À boleia da ideia

Em lugares escondidos encontram-se ideias imprevistas

Crónica | Em tudo maus vizinhos

em Crónica por em 28 de mai de 2012 às 19:08 | 2 comentários

Vizinhos – ou se odeia, ou se adora o que nos calhou em sorte. Os meus fazem questão de ser uns queridos fora do prédio, mas assim que se ouvem as chaves na porta, silêncio!, que a experiência traumática vai começar. Será que vão martelar, gritar, chorar, bater com os tacões no soalho flutuante, deixar cair ao chão objectos impossíveis de identificar? É uma questão de esperar uns segundos e perceber qual o estado de espírito dos recém-chegados moradores.

Um casal, três putos e um cão têm feito das minhas manhãs um pesadelo. Dois miúdos, gémeos, correm a casa de ponta a ponta, a bater com os pés calçados no chão a cada passo dado. Felizmente, o outro não anda. Tem 3 meses. Uma avó com voz hedionda canta-lhe pontualmente às 8 horas. Com uma afinação nula insiste em entoar, ora canções de embalar com letras aldrabadas, ora versões de canções do Bonga com laivos de fado. A mulher não entende que o miúdo só chora depois de ela começar com as cantorias. Eu, no andar de baixo, choro com ele.

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Não menosprezar o pequeno canídeo rafeiro da família! Apesar de ser um paz de alma a maior parte do tempo, é incitado a ganir, ladrar e chorar sempre que apetece ao dono. Este dá o mote e o canídeo imita-o com quanto ar tem nos pequenitos pulmões. A brincadeira dura largos minutos e só termina quando, claro, o dono se cansa e lá se ouvem as patitas do resignado cão, afastando-se do local do crime.

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Tudo naquela casa faz lembrar um puzzle que, apesar de completo e com todas as peças, não apresenta o desenho prometido na embalagem. Ainda assim, o que mais desejo, até ardentemente, é que esta família ganhe rapidamente o Euromilhões numa daquelas semanas em que sai tanto dinheiro, mas tanto, que é impossível gastá-lo todo, ainda que se esbange, ainda que se ofereça, ainda que se queime.

Na loucura (provável) de não mudarem de casa mesmo que ganhem uma dinheirama, há pequeninas coisas que é imperativo mudar, hábitos a abandonar, para bem da sanidade mental de toda a vizinhança. O de partir pinhões no chão do quarto acima do meu, por exemplo, que parece ser um dos preferidos do “chefe”, resulta de um estudo apurado de anos, aprimorado até que, apenas com uma mão e com a outra a coçar o ouvido com o mindinho artilhado de unha pontiaguda, conseguiu partir a casca do pinhão usando uma pedra e o chão da sala.

Outro conselho de amiga: é urgente que comprem uma máquina de lavar roupa que não tenha voz ou vontade própria. Que não pareça um porco possuído a saltar pelo abismo, basicamente. A cada giradela o electrodoméstico ganha vida, como um aparentado do Frankenstein, versão branca (e, aposto, ferrugenta). Pelo barulho imagino-a a conquistar terreno, e gira e gira, pela cozinha fora, e gira e gira, a espumar de raiva, e gira e gira, até que é parada pelo fio da electricidade ou pela mangueira da água, que mais não esticam. A muito custo, a gigante branca faz o caminho inverso até ao lugar predestinado, para que ninguém dê por mais uma tentativa de fuga à socapa.

Os factos que vos relato podem ser constatados todos os dias, sem pausas, sem pontes, sem feriados. O que faz de mim uma vizinha muitas vezes à beira da loucura. Em vez de agir em conformidade – imagino-me a bater com a vassoura no tecto, a cantar mais alto, a arranjar pássaros irritantes que cantem o dia todo –, nada faço. Sorrio sempre que passo por eles nas escadas, pergunto pelos miúdos encantadores, dou uma festa ao cão. Tem sido assim há tempo demais. Pode ser que ainda me habitue.

 

Artigo da autoria de Sofia Pires Lopes.
Se tivesse um cêntimo por cada ideia, como levaria todas as moedas para o banco? Com sorte, algumas serão boas e é a essas que peço boleia.
Saiba como fazer parte da obvious.

Comentários

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Catarina

Os meus berram a plenos pulmões e se precisares de actualizar o teu dicionário de calão basta passares umas horas, a qualquer hora, pai, mãe, e filhos insultam-se mutuamente a qualquer hora do dia !!

Parece-me que o que ouves vai ser o que vou ouvir assim que os miúdos tiverem idade para aprender calão! ;)

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