Bruno Nogueira

Bruno Nogueira é estudante, escritor, professor, e come livros com curiosidade.

2666: os crimes e a tsunami

2666 e 9.03m - colocando o indivíduo acima da estatística.


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Em outubro de 2004, Roberto Bolaño (não confundir com o Roberto Bolaños, o Chaves) escreveu um livro que, de lá pra cá aparentemente ainda não foi superado.

Apesar de ser grandinho (cerca de 900 páginas) o livro conseguiu se tornar um best-seller nos Estados Unidos, inclusive com um empurrãozinho da Oprah, que conseguiu uma cópia pré-publicação, a leu, e elogiou para os milhões e milhões de americanos que assistem a seu programa.

Conforme atravesso o livro, estou chegando a algumas conclusões e as colocando aqui, e uma delas é a inesperada relação que encontrei entre o livro e um jogo chamado 9.03m, a respeito do qual fiz alguns comentários em meu post sobre games e arte, que vocês podem conferir aqui - faço um resumo rapidamente, de qualquer forma.

O jogo em questão foi desenvolvido para tentar humanizar as vítimas da tsunami no Japão, ressaltando o fato de que elas foram uma perda inimaginável - o que parece passar despercebido nas estatísticas; segundo os desenvolvedores, colocar um número, dizer simplesmente que morreram mais de 200 mil pessoas, é não perceber o verdadeiro impacto; a perda de cada uma dessas pessoas, vista isoladamente, é o que vai mostrar o verdadeiro horror e tristeza da tragédia. Tentando imaginar, a partir de objetos que chegaram à costa da Califórnia depois de serem tragados pelo mar, seus donos e suas histórias, eles criam a premissa do brevíssimo jogo.

2013-12-01_00004.jpg Na aliança, encontrada na Califórnia alguns meses depois da Tsunami, se lê: "Amor, Vida & Felicidade - Juntos"

2666, por sua vez, é divido em cinco partes, sendo a quarta delas chamada "A Parte dos Crimes".

Nela, o autor fala a respeito das mulheres que foram assassinadas na cidade fictícia de Santa Teresa, norte do México - e que, pelos casos de assassinatos e proximidade com a fronteira dos EUA, parece ser, na realidade, uma reimaginação fictícia de Ciudad Juárez.

ciudad-juarez-42.jpg Ciudad Juárez

Em Ciudad Juárez, foram reconhecidas pela Anistia Internacional, 370 casos de mulheres assassinadas "por crimes de ódio" e 400 desaparecidas de 1993 a 2004 - é a esses crimes que Bolaño se refere em sua obra.

Ao longo de centenas de páginas, ele descreve, detalhadamente, todos os crimes cometidos contra mulheres em Santa Teresa. Ele fala onde e como seus corpos foram encontrados, o estado em que o corpo estava, se se conseguiu identificá-la ou não e, se sim, quem era, onde trabalhava, o que a polícia fez (quando fez alguma coisa), e etc.

Imaginem a leitura de centenas de casos de assassinatos cruéis envolvendo estupros e mutilações que vocês terão uma ideia.

Claro, o autor coloca algumas histórias paralelas ao longo dos crimes de maneira que não fique absolutamente insuportável, mas você não consegue deixar de sair do livro com um gosto amargo, uma sensação ruim de desconforto. E acredito que um dos motivos é que Bolaño está fazendo exatamente o que os criadores de 9.03m viriam a fazer com seu jogo: ele está humanizando cada uma daquelas mulheres.

Ao invés de simplesmente dizer um número, ele descreve Todos os casos que pode, um número enorme deles. Cada uma das mulheres recebe um pouco de sua atenção, e isso tem diversos efeitos. Em muitos dos casos fica uma sensação de "como um ser humano pode fazer isso?" A quantidade de crimes pesa e nos faz pensar. Olhamos para cada uma daquelas mulheres, a grande maioria trabalhadoras, muitas crianças, e pensamos Como esse tipo de coisa pode acontecer?

Refletimos sobre as ações da polícia, sobre os estereótipos, o machismo, e até onde vai a crueldade humana - pois nós não estamos vendo um número, estamos vendo inúmeras mulheres, inúmeros assassinatos, caso por caso, a história de diversos indivíduos isolados, com suas vidas, seus sonhos, suas famílias...

E aí está a diferença entre a estatística e os indivíduos; é por isso que Bolaño fala de tantos crimes e parece nos testar como leitores em um livro que, em suas outras partes, tende a ser muito mais leve: ele quer que sintamos o peso, que fiquemos desconfortáveis, que paremos pra pensar nem que seja um pouco no mundo em que vivemos.

E pelo menos com um leitor, isso deu certo.

Bolaño, é claro, não é o único artista a perceber a gravidade da situação; também merece menção, especialmente, a artista mexicana Elina Chauvet, que além de seus trabalhos em homenagem às mulheres mortas , elaborou um protesto frente ao consulado Mexicano, colocando na calçada milhares de sapatos vermelhos, representando as hoje mais de mil mulheres mortas:

elina-chauvet1.jpg Elina Chauvet frente à sua manifestação artística.


Bruno Nogueira

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