À boleia da ideia

Em lugares escondidos encontram-se ideias imprevistas

Sofia Pires Lopes

Se tivesse um cêntimo por cada ideia, como levaria todas as moedas para o banco? Com sorte, algumas serão boas e é a essas que peço boleia

Esta vida mata-me

Medo e religião, respeito, liberdade ou até felicidade. São estes alguns dos termos indissociáveis do tema da morte, essa certeza maior que todos carregamos connosco desde o momento da fecundação. Não há dúvida: viver mata.


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“Deus irá perdoar-me: é o Seu ofício.” Últimas palavras de Heinrich Heine, poeta romântico alemão. Se a morte fosse um recomeço e o Inferno mera fantasia criada pelo paganismo e reaproveitado pela religião, a vida como a conhecemos seria radicalmente diferente. Penso nisto pela primeira vez enquanto acompanho a minha avó, religiosa a partir do momento em que se foi o meu avô, na reza do terço. Ela e as outras mulheres repetem mecanicamente: “Ó meu Jesus, perdoai-nos e livrai-nos do fogo do Inferno. Levai as almas todas para o Céu e socorrei principalmente aquelas que mais precisarem.” Sim, eu ouvi bem: disseram mesmo “fogo do Inferno”. Perco-me automaticamente da ladainha e divago. O que fazem a maior parte das pessoas deste mundo para que receiem o tal do Inferno, de que nada se sabe? Alguma mentira piedosa, o pecado (recorrente) da gula aqui e ali? Ao que parece, basta um sentimento – o arrependimento – para que o destino final não seja o Inferno, mas sim o tão desejado Céu. Compensa pecar durante toda a vida e arrepender-se bem lá mais para a frente. As regras deste jogo parecem simples demais.

“Estou ainda na terra dos mortos; estarei na terra dos vivos em breve.” Últimas palavras de John Newton, clérigo Anglicano, convertido traficante de escravos. No meio desta roda-viva de sentimentos contrários – como mais ou não como, faço ou não faço, dou a outra face ou já me chega? –, o livre-arbítrio parece ficar acanhadamente refugiado na Terra do Nunca. A livre escolha que nos permite agir de acordo com a nossa consciência moral esbarra inevitavelmente nos pré-conceitos do que é certo e que, em última análise, nos permite a entrada no Céu. Além de atravessarmos, neste ponto, a discussão filosófica e religiosa forçosa – será que existe realmente livre-arbítrio? –, compreende-se que, ao aliar-lhe as crenças religiosas (com que nos educam e que nos inculcam desde sempre), a resposta é um estrondoso “Não!”. Se me apetece ou não repetir a sobremesa é opção minha, mas se estou saciada e é inevitável ficar indisposta se o fizer, das três, uma: escolho não comer por questões de saúde; escolho não comer por questões morais ou religiosas; ou como, simplesmente, sofrendo estoicamente o que fortuna me trouxer.

“Agora começa o mistério!” Henry Ward Beecher Embora todos conheçamos casos de pessoas declaradas mortas por alguns momentos antes de serem reconvocadas à vida, são poucas (ou nenhumas) as que voltam com relatos do que se experienciou do outro lado. Experiências extracorporais, em que o indivíduo se vê a si próprio e à cena “de fora”, são as mais descritas e a ciência tenta até explicá-las, chamando-as de alucinações ou de casos em que a mente do indivíduo acorda primeiro que o seu corpo. Ainda assim, vários livros têm sido editados nos últimos tempos sobre este tema. Livros como “O Céu Existe Mesmo”(de Todd Burpo) e “Uma Prova do Céu” (de Eben Alexander), ambos publicados pela editora Lua de Papel (em Portugal), trazem novas informações. No primeiro livro, a experiência relatada é a de Colton Burpo, um menino de quatro anos que foi operado de urgência a uma apendicite aguda. Algum tempo depois contou aos pais, de forma despretensiosa, acerca de anjos que o visitaram nessa altura, de encontros com Deus e Jesus e da sua visita ao Céu. Já em “Uma Prova do Céu”, o relato chega-nos de um reputado (e, até então, céptico) neurocirurgião norte-americano, Raymond Moody. Em morte cerebral durante uma semana, devido a uma espécie rara de meningite, volta a si antes que a máquina fosse desligada. Desses dias traz um relato que engloba anjos, encontros com Deus e importantes mensagens que o fazem acreditar na vida após a morte. Em ambos os casos, as narrativas chegam-nos de duas fontes credíveis: uma criança de tenra idade e um neurocirurgião renomado. Trarão elas as respostas às questões que nos afligem e atormentam?

“Porque choram? Pensavam que era imortal?” Louis XIV, rei francês Antes deles, Allan Kardec, escritor, tradutor e codificador da Doutrina Espírita tinha escrito o livro “O Céu e o Inferno”, em 1865, considerado hoje uma das obras basilares do espiritismo. Na obra, Kardec fala, entre tantos assuntos, no temor da morte; no Céu e o Inferno, tão colado ao Inferno pagão; nos limbos; nos anjos; mas também conta, na primeira pessoa, diálogos que manteve com espíritos e as suas impressões acerca do Além, chegando a compilar casos reais para melhor compreender a importância da Lei de Causa e Efeito no momento da morte. Kardek contactou diversos tipos de espíritos: felizes e infelizes, sofredores, suicidas e espíritos endurecidos. Estes últimos não devem ter seguido a máxima de Mark Twain, que aconselhava ir “para o céu pelo clima, para o inferno pela companhia”.

“Oh uau. Oh uau. Oh uau.” Últimas palavras de Steve Jobs, inventor, empresário, co-fundador da Apple, Inc.. Talvez a última expressão que mais curiosidade suscita seja a de Steve Jobs. “Uau”, exclamou no momento da sua morte. Mas “uau” pelo que sentia no momento, pela concretização de que tinha chegado a hora H, pela abertura das portas para o espectáculo final? Pode parecer um bom presságio para o que nos espera, mas só saberemos quando nos encontrarmos com ele do outro lado.


Sofia Pires Lopes

Se tivesse um cêntimo por cada ideia, como levaria todas as moedas para o banco? Com sorte, algumas serão boas e é a essas que peço boleia.
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