a entropia tende ao infinito.

O que seria a ordem sem o caos?

Luciano Leonel Mendes

Se você está há muito tempo sem sentir aquele frio na barriga, então você está fazendo alguma coisa de errado...

Ter orgulho do quê?

Sentir orgulho de fazer parte de um país é algo mais profundo do que admirar compatriotas que, sozinhos, fizeram proezas memoráveis e projetaram o nome do Brasil para o mundo. Para sentir orgulho de fazer parte de uma nação é preciso estar satisfeito com as conquistas coletivas e com a situação geral do país. Será que posso sentir "orgulho de ser brasileiro"?


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Quando criança eu sempre ouvia a frase “Orgulho de ser brasileiro” e achava que entendia o que isso significava. Afinal, o Brasil era tri-campeão mundial no futebol, o Pelé é o rei e não precisou de "mão de Deus" nenhuma para mostrar como ser bom de bola. Pouco tempo depois veio o tetra com Tafarel, Dunga, Romário, Bebeto e cia. Tínhamos ganho a medalha de prata no basquete, com Oscar sendo a grande estrela e, aí sim, com a Mão Santa correta. Depois veio a medalha de ouro no vôlei, com Bernardinho encarnando a garra e a vontade o tempo todo. O grande Senna nos enchia de alegria aos domingos de manhã com suas disputas acirradas com Prost, Mansel e Piquet. Ah, e como não citar o grande Guga, que surgiu do nada e ganhou um dos torneios de tênis mais glamorosos que existe, num esporte que quase ninguém sabia o que era. E fez isso três vezes! E virou número 1 do mundo! Puxa vida! Tudo isso é de fato motivo para sentir orgulho. “Orgulho de ser brasileiro”. E eu achava que eu sabia o que era orgulho.

herois.jpg Alguns dos grandes heróis brasileiros. A partir do canto superior direito: Pelé, Oscar "Mão Santa", Senna, Guga, Bernardinho e Piquet.

Algum tempo depois, quando já éramos penta no futebol e depois de ter morado um ano em um outro país, eu comecei a ver tudo o que acontecia no Brasil no que tangia o serviço público. Saúde, educação, transporte, saneamento, previdência e todo o resto que era gerido pelo governo e, portanto, era da população brasileira, simplesmente não funcionava e infligia um sofrimento infinito em todo mundo, de todas as classes sociais. Então comecei a questionar se o que eu sentia era “orgulho de ser brasileiro” ou se eu tinha orgulho de alguns brasileiros que, por méritos próprios, tinham feito façanhas incríveis. Depois de entender como os políticos agem e qual é o resultado dos seus atos, ficou claro para mim que eu sentia orgulho das pessoas, e não do Brasil.

servicos.jpg Os serviços prestados pelo poder público levam a sociedade brasileira para um redemoinho de calamidades. Da esquerda para a direita: foto de sala de aula no Maranhão registrada pela docente Uliene Araujo; Pacientes sofrendo em corredores de hospitais e centros de atendimento são cenas comuns pelo Brasil afora; Dia típico no metrô de São Paulo mostra o descaso com o dimensionamento do transporte público.

E também percebi que não havia razão para sentir orgulho apenas das pessoas fantásticas que tinham nascido no mesmo país que eu. Já que eu sentia orgulho das pessoas especiais, por que não me orgulhar das pessoas fora de série que eu admirava? E depois de pensar um pouco sobre esta questão, ficou claro para mim que eu podia sentir orgulho do Federer, Nadal, Agassi, Raikkonen, Bartoli, Azzarenka, Kubica, etc. Eu não tinha obrigação nenhuma de torcer para o Felipe Massa nem de ficar frustrado quando o Belluci perdia de 3x2 depois de estar ganhando de 0x2.

Mais um tempo se passou, mais escândalos aconteceram, nenhuma punição veio, os mesmos escandalosos políticos voltaram ao poder e voltaram a cometer novas atrocidades, e depois que passavam desta para melhor, ruas recebiam seus nomes como uma homenagem. E um dia acordei com vergonha de ser brasileiro. Mas muita vergonha mesmo. E descobri que no fundo eu não fazia ideia do que era sentir orgulho de verdade.

