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O que seria a ordem sem o caos?

Luciano Leonel Mendes

Se você está há muito tempo sem sentir aquele frio na barriga, então você está fazendo alguma coisa de errado...

A arte de contar a história através de estórias

Aprender história é fundamental para que erros e atrocidades do passado possam ser evitados no futuro. O problema que não é todo mundo que tem o perfil para absorver as infindáveis datas de eventos e suas consequentes implicações, que são os temas normalmente abordados nos livros técnicos de história. Ainda bem que há autores com sagacidade e habilidade capazes de contar a história de uma forma cativante, ou seja, capazes de contar a história através de estórias.


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Antes de mais nada, eu gostaria de justificar o termo “estória” usado no título deste artigo. Essa palavra não é plenamente aceita nos países que falam português e ela pode ser considerada como um neologismo introduzido por João Batista Ribeiro de Andrade Fernandes no primeiro quarto do século XX. Neste caso, estória tem o sentido de narrativa popular ou conto, ou seja, a descrição de uma ficção que não é baseada em fatos históricos. É esse o sentido que o leitor deve ter em mente ao percorrer este texto. Àqueles que possuem maior domínio da nossa complexa e intrigante língua, por favor, sintam-se à vontade para comentar sobre esse termo logo abaixo. De posse de uma definição para a palavra “estória”, podemos seguir para o cerne da questão.

Desde os primórdios da humanidade, nós somos compelidos a registrar os fatos importantes que afetam as nossas vidas. Sejam os desenhos em cavernas feitos pelos primeiros humanos, os registros das enchentes do Nilo executados com precisão pelos egípcios há 5 mil anos ou os códigos de leis dos Sumérios, todas as formas de registrar os eventos passados foram de extrema importância para o desenvolvimento da sociedade. Desde sempre, o conhecimento de fatos passados baliza as ações da humanidade. É fundamental conhecer o passado para se evitar que os mesmos erros sejam cometidos no futuro. Como Eduardo Bueno dizia nas propagandas do History Channel, “Povo que não conhece a sua História está condenado a repeti-la”.

Não há dúvida de que o conhecimento e interpretação da história trazem enormes benefícios sociais. Então, quais são as opções que temos para aprender história? Para mim, os museus ajudam muito. Ver os objetos usados em situações marcantes, que foram fundamentais para a compreensão da humanidade, ou ver quadros que retratam eventos importantes me ajudam a assimilar os fatos históricos e também a fazer a ponte entre o acontecimento e suas consequências mais importantes.

museus.jpg Os museus são ferramentas extraordinárias para nos ajudar a conhecer e entender a história. (a) a Pedra Rosetta foi a chave para decifrar os hieróglifos egípcios. (b) O quadro Consagração do Imperador Napoleão I e Coroação da Imperatriz Josefina traz uma amostra da grandeza alcançada por Napoleão e nos ajuda a entender o quão ampla foi a influência deste homem na história da Europa.

No entanto, não são todos que têm acesso aos museus, ou paciência para ler os minúsculos quadradinhos colocados ao lado dos objetos e quadros, normalmente escritos em uma língua estrangeira. Os livros técnicos de história, com a descrição seca dos fatos em suas respectivas datas, não costumam ser as leituras mais empolgantes.

Mas nem tudo está perdido. Há diversos autores com uma qualidade muito especial: a habilidade de contar a história através de estórias! Esses autores fazem o maravilhoso trabalho de utilizar fatos históricos importantes como pano de fundo para seus romances. Normalmente, uma história fictícia envolvendo personagens fictícios se desenrola em conjunto com fatos históricos reais. Esses autores têm a habilidade de mesclar os acontecimentos diários que afetam as suas personagens fictícias com os acontecimentos históricos, dando ao leitor uma nova dimensão dos impactos históricos no dia a dia das pessoas comuns. Essas narrativas costumam ser cheias de emoção e prendem a atenção do leitor, que passam a ficar magnetizados com a estória absorvendo, ao mesmo tempo, a história. É claro que deve-se tomar cuidado com a leitura destas obras e, certamente, não será possível passar num vestibular ou em um concurso público utilizando bibliografia desta natureza como única fonte de informação. Mas para um leitor que tenha capacidade de análise crítica, a leitura deste tipo de estória traz uma nova dimensão para o aprendizado da história. Vejamos alguns exemplos de autores que possuem obras desta natureza com o objetivo de clarear mais este ponto de vista.

