a entropia tende ao infinito.

O que seria a ordem sem o caos?

Luciano Leonel Mendes

Se você está há muito tempo sem sentir aquele frio na barriga, então você está fazendo alguma coisa de errado...

Os horrores da guerra vão além do sofrimento humano

Os livros e filmes contam inúmeras histórias de sofrimento humano que são importantes para refletirmos sobre os horrores da guerra. Mas por mais que vejamos obras desta natureza, ainda é possível se surpreender com diferentes tipos de abusos, que vão além daqueles causados ao ser humano.


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É um chavão dizer que a história humana foi moldada pela guerra. Mas essa afirmação também é precisa. Desde que o homem foi capaz de escrever, relatos sobre as glórias das batalhas foram imortalizadas. Guerras são travadas desde sempre pelos mais variados motivos: escassez de recursos, controle sobre áreas produtivas, comércio, fronteiras, ideologia, religião e, segundo Homero, até mesmo por causa de uma mulher.

farao.jpg Descrição de batalha do Faraó Tutankamon no Egito Antigo.

Muitas vezes nem sequer conseguimos entender direito o porque dos conflitos e justificativas abstratas como “equilíbrio de poder” e “luta pela liberdade” são empregadas como se explicassem tudo. Mas por mais que seja difícil entender o que faz as pessoas matarem umas às outras, o fato que isso vem ocorrendo sempre, em todas as culturas e em todos os lugares do mundo. E duas guerras tomaram proporções tão descabidas que se tornaram os emblemas dos conflitos: a primeira e a segunda guerras mundiais.

Mas o objetivo aqui não é tentar entender as razões e as consequências destes eventos. Aliás, duas obras relativamente recentes do escritor Ken Follet trazem uma narrativa interessante sobre essas guerras na forma de romances. A primeira guerra mundial é tratada no livro “Queda de Gigantes” e uma das facetas da segunda guerra é coberta em “Inverno do Mundo”.

follet.jpg Obras de Ken Follet que exploram as duas primeiras guerras como pano de fundo.

O objetivo deste texto é mostrar algo novo que aprendi recentemente sobre os horrores das guerras ao visitar o Museu de História Militar de Dresden, Alemanha. Esse museu é interessante não apenas pelo prédio com uma arquitetura ímpar, onde a fachada neoclássica do museu é segmentada por uma estrutura moderna que lembra a proa de um navio. Além disso, o museu traz a descrição da história das guerras segundo o ponto de vista oficial do governo alemão. E isso é interessante porque todos os horrores introduzidos pela Alemanha são apresentados de forma nua e crua, sem tentativas de justificá-las ou encobertá-las.

museu.jpg Fachada do Museu de História Militar em Dresden, Alemanha.

Muitos desses horrores foram introduzidos na primeira guerra mundial. A Alemanha e a França estavam num impasse e os soldados entrincheirados viviam até 2 anos em valas estreitas, sem sistema de esgoto e com higiene precária. Toda e qualquer oportunidade para aliviar o stress e diminuir a imundice era aproveitada. Poças de lama eram oásis onde felizes soldados conseguiam aliviar a sujeira de seus corpos. Não consegue imaginar o cheiro de pessoas moribundas, fossas coletivas abertas, pessoas mortas há dias, suor, terra úmida e tudo mais? Não tem problema. O museu militar de Dresden pode te ajudar! Lá há um tubo que, ao se apertar um botão, lança sobre as suas narinas uma amostra do “cheiro da guerra”. Tem que estar preparado para passar pela experiência! E eu não quero imaginar o que eles tem por baixo desse tubo para produzir em cheiro desses. Sem dúvida, esse tubo traz uma nova dimensão dos horrores da guerra para os visitantes.

banho_cheiro.jpg À esquerda, soldados alemães aproveitando uma bela poça de lama para tomar um banho e tentar se livrar de alguns parasitas. À direita, tubo que emite uma amostra do odor típico de uma trincheira.

