À boleia da ideia

Em lugares escondidos encontram-se ideias imprevistas

Sofia Pires Lopes

Se tivesse um cêntimo por cada ideia, como levaria todas as moedas para o banco? Com sorte, algumas serão boas e é a essas que peço boleia

Prazer em (não) conhecê-lo

Um estranho chama-o e acena do outro lado da rua, mas não o reconhece. No trabalho, uma colega nova sorri entusiasticamente e pergunta pormenores do seu fim-de-semana. Parece-lhe o princípio de um filme de ficção científica? Não para dois por cento da população mundial, que sofre de prosopagnosia, uma condição também conhecida por cegueira facial.


prosopagnosia_aboleiadaideia.jpg

Simplificando, prosopagnosia é uma condição em que os sujeitos não reconhecem os rostos das pessoas que os rodeiam no dia-a-dia, sejam esses rostos de irmãos, pais, filhos ou cônjuges. A doença tanto pode ser adquirida como congénita. No caso da adquirida, surge de danos no lobo occipito-temporal. No caso da prosopagnosia congénita, estudos revelam que a parte do cérebro que reconhece as faces, chamada de fusiforme gyrus, nunca se desenvolve.

filme_prosopagnosia_aboleiadaideia.jpgTerreno fértil para filmes e livros, muitas são as visões romanceadas da doença. Na curta-metragem Prosopagnosia, de 2011, um amigo olha nos olhos o assassino da melhor amiga, sem conseguir reconhecer-lhe os traços faciais. Torna-se o suspeito principal do acto.

Em Faces in the Crowd, Milla Jovovich é uma jovem professora que testemunha, uma vez mais, o assassinato da melhor amiga. Após escapar ao assassino, sofre um acidente e, ao bater com a cabeça, danifica a parte do cérebro responsável pelo reconhecimento facial.

livro_prosopagnosia_aboleiadaideia.jpg“A sua cara é-me estranha”, diria Heather Sellers, a autora do livro You Don’t Look Like Anyone I Know – A True Story of Family, Face Blindness and Forgiveness. A autora, ela própria com cegueira facial, mostra o lado humano e quotidiano de alguém que vive rodeada de pessoas que não identifica.

Acredita-se, após estudos em todo o mundo, que cerca dez por centro da população sofra de uma forma leve de prosopagnosia. Para ajudar no diagnóstico, são 7 as questões a colocar:

  1. Alguma vez não reconheceu um amigo ou familiar?
  2. Quando conhece alguém, tenta memorizar alguma característica distintiva que não a cara?
  3. Perde-se ao ver filmes ou séries na TV, especialmente quando há vários actores semelhantes?
  4. Não se reconhece ao espelho ou em fotografias?
  5. Quando alguém lhe acena, há uma grande probabilidade de não reconher a pessoa?
  6. Se alguém próximo a si corta o cabelo, tem dificuldade em reconheê-lo/a?
  7. Difilmente reconhece vizinhos, amigos, colegas, clientes, colegas de escola?
Até agora, nenhuma das terapias apresentadas por estudiosos se mostrou válida para curar, ou sequer melhorar, a condição dos prosopagnósicos. Pense nas pessoas que conheceu na sua vida até hoje. Imagina-se a não reconhecer nenhuma delas?

Sofia Pires Lopes

Se tivesse um cêntimo por cada ideia, como levaria todas as moedas para o banco? Com sorte, algumas serão boas e é a essas que peço boleia.
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