James Michener

Em minha opinião, o grande mestre deste tipo de literatura foi James Albert Michener. Esse autor americano escreveu diversas obras contando a história de uma dada localidade através da estória de famílias ao longo de gerações. A pesquisa por trás de cada um de seus livros era sempre minuciosa e precisa. Ler os livros de Michener é uma forma extremamente prazerosa de aprender sobre a história de uma dada localidade. Uma breve descrição de algumas de suas obras permite se ter uma ideia da capacidade impressionante deste autor de ensinar a história através de romances.

No livro “A Baía de Chesapeake”, Michener nos conta como ocorreu o desenvolvimento da região no entorno da cidade de Washington DC, desde a ocupação indígena, passando pelos conflitos com os brancos, o resultado da caça inescrupulosa de pássaros, o estilo de vida dos pântanos, a ação dos piratas e muito mais. A narrativa empolgante e a descrição precisa das relações de causa-efeito entre os diversos fatos históricos, como a guerra da independência americana e o trabalho e o tráfego de escravos, cativam o leitor de início ao fim.

Em “A Saga do Colorado” o autor nos conta a história da migração para o oeste americano. Este livro traz uma abordagem interessante para nos fazer entender o que motivara as pessoas a deixarem “a civilizada Nova Inglaterra” para enfrentar os perigos rumo ao desconhecido oeste americano. O processo de colonização e a relação entre brancos e indígenas são descritos de forma bastante esclarecedora nesta obra.

O livro “Hawai” traz a história deste enigmático arquipélago, iniciando com sua interessante formação geológica, passando pela migração dos primeiros habitantes vindo de Bora Bora, pela chegada dos missionários vindos de Boston, a migração de chineses e japoneses, a cultura do açúcar e do abacaxi e sua anexação aos Estados Unidos.

O autor faz o mesmo com o "Alasca", o maior estado americano cuja história se destaca pela geografia e razões da anexação pelos EUA. A vida dos esquimós, a estranha transação entre EUA e Rússia para a aquisição do Alasca, a exploração do estreito de Bering e das Ilhas Aleutas, a exploração do ouro e a pesca do salmão são alguns dos temas históricos interessantes abordados neste livro fantástico.

Em “Polônia”, a incrível história deste país, cujas as fronteiras “respiram” em expansões e contrações ao longo dos séculos, é explorada com maestria. A importância da nobreza no processo de formação da Polônia, a relação com os camponeses, o conflito sempre intenso com os russos e alemães e a tensão da vida nos campos durante o socialismo são os temas principais deste romance.

James Michener também publicou livros sobre o Texas e o Caribe. “A Fonte de Israel” se destaca por mostrar a evolução do judaísmo no Oriente Médio, o que é sempre um tema interessante.

michener.jpg Algumas das grandes obras de James Michener.

Leon Uris

Leon Uris tornou-se famoso por escrever romances históricos em torno de temas judaícos. Sua obra mais famosa, “Exodus”, conta a luta dos judeus sobreviventes do holocausto para irem para o Oriente Médio antes da criação do Estado de Israel. Essa obra épica mostra que o sofrimento dos judeus estava longe de acabar com o fim da guerra. A pressão árabe sobre os aliados para impedir a migração em massa de judeus europeus para a região que hoje é Israel foi imensa. Mesmo furando o bloqueio, a vida não ficava mais fácil. O treinamento militar, a criação de kitubtzim em regiões pouco hóspedas, a luta contra os árabes e nascimento do Estado de Israel são explorados neste incrível livro. Embora polarizado, Exodus traz um relato inebriante sobre as importantes questões acerca da criação de Israel dos conflitos no Oriente Médio.

Em “Mila 18” o foco do autor é para a resistência dos judeus dentro do Gueto de Varsóvia. Muitos consideram este livro como sendo a obra prima de Uris, superando inclusive Exodus. A qualidade literária é o ponto forte do livro, com descrições marcantes dos conflitos entre os judeus revoltosos e os alemães durante a Revolta do Gueto de Varsóvia. A descrição da vida dentro do gueto, o sofrimento causado pela fome, frio e doenças, a migração forçada do gueto para os campos de extermínio e, finalmente, a luta armada contra os alemães, comandadas do quartel general dos judeus localizado na Rua Mila, no. 18 são alguns dos pontos fortes desta obra.

“QB VII” continua a explorar a questão das ações nazistas contra os judeus durante a segunda guerra mundial. Neste livro, Uris relata o julgamento de um médico nazista que, após a guerra, atua em ações humanitárias na Ásia, antes de se fixar como um renomado médico na Inglaterra. Ao descrever o julgamento, o autor mostra o que se passava na cabeça daqueles que contribuíram para os horrores da guerra, que tinham certeza que não faziam nada de errado e que seguiam ordens ou buscavam o melhor para a humanidade. As crueldades descritas são tenebrosas. Um leitor com um “estômago mais fraco” terá dificuldades em diversas passagens deste obra.

uris.jpg Livros que fizeram Leon Uris se tornar um aclamado autor em todo o mundo.

