Bruno Nogueira

Bruno Nogueira é estudante, escritor, professor, e come livros com curiosidade.

Capital Cities contra o tédio

As letras anti-paciência da banda Capital Cities, e porque elas são boas.


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Vinda de Los Angeles, Capital Cities é mais uma dessas bandas que hoje em dia vemos muito por aí: uma música que não acho exagero chamar de pop (no bom sentido), um indie eletrônico com bom humor e um ritmo animado. Com certeza o show dos caras no Lollapalooza vai ser bom.

Mas a bem da verdade, não gosto TANTO assim deles. Eu recomendo, mas não cheguei a me apaixonar, e com exceção de uma ou outra música (como Farrah Fawcett's Hair, que aparece mais abaixo) gosto apenas moderadamente.

"Mas então por que, meu caro Bruno", você me pergunta com louvável curiosidade, "por que você se deu ao trabalho de fazer um post justo sobre essa banda, se ela não é tão boa?"

E eu respondo a você que, primeiro, eu não disse que a banda "não é tão boa", como você interpreta tão descuidadamente: eu disse que EU não gosto tanto, minha opinião pessoal e nada mais; mas conforme eu vagava pelo CD para conhecer melhor, já que eu possivelmente iria para o Lolla e queria me preparar, percebi que há um tema subjacente em todas as músicas do CD, ou quase:

(A versão acima da música Patience Gets Us Nowhere Fast ("A Paciência nos Leva Rapidamente a Lugar Nenhum") é um remix da versão original que pode ser vista aqui*.)

O título da música já indica a respeito do quê eu estou falando - assim como o título da segunda música que menos me agrada no CD (ironicamente): "I sold my bed but, not my stereo" ("Eu vendi a minha cama, mas não meu estéreo"**). As letras de "Central Stage" ("Palco Principal") e "Lazy Lies" ("Mentiras Preguiçosas"), e trechos de várias outras também transmitem a mesma ideia: não fique parado - e aqui essa frase não se traduz simplesmente em: "dance!", mas é um modo de reafirmar a velha (mas sempre necessária) ideia de que a vida não espera.

Detesto a filosofia do sono e da calma; e hoje em dia, tem tanto livro não lido, filme não visto, música não ouvida e lugar não visitado que sempre me pego me lembrando com arrependimento das tardes dormidas na adolescência: esse tempo já era.

E quando eles indicam que a paciência não leva a lugar nenhum, ao menos até onde entendo, eles não falam da paciência com os outros, que talvez possa ser traduzida em compreensão, ou da paciência que te ajuda a "aguentar" determinadas situações (ou pessoas); o alvo aqui é a paciência de se ficar sentado, esperando, achando que alguma coisa vai acontecer (ou pior: simplesmente não achando nada), ou, como diz a letra de Time, do Pink Floyd, ficar "esperando algo ou alguma coisa que mostre o caminho" ("waiting for someone or something to show you the way").

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Então um viva a vocês, adolescentes (ou não) que não ficam deitados dormindo sempre que tem uma oportunidade, que tentam fazer alguma coisa durante o dia, que fotografam e pintam e ouvem e produzem e escrevem e conversam e fazem tantas outras milhares de coisas ao invés de simplesmente se deitar na cama. É claro: há aqueles que levam vidas difíceis e para quem é complicado ter qualquer tempo livre*** - mas essas pessoas (que com certeza merecem algumas boas oportunidades para dormir) são a quem temos que observar para perceber o quanto o tempo que temos é curto, e raro.

Aproveitem!

* Esse é provavelmente o único remix que eu já vi de uma música não tão rápida cujo efeito é deixar a música mais lenta que a original - mas além de ter ficado bom, coloco porque é um ótimo vídeo, além de ser o único que eu encontrei para essa música.

** Palavra terrível de se traduzir. Ninguém fala "estéreo" em português, mas "som" ficaria muito diferente e sem graça, e "som estéreo" chegaria a ser ridículo. Sugestões são bem-vindas.

*** Pessoas cuja vida me lembra a do fantástico escritor brasileiro João Antônio, de quem com certeza vou falar um dia desses.


Bruno Nogueira

Bruno Nogueira é estudante, escritor, professor, e come livros com curiosidade..
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