a bruta flor

Procurando pela arte que floresce - ou que faz florescer

Débora Stevaux

à flor da dor

Dia 25 de Novembro é considerado o Dia Internacional de Combate à Violência Contra a Mulher e é imprescindível que todas nós cumpramos o nosso papel de refletirmos minimamente sobre este mal que assola e por vezes destrói a vida de tantas mulheres.


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Quando estava cruzando uma das avenidas mais movimentadas da minha cidade, fui surpreendida por uma mulher; seu nome começava com C. Não me lembro se era Clélia ou Cleuza, portanto vou chamá-la apenas de C. A morena que aparentava ter uns vinte e cinco anos, abordou-me pedindo uma informação: "Você sabe onde fica esse lugar?", em mãos, tinha um papel com o nome de uma rua, seguido de um número, as letras feitas com uma caligrafia primária. Como nunca tive boa memória fotográfica, pedi um ponto de referência. C. me disse então ser perto do SESC, e por coincidência eu iria para lá comprar ingressos para um espetáculo.

Eram 5h45 quando nos demos com o SESC fechado, tinha me esquecido que não funcionava às segundas. Seguindo para o destino de C, a perguntei para onde estávamos indo, e ela me respondeu cabisbaixa: "É a Delegacia da Mulher..." Conseguimos chegar à DDM com os ponteiros marcando 5h50. O prédio não possuía identificação alguma, ao me despedir de C, fui surpreendida por um pedido: "Você não pode entrar comigo?" Aceitei sem hesitar, não era preciso que eu a acompanhasse, mas era o mínimo que eu podia fazer por ela.

Ao entrar, uma funcionária apressada nos perguntou o que nós queríamos, C. não respondeu. Eu disse que precisaríamos falar com a delegada. A atendente logo respondeu que a delegada saia antes do fechamento. Neste momento, C. começou a se desesperar, "- Eu tive que pegar 3 ônibus pra vir aqui...", logo depois, descobri o real motivo de estarmos lá: "- O meu ex-namorado me ameaçando, indo atrás de mim. Ele já ameaçou a minha família, já me ameaçou, disse que se eu tiver com alguém, ele me mata e mata a pessoa também." Interrompida, C. foi informada que não havia nada para se fazer. "- Mas você já fez boletim de ocorrência? - Já fiz dois. - Então, você precisa ir até a delegacia do seu bairro. - Mesmo já tendo feito o boletim? - Sim, você precisa falar com a polícia do seu bairro." Ela se calou e eu incomodada perguntei se não havia algum papel, alguma segurança, algum certificado de que a moça estaria minimamente segura. A funcionária loira numa risada irônica disse: "Meu amor, se nem aqui a gente tem segurança..."

Estávamos de saída, quando a mulher perguntou qual seria o horário em que a delegada estaria presente. "Ah, às vezes ela sai às quatro, às vezes às cinco, depende..." Fomos embora de lá com um depende, depende da boa vontade da delegada, depende das providências tomadas, depende se C. estaria viva até amanhã, "depende". A moça morena disse que faltaria do seu emprego de cozinheira, num restaurante chique do outro lado da cidade, para vir à delegacia.

Na volta para o ponto de ônibus, era visível a aflição de C. que, frequentemente, olhava para trás procurando alguém que estivesse nos seguindo. Ao atender uma ligação de um familiar, pude ouvir com voz trêmula a seguinte frase de sua boca: "Ah, ninguém dá muita bola não. Se ele quiser me matar, ele vai." Agradecida por tê-la acompanhado, me despedi dela como quem se despede de uma culpa.

Naquele momento, me vi totalmente antagônica sua figura. Não pela possibilidade de não ser vítima da violência contra as mulheres, mas por fazer parte de um seleto grupo chamado de elite, alfabetizada, diferente do outro grupo que compõe o conjunto-universo da sociedade brasileira, o povo, a classe C, a qual C. pertence. Por ter possuído mais oportunidades, a minha maneira de combinar as variedades do código da minha língua pátria me fez ter uma vivência clara do descaso do Estado frente aos casos de violência doméstica. Além dos obstáculos naturalmente culturais impostos à C., ainda havia o da sua própria língua mãe. Nos meus livros de Sociologia, esta situação parecia ser bem menos cruel. Deve ser porque as vítimas da violência doméstica que são apresentadas não têm nome, mas fazem parte de um frívolo número estatístico.

De acordo com o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, o feminicídio é a “expressão máxima da violência contra a mulher”. Também chamados de femicídios são geralmente perpetrados por homens, em sua maioria, parceiros ou ex-parceiros; decorrentes de situações abusivas, sejam por ameaças, intimidações ou violência sexual. Este tipo de crime é realizado em situações em que há um evidente conflito de gênero: uma mulher morre simplesmente por ser do gênero feminino: a essência é destruída pela simples justificativa de sua existência. Ainda segundo os dados do Instituto, 40% de todos os homicídios de pessoas do sexo feminino no mundo são cometidos por um parceiro íntimo. O número ainda é mais assustador quando comparado com o assassinato de homens por suas parceiras: a estatística de feminicídios é 6,6% maior que os homicídios de indivíduos de gênero masculino.

Entre 2001 e 2011, são contabilizados cerca de 50 mil feminicídios, o que equivale a 5000 mulheres mortas por ano. A grande parte dos óbitos é de responsabilidade da violência doméstica e familiar contra a mulher, visto que um terço dos casos tiveram o domicílio como local da ocorrência. O meu maior temor é que a moça que encontrei no vermelho dos semáforos e apelidei de C. esteja representada estatisticamente nestes dados.


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