Entre as batalhas havia tréguas para recolher feridos e mortos. Comumente soldados inimigos se encontravam ao recolher os colegas menos afortunados e aproveitavam a chance para fumarem um cigarro e baterem um papo sem compromisso. É muito difícil imaginar uma coisa dessas: achar um pedaço de barranco sem arame farpado e um pouco menos lamacento para fumar um cigarro e conversar com alguém que, daqui a pouco tempo, vai estar tentando cravejá-lo de balas.

soldados_lama.jpg Soldado alemão batendo um papo com um soldado francês durante a trégua para busca de mortos e feridos.

Os alemães usaram uma nova artimanha para tentar desequilibrar o confronto, que foi o uso de gás venenoso. Esse gás era mais pesado do que o ar e a ideia era liberá-lo sobre as trincheiras de tal modo que as substâncias químicas tomassem o lugar do ar nos túneis debaixo da terra. As consequências foram terríveis para as vítimas, que tiveram mortes horríveis. Os sobreviventes destes ataques químicos sofreram danos em tecidos cuja angústia e dor somente podem ser imaginados ao se ver a foto de um desses soldados que teve a sorte de sobreviver.

soldado_gas.jpg Soldado sobrevivente de um ataque de arma química na primeira guerra mundial.

Os resultados dos ataques químicos na primeira guerra mundial foram tão nefastos que em 1925 o uso de tais armas foi banido pelo Protocolo de Genebra. No entanto, isso não significa que a humanidade se viu livre dos efeitos da guerra química, como infelizmente pudemos testemunhar nos eventos recentes na Síria.

Embora as armas químicas não tivessem sido usadas nos campos de batalhas durante a segunda guerra mundial, isso não significa que os soldados estavam livres da ação de agentes químicos. E foi a Alemanha que trouxe novamente a inovação, mas para fins bem diferentes daqueles da primeira grande guerra. Entre 1940 e 1945 os soldados alemães tomavam um tablet chamado de Pervitin para combater a exaustão e o cansaço. Esses comprimidos eram basicamente metanfetamina, uma droga sintética não alucinógena que foi inventada no Japão no fim do século 19 e aperfeiçoada por um químico alemão durante a década de 1930. Essa droga causa euforia e reduz a sensação de cansaço e de sono, além de aumentar temporariamente a capacidade de foco. Os soldados alemães eram condicionados a tomar uma dose a cada 10 horas e a euforia e o entusiasmo para a batalha espantavam os soldados inimigos. Os oficiais estavam a par dos efeitos da droga e colocavam os soldados alemães em situações simplesmente inacreditáveis. Uma carta de um soldado do fronte traz uma luz sobre o nível de exploração destes combatentes.

carta.jpg Carta de um soldado alemão viciado em metanfetamina. Tradução livre a partir do texto em inglês: “Eu estou tão cansado que eu poderia cair, porque eu não durmo à dias. (…) Eu não ligo para mais nada. (…) Eu gostaria de estar em casa novamente, descansando na minha cama, em lençóis limpos, para dormir, dormir, dormir.”

As consequências desta ação foram tenebrosas. A dependência química se tornou epidêmica e, com o decorrer da guerra, foi ficando cada mais mais difícil suprir os frontes com a Pervitin. Os soldados caiam em depressão e os índices de suicídio se tornaram alarmantes. Muitos jamais se recuperaram da dependência. A droga não era usada apenas para manter soldados nos frontes lutando por dias seguidos. Ela foi usada também para estimular soldados a participarem com foco e determinação de missões suicidas. Um dos programas nazistas que demandava o uso desse estimulante era o “Torpedo Humano”. Um submarino chamado de Neger e que depois evoluiu para o Marder, carregava um torpedo e era operado por um único homem. A primeira versão (Neger) era incapaz de submergir. Já o Marder possuía um tanque de lastro que permitia a submersão. No entanto, o piloto apenas conseguia enxergar o navio inimigo quando muito perto e se tornava um alvo fácil depois de disparar o torpedo. Apenas 2% dos pilotos retornaram das suas missões, segundo a guia do museu. E praticamente todos eles realizavam as suas missões sob o efeito da metanfetamina.

torpedo.jpg À esquerda, propaganda do Pervitin e do Die Neger. À direita, foto do Marder em exposição no Museu. Ao alto, recipiente usado para a distribuição da Pervitin entre os soldados.

