Bruno Nogueira

Bruno Nogueira é estudante, escritor, professor, e come livros com curiosidade.

Old spice não, por favor

O simples fato de que possa ser necessário explicar porque as propagandas de Old Spice são ruins já é um mau sinal.


judith-butler.jpg A filósofa feminista Judith Butler

Hoje em dia, graças em parte à (bem complexa, diga-se de passagem) obra dessa moça acima, a fantástica Judith Butler, que se insere (entre outras coisas) na "terceira onda" do feminismo, muita, muita coisa está sendo questionada, e como tudo isso é bem complicado, decidi falar pelas seguintes etapas: PBS Idea Channel e My Little Pony, Mia Couto, e Old Spice.

Segura, que muita gente torce o nariz na primeira. Mas vamos lá.

bronies.jpg Mike Rugnetta e um Pônei

PBS Idea Channel é um canal do YouTube cujo apresentador é Mike Rugnetta (que inclusive ganhou esse ano o Webby, o maior prêmio da internet, de melhor apresentador), e no qual são discutidas questões variadas demais para que eu possa definir em uma palavra; mas para dar alguns exemplos de perguntas propostas pelo programa em seus episódios, há alguns títulos como: "Você 'escolhe' ter sua privacidade invadida ao utilizar a tecnologia?", "A ficção existe?", "Reality Shows afetam nossa visão a respeito da vigilância da sociedade?", e "A matemática é uma característica do universo ou uma criação do homem?"

E esses são só alguns exemplos. Rugnetta é um cara extremamente inteligente, que em geral utiliza ótimas referências na produção de seus vídeos, e que em muitos casos admite sem meias palavras suas falhas e incapacidades; há muitos comentários e comentadores interessantes, e eu recomendo muito o canal. Infelizmente a maioria dos vídeos não tem legenda em português, mas alguns tem legenda em inglês. Quem puder, assista! O número de legendas em portugês, aos poucos, vem aumentando.

O vídeo específico que nos interessa está aqui:

"Os bronies estão mudando a definição de masculinidade?"

Bem resumidamente, descrevo: esse vídeo fala sobre os Bronies, grupos de homens crescidos que são fãs confessos e ativos de My Little Pony (sim, aquele desenho com os poneizinhos fofos). Pra quem acha que isso deve ser algo pequeno e restrito a um grupo de americanos estranhos, coloco aqui o link para o blog Bronies Brasil, um blog de fãs brasileiros do programa, e o grupo Bronies Latinos do facebook - se procurar, inclusive, prepare-se para achar inumeráveis grupos.

Como diz Rugnetta em seu vídeo, eles são, simplesmente, caras que decidiram que não há nada de errado em gostar de um programa de televisão feito para "menininhas", com unicórnios coloridos, que fala sobre a importância mágica da amizade.

bronies_head.jpg Bronies

Normalmente, quando eu comento sobre isso para alguém, é por aqui que começam as frases do tipo "Que bobagem", "Esse povo é doido", e similares. E é bem aqui, mesmo, que eu quero convidar você a tentar encarar isso de uma perspectiva um pouco mais séria. É aqui que eu quero começar.

Rugnetta, em seu vídeo, fala sobre Judith Butler. Ele menciona brevemente, mas no que é essencialemnte necessário, a teoria da autora de que o gênero é questão de performatividade - assim como, até certo ponto, quase tudo.

Em outras palavras: existem certas ações e coisas que se espera de uma mulher, de um homem, ou de uma criança; é aceitável que menininhas assistam a My Little Pony, isso faz parte da "performance" que se espera delas; mas um homem que assiste ao programa estaria, de certa forma, agindo fora da performance esperada. Para muitas pessoas, ele não estaria, para colocar de forma crua e escrota, "sendo homem".

Essa definição social "padrão" do que seria adequado a cada gênero, seria fluida, mutável, e foi utilizada por muito tempo como uma das ferramentas para manter minorias ou qualquer classe socialmente rebaixada, abaixo. Seria a noção antiga de qual é a performance adequada ou não para mulheres e para homens que as teria colocado em uma posição de submissão por tanto tempo, e é a atualização dessa noção, é a percepção de que a performance de qualquer atividade é válida para ambos os sexos, que deveria ser procurada, e que faz com que a passos lentos o mundo se aproxime mais do ideal estado de igualdade entre eles.

Os Bronies, ao assistir My Little Pony, estão questionando o que representa assistir a esse programa, e a própria definição de masculinidade - mesmo que não intencionalmente.

Mas isso o Rugnetta já fala no vídeo; o que ele não comenta, contudo, é que essa noção de performatividade se expande para além do escopo dos gêneros.

index.jpeg A Varanda do Frangipani, de Mia Couto

Estou, nesse momento, tendo que escrever um artigo para a universidade a respeito do livro acima: A Varanda do Frangipani, do autor moçambicano Mia Couto.

Um grande autor da literatura de Moçambique, da Literatura Africana em língua portuguesa, e cada vez mais, da literatura mundial, Mia Couto tem como uma de suas maiores influências Guimarães Rosa, e a cada dia o reconhecimento a respeito de sua obra cresce.

Em "A Varanda do Frangipani" existe um exemplo lindo e bem desenhado da questão da performatividade (eu me arriscaria dizer, sem procurar extrair qualquer conclusão disso, que a vida do autor foi importante para levá-lo às reflexões de que vou falar - mais especificamente, o fato de que ele é um homem bem branco, de olhos claros e cabelo louro, filho de pais portugueses, mas nascido em Moçambique. Em outras palavras, um perfeito representante dos não muito simpáticos ex-colonizadores portugueses).

miacouto.jpg Mia Couto

Mas "apesar disso" ele era um homem de leituras, inteligente, e observou a situação do país que, afinal, era sua verdadeira pátria, com um olhar que vinha de dentro, crítico sobre as guerras tanto internas quanto aquelas que finalmente livraram Moçambique da dominação portuguesa.

