Bruno Nogueira

Bruno Nogueira é estudante, escritor, professor, e come livros com curiosidade.

A arte nos jogos

Há pouco tempo, vídeo-games eram vistos apenas como passatempo para crianças; mas assim como elas, eles também cresceram, amadureceram, e sua criação e distribuição se tornaram mais fáceis, levando ao desenvolvimento de jogos cujo objetivo não são os lucros ou uma breve distração, mas a criação de verdadeiras obras de arte.


Dear Esther2.jpg Imagem de "Dear Esther"

O cineasta David Lynch, em seu livro "Águas profundas", afirma que nunca se deve explicar sobre o que é um filme. Ele diz que nos subestimamos, que por meio de nossa intuição entendemos muito mais que pensamos.

Jogos tampouco devem ser explicados, mas longe de serem apenas vistos, sua história se conta por meio da observação e das ações dos jogadores. Assim é "Dear Esther":

Preso em uma ilha belamente construída, você precisa apenas andar por ela. Conforme chega em algumas áreas, você ouvirá a voz de um homem que narra sua vida ali, e explorará o lugar aos poucos, para ouvir mais sobre sua história - imerso, é claro, em uma maravilhosa trilha sonora, da qual segue um exemplo:

O jogo, por mais que não exija mais que o uso de poucos botões e a movimentação do mouse, pede que o jogador esteja atento, e observe os sinais e as belíssimas paisagens e locais à volta para que consiga compreender por completo uma história narrada por um homem que, aos poucos, perde sua sanidade, conforme se afunda em metáforas e analogias.

Dear Esther4 altered.jpg Nessa imagem, se lê algumas frases ouvidas ao longo do jogo

Nesses jogos, você não apenas vê alguém caminhando, mas quem caminha é você. É impossível, em meio a belas cenas e uma trilha sonora envolvente, não se "submergir" e ficar cada vez mais curioso pela história que você mesmo vai desvendando aos poucos.

Há ainda uma outra característica inerente aos jogos: sua própria mecânica, o modo como eles funcionam, os botões que é preciso apertar e o que é preciso fazer - podem funcionar como metáforas.

É assim que funciona Loneliness:

Loneliness.png

Demonstrando o poder dessa arte, nesse jogo em que nenhuma palavra é dita você controla um único pixel, usando apenas as setas do teclado - e tem uma experiência da solidão como poucas.

Loneliness foi inspirado pelo fato de que crianças e adolescentes coreanos estão entre os menos satisfeitos com suas vidas, e listam a solidão como um dos principais fatores responsáveis. O criador do jogo foi professor de crianças coreanas por um ano, e fez esse jogo em sua homenagem. Com menos de cinco minutos de duração e uma trilha sonora magnífica, ele se faz entender apesar de sua simplicidade.

Loneliness não precisa ser instalado, e pode ser jogado gratuitamente aqui.

Por último, e não menos importante: 9.03m

Além de belo, esse jogo tem um objetivo nobre: ressaltar a importância de cada pessoa morta na tsunami que atingiu o Japão em março de 2011. O cenário do jogo é a Baker Beach, na Califórnia, praia na qual vieram à superfície muitos objetos que pertenciam a pessoas mortas pela tragédia, e foram tragados pelo mar.

Segundo os idealizadores, é preciso "humanizar" essas pessoas, que são rapidamente reduzidas a estatísticas pelos jornais. O jogo foca na história pessoal e única de algumas vítimas da tragédia - conforme imaginada a partir de alguns dos objetos encontrados. Todos os seus lucros são revertidos para instituições de caridade.

2013-12-01_00004.jpg Um dos itens que se encontra ao longo de 9.03m

O uso de quase que apenas variados tons da cor azul, e uma trilha sonora lenta e espaçada, nos mostra como técnicas cinematográficas e pictóricas encontram seu caminho dentro dos games.

Quando o cinema e a fotografia surgiram, nos trouxeram novos modos de enxergar o mundo, novas possibilidades de criação artística, e nos levaram a alterar e re-imaginar as formas de arte que já existiam - como a literatura.

Talvez seja importante observarmos o surgimento e crescimento dessa nova forma de arte - da qual dei apenas pouquíssimos exemplos - e pensarmos a respeito de suas características específicas, e de sua capacidade de tocar as pessoas por meio de uma intensa imersão em uma experiência que, em muitos casos, chega a parecer própria, pessoal. Talvez ela possa até mesmo nos levar a novas formas de desenvolvimento das artes com as quais já lidamos há tempos.

Talvez, é claro, isso seja puro otimismo; mas uma coisa é verdade: muitos jogos são verdadeiras obras de arte, e seria um grande desperdício não enxergá-los como tal.


Bruno Nogueira

Bruno Nogueira é estudante, escritor, professor, e come livros com curiosidade..
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