Recentemente, no entanto, eu tive uma experiência que me fez imaginar o que deve ser sentir orgulho da sua nação. Eu estava passeando por uma cidade no interior da Alemanha e, por acaso, passei em frente de uma bela igreja. Como eu gosto da arquitetura destes prédios, resolvi mudar os meus planos e visitar o lugar. Infelizmente, a igreja estava fechada, mas atrás dela havia um cemitério com árvores muito bonitas, lápides bem cuidadas e muitas flores já brotando, uma vez que o inverno este ano foi brando e a primavera está chegando mais cedo. Enfim, era um bom lugar para ser enterrado, se é que algo assim possa existir.

igreja.jpg Bonita igreja em frente do cemitério em Brauschweig, Alemanha.

Ao ler as lápides, uma chamou a minha atenção. Era o jazido de uma senhora que nasceu em janeiro de 1945 e havia falecido em meados de 2012.

Jazido.jpg O jazido da família da senhora alemã fica em uma bonita área do cemitério. A estátua de mármore traz mais harmonia e tranquilidade para o local.

Quando ela nasceu, a Alemanha já havia praticamente perdido a guerra, os soviéticos estavam devastando tudo o que podiam, numa ação que eu classifico como de vingança. Quando ela tinha por volta de um mês de vida, Dresden, uma das mais bonitas cidades alemãs, foi devastada por um bombardeio quase inexplicável do ponto de vista militar, a não ser pelo objetivo de dizimar a auto-estima do povo alemão. Eu fiquei imaginando o que deveria ter sido a infância dela. Como deve ter sido crescer em um país cuja infra-estrutura foi completamente destruída? Ter tios, primos e outros familiares que ela não pôde conhecer, conversar e, muitas vezes, nem sequer trocar cartas, por que eles moravam “do outro lado”? Dá para imaginar uma adolescente de 16 anos vendo a antiga capital do seu país ser isolada por um muro?

ruim_alemanha.jpg Frauenkirche, em Dresden, após o bombardeio em 13 de Fevereiro de 1945. Início da construção do muro de Berlim em 1961.

Apesar de tudo isso, ela pôde assistir o seu país, mesmo dividido, se organizar e voltar a produzir. Ela foi educada e pôde ver seus colegas sendo educados, mesmo quando as dificuldades eram enormes. Ela teve que trabalhar duro, ser eficiente, teve que dar o máximo, mas pôde colher o fruto do seu trabalho e viu seus filhos terem acesso a uma infância muito melhor do que ela teve. Aos 45 anos de idade ela presenciou o bom senso vir a tona e vivenciou o seu país ser reunificado. Apesar das imensas dificuldades e desafios, ela viu que a competência e boa vontade de seus líderes, aliada com a enorme vontade da população de reerguer definitivamente o seu país, culminou em uma nação sólida e fraterna. Ela viu seu país se tornar um dos pilares da União Europeia. Aos 60 anos ela pôde ver aquela linda igreja de Nossa Senhora, que foi destruída quando ela tinha apenas um mês de vida, ser completamente reconstruída e voltar a brilhar com todo o seu esplendor no centro histórico de Dresden. E, finalmente, um pouco antes de descansar de vez, ela ainda pôde ver o seu país manter o bloco do euro unido, com força e determinação invejáveis.

bom_alemanha.jpg Frauenkirche, totalmente reconstruída em 2005, hoje resplandece no centro histórico de Dresden. A queda do muro de Berlim em 1990 foi uma das maiores alegrias vivenciadas pelos alemães.

Depois de pensar em tudo o que essa senhora vivenciou, eu consigo imaginar o orgulho que ela deve ter sentido de ser alemã. Ela deve ter pensado: “Nasci em um país destruído e estou deixando um dos melhores lugares do mundo para se viver para os meus netos”. Deve ter sido um sentimento muito bom!

E, muito triste, concluí que quando a minha hora chegar, eu ainda vou estar amarrado ao meu sentimento de vergonha de ser brasileiro e vou estar com muitas dúvidas sobre o país que estarei deixando para os meus netos, se um dia eu tiver coragem de ter um filho…


Luciano Leonel Mendes

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