Vídeo demonstrando a operação Neger e Marder, com áudio em inglês.

Não há dúvidas de que os efeitos da guerra no seres humanos são devastadores. Mas a guerra não afeta apenas os homens. Animais também são cruelmente explorados nas guerras. Umas das vítimas mais óbvias são os cavalos, usados em batalhas a séculos. Apesar da maioria dos exércitos estarem altamente motorizados na segunda grande guerra, os cavalos ainda faziam parte integrante da força de guerra. Alemanha e URSS empregaram, juntas, mais de 6 milhões de cavalos ao longo do conflito. A fatalidade destes animais foi enorme. Segundo a historiadora do museu, estima-se que mais de 5 milhões de cavalos foram abatidos entre os anos de 1940 e 1945.

cavalo.jpg Os cavalos eram treinados para se manterem dóceis e relativamente calmos em conflitos. Por isso eles tinham que estar acostumados com os estrondos provocados por artilharia e maquinaria pesada.

Todos sabemos que os cães são excelentes para encontrar pessoas em meio aos escombros e, obviamente, eles foram usados para este fim nos conflitos. Cães farejadores também foram usados para caçar judeus rebeldes no Gueto de Varsóvia.

cao_socorro.jpg Cachorro usado na busca de pessoas soterradas em escombros dos conflitos.

Mas o melhor amigo do homem foi usado para uma operação, digamos, mais bélica. Os soviéticos instalavam explosivos nos cachorros, que eram detonados por uma chave vertical ao lombo do animal. Esses cães eram treinados para se esgueirarem por baixo dos tanques e, ao entrarem debaixo do veículo, pressionavam a chave contra o chassis, detonando os explosivos e danificando os blindados. Estes eram verdadeiros mísseis anti-taque caninos.

cao_bomba.jpg Cão anti-tanque: o gatilho nas costas do animal era acionado quando o cachorro esgueirava por baixo dos tanques inimigos.

O arqui inimigo dos cães também foi usado nas guerras, mas como cobaias. Gatos foram empregados em larga escala para testar a eficiência dos gases tóxicos usados nas câmeras de extermínio. Nem as ovelhas escapavam. Elas foram usadas para descobrir minas colocadas pelos alemães a medida que eles recuavam. A ovelha da foto perdeu a perna traseira direita em uma mina terrestre.

gato_ovelha.jpg Os gatos também não escaparam dos horrores da guerra e eram usados para testar a eficiência dos venenos usados em câmeras de gás. Já as ovelhinhas eram usadas para detonar minas terrestres.

Segundo a guia do museu, até elefantes foram usados em Dresden. Não como armas de guerra bestiais como nos filmes do Senhor dos Anéis ou 300, mas como veículos pesados. Após o bombardeio de Dresden, ocorrido entre 13 e 14 de fevereiro de 1945, os elefantes do zoológico que não morreram no ataque foram empregados para revolver os escombros em busca de pessoas e obras de artes.

elefante.jpg Réplica de elefante que foi usado após o bombardeio de Dresden na busca de feridos.

Realmente, guerra é terrível para qualquer ser vivo. Não é preciso ser um humano para sofrer com as ações descabidas dos seres humanos.


Luciano Leonel Mendes

Se você está há muito tempo sem sentir aquele frio na barriga, então você está fazendo alguma coisa de errado....
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