulista, quer ser loira, quer passar frio. Eles não aceitam o índio, o negro, o mulato, o morador da periferia", alerta Cunha, que garante ser este o grande fator positivo do fenômeno. O diretor diz que o movimento provoca um questionamento social mais complexo e por isso é válido: "O tecnobrega é interessante quando ele invade essa ilha de conforto da elite e confronta as coisas", finaliza. Hoje já não é raro ouvir as batidas da periferia de Belém em regiões menos pobres da cidade, assim como ao redor de todo o país. O ritmo vem ganhando cada vez mais espaço e rasgados elogios de produtores renomados do cenário musical brasileiro, além de servir de inspiração para novas formas de mixagens. Como exemplo, "a geleia do brega" feita pelo DJ Cremoso, que recentemente vem misturando músicas da cena pop internacional com as batidas do brega digital paraense. O resultado? "Reptillia", "Take Me Out" e "Poker Face" embalados pela dançante lambada eletrônica.

Por superar preconceitos, por fazer florescer um novo modelo bem-sucedido de produção musical e ainda atualizar suas raízes, o pobre paraense, mais do que nunca, encontrou na força de sua produção artística e na sua irreverência uma maneira de sobreviver e de driblar a seca criativa dos abastados do Sul, que hoje rebolam nas festas de classe média ao som do brega eletrônico nascido no chão de terra do caboclo pop do Pará.


Maria Fernanda Cavalcanti

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