Ken Follett

Ken Follett se tornou famoso por escrever romances sobre espionagem, com destaque para “Na Toca do Leão” e “O Buraco da Agulha”. Mas livros sobre construções medievais na Inglaterra (“Pilares da Terra” e “Mundo Sem Fim”) e que abordam as relações de interesse econômicos e políticos entre clero e governantes mostraram que o renomado do autor inglês também tinha grande habilidade para contar fatos históricos através de romances.

Em 2010, Follett publicou o primeiro livro de uma Triologia chamada de “Século”. Essa trilogia explora os fatos históricos mais marcantes ocorridos num dos mais controversos séculos da humanidade: o século XX. O primeiro livro, intitulado de “Queda de Gigantes” descreve a vida no interior da Inglaterra no início do século XX. O primeiro ponto do livro trata da exploração dos trabalhadores nas minas de carvão localizadas nas terras dos nobres. A descrição detalhada sobre a discrepância entre as classes sociais e a forma como estas se relacionavam permitem que o leitor entenda o contexto social no início do século passado. As pressões que haviam sobre a Europa e que acabaram por culminar na Primeira Grande Guerra Mundial também são descritas com clareza pelo autor. As descrições das batalhas de trincheiras, do impasse da guerra, da derrota da Alemanha e o surgimento do ambiente propício para o florescimento do Nazismo e do Fascismo são empolgantes. O livro também trata dos mecanismos que levaram à Revolução Comunista na Rússia e sobre o papel da Alemanha neste processo. A vida dos russos antes e depois da revolução também é descrita de forma cativante. O autor usa um triângulo amoroso entre dois irmãos e uma camponesa para deixar a descrição ainda mais interessante. O livro não menciona nada sobre os efeitos da queda do Império Otomano e das consequências da criação dos estados fictícios como Iraque e Jordânia na região do Oriente Médio, e isso pode ser considerado como principal ponto fraco da obra. A participação dos árabes no conflito também não é mencionada. Os livros “A Loucura de Churchill” e “Sete Pilares da Sabedoria” são boas fontes de informação para cobrir estas lacunas mas, em minha opinião, estas obras não possuem a narrativa cativante que Follett coloca em seus livros.

O segundo livro da trilogia, “Inverno do Mundo” já retrata o surgimento do Nazismo e as atrocidades que eram cometidas contra a própria população. Evento históricos nebulosos, como o incêndio do prédio do parlamento e o assassinato sistemático de deficientes físicos e mentais são alguns dos pontos altos desta obra. Já com relação a Segunda Grande Guerra, o foco do livro é um tanto limitado a ação de espiões em território francês. A vida no país das oportunidades é descrita em detalhes, mostrando tanto a ascensão de gângsters com o tráfego de bebidas alcoólicas e a ascensão política com o tráfego de influência. Outro ponto forte do livro é a descrição da vida na URSS, principalmente do ponto de vista de um jovem militar ideológico. Os conflitos de interesses dentro das instituições russas, corrupção e incompetência adornam as ações cuja motivação inicial possui raízes nobres e justas.

O terceiro livro da série possui o título de “Eternidade por um Fio” e seu lançamento no Brasil está previsto para setembro deste ano. Se seguir a qualidade dos dois primeiros livros, será uma grande leitura.

seculo.jpg Os livros da trilogia de Follett trazem um bom resumo dos fatos mais marcantes do Século XX.

Esses romances estimulam a nossa imaginação e nos ensinam a entender as causas e os efeitos de fatos históricos importantes. Mas não há como deixar de mencionar aqueles autores que conseguem cativar o leitor ao contar a história pura e simples. Nós temos grandes exemplo deste tipo no Brasil. Laurentino Gomes fez um trabalho majestoso em “1808” e “1822”. Leandro Narloch foi um pouco menos ortodoxo, mas não menos interessante, ao escrever “Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil”, “Guia Politicamente Incorreto da América Latina” (com co-autoria de Duda Teixeira) e “Guia Politicamente Incorreto da História do Mundo”. Esses livros mostram que não é preciso ficção para tornar a história atraente. Basta ter talento, criatividade e, as vezes, um ponto de vista diferente.

Afinal, no frigir dos ovos, se for possível fazer uma leitura interessante e prazerosa e ainda por cima aprender um bocado de história, por que não?


Luciano Leonel Mendes

Se você está há muito tempo sem sentir aquele frio na barriga, então você está fazendo alguma coisa de errado....
Saiba como escrever na obvious.

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