Ele também refletiu, ainda que talvez não com essas palavras, a respeito da relação entre os negros e os brancos do país, de uma maneira que se aproxima muito da questão da performatividade.

N'"A Varanda do Frangipani", ele fala a respeito de um inspetor Moçambicano que passou a vida inteira estudando na capital, e que é levado para um asilo para tentar descobrir como se deu a morte do homem que era, então, o diretor do lugar.

O inspetor, Izidine Naíta, não encontra boa recepção por parte dos idosos instalados no asilo e, ainda que seja negro, natural de Moçambique, ele ouve a seguinte frase por parte de um português que é um dos moradores do asilo:

"Me leve a sério, inspector: o senhor nunca há-de descobrir a verdade desse morto. Primeiro, esses meus amigos, pretos, nunca lhe vão contar realidades. Para eles o senhor é um mezungo, um branco como eu. Eles aprenderam, desde a séculos, a não se abrirem perante mezungos."

Naíta não é visto pelos idosos do asilo como branco pela cor de sua pele, mas pela sua "performance". Ele pode mesmo ser considerado um deles, se não acredita nem segue suas tradições?, se passou a vida toda estudando em universidades da capital?, e parece se achar tão superior a eles quanto qualquer outro português se acha? Sua pele poderia ser tão escura quanto fosse, que ele continuaria sendo branco, mezungo - e esse não é o único caso desses na obra, que recomendo muito.

oldspice-683016.jpg porcaria

Chegamos, então a isso: o Old Spice.

Tudo o que foi dito até agora foi uma tentativa de deixar clara uma coisa complexa que poderia ser simplificada de uma maneira bem simples: você é definido por suas ações.

Mas isso não acontece de maneira simples. A sociedade vai lá, te observa bem observado, pega suas ações, cria expectativas baseadas nas ações que ela observou, e daí em diante te vigia para que você não faça nada inesperado. Isso é uma merda - mas também significa que uma quantidade suficientemente grande de pessoas dispostas a mudarem suas ações podem mudar a percepção da sociedade a respeito dessas coisas - criar novos paradigmas de análise dessa performance. Como eu disse lá em cima, a noção de performatividade é fluida. Os bronies, por exemplo, podem mudar a noção de performatividade a respeito de determinados tipos de programas televisivos.

É claro que isso continua sendo uma bosta: o ideal seria que não houvessem limites quaisquer, e que qualquer espécie de performance coubesse dentro do nosso coração de mãe horizonte de expectativas. Eu, pessoalmente, não sou tão otimista assim, nem sei se isso é possível; mas com certeza seria ótimo.

E é por isso que eu não gosto das propagandas do Old Spice.

Elas, mesmo se de maneira caricatural, funcionam como uma manutenção das noções já bem velhas e imbecis a respeito do que significa ser homem - e isso, quer percebamos ou não, influencia nossa noção do que significa não ser homem, e até mesmo do que significa ser mulher ou ser homossexual (vou repetir pra deixar claro: não ser homem e ser homossexual são coisas completamente diferentes).

Compartilhar essas propagandas ou mesmo consumir esse produto é, sem brincadeiras ou exageros, uma expressão social. Pode ser que você compre porque gosta do cheiro, mas ainda assim, você está expressando que não te incomoda aquilo que essa empresa prega.

[Prevendo determinados tipos de crítica, quero deixar uma coisa clara: eu entendo que muitas coisas que compramos, algumas até sem as quais praticamente não conseguimos viver, são fabricadas por empresas muito mais FDP's que a Old Spice - seja por produzir produtos a partir de fábricas que utilizam mão de obra infantil, ou outras razões, e que nós em geral tendemos a comprar sem mesmo nos preocupar com isso, e quanto a isso, tenho duas respostas:

(1) Se você souber que uma empresa realmente faz ativamente esse tipo de crueldade, não compre dela. Sou capaz de apostar que seja lá no que for, há outras empresas que produzem produtos do mesmo gênero, e mantenho que apesar do mar de lama em que elas nadam, não custa nada evitar ao menos aquelas das quais sabemos alguma podridão.

(2) Old Spice tem um defeito adicional em relação à grande maioria: uma das porcarias que eles pregam é a principal ferramenta de marketing dos caras. As outras empresas não costumam a falar pra todo mundo "Ei, olha como minha empresa tem uma ideologia FDP, mostre que você também é assim e compre meu produto!" Em geral, não sabemos de onde vem a maioria dos produtos da maioria das empresas das quais compramos, e muita da sujeira nunca é, afinal, descoberta. Mas você não tem como dizer que não sabia que Old Spice tinha uma ideologia péssima quando comprou.

(exceto, claro, que você nunca tenha visto uma propaganda deles e comprado aleatoriamente por aí, o que é estranho mas pode acontecer).]

Se a performance define como a sociedade te enxerga, então é através de atos simples que você revela quanto de você é homem, quanto é mulher, quanto é homossexual, quanto é negro e quanto é branco, e especialmente, é através dela que você pode demonstrar que na verdade, nenhum desses rótulos quer dizer nada, já que todos eles, afinal, são motivos de alegria.

Se um dia atingirmos esse estado em que nenhuma performance é proibida ou necessária para que se possua qualquer um desses traços, será porque eles não existirão mais - e com certeza ninguém vai notar, porque estaremos ocupados demais sendo felizes.


Bruno Nogueira

Bruno Nogueira é estudante, escritor, professor, e come livros com curiosidade..
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