a entropia tende ao infinito.

O que seria a ordem sem o caos?

Luciano Leonel Mendes

Se você está há muito tempo sem sentir aquele frio na barriga, então você está fazendo alguma coisa de errado...

Olhando o mundo por uma SLR

Às vezes a gente passa muito rápido pelas coisas. Às vezes não prestamos atenção aos detalhes. E às vezes um detalhe é o que mais importa. É um detalhe que faz a diferença e nos liga de uma forma diferente ao mundo. E o que me ajudou a ver os detalhes com um pouco mais de calma foi uma câmera. Uma SLR.


SLR_top.jpg

Eu sempre gostei de viajar e de conhecer lugares, pessoas e culturas diferentes. Experimentar um prato estranho não me assusta, embora eu já tenha tido que lutar contra o meu senso de auto-preservação ao comer algumas coisas. E todas as vezes que eu me via numa situação um pouco mais peculiar, seja em frente de uma paisagem, de alguma obra arquitetônica ou de um prato diferente, eu costumava pegar meu celular ou a minha fiel câmera digital de bolso já no modo automático e, sem pensar muito, apontava mais ou menos para aquilo que gostaria de registrar. Pronto! Eu pensava que tinha mais uma memória guardada que eu poderia vivenciar depois ou compartilhar com alguém próximo. Esse processo se repetia ao longo da viagem e não era incomum eu voltar para a casa com centenas (e as vezes milhares) de fotos.

coisas_chatas.jpg Um lugar chato, uma rua chata e um carro chato. Eu não tenho a menor ideia do que me levou a tirar essas fotos...

No fim das contas, quando eu voltava das viagens que eu fazia sozinho, eu mostrava as fotos para a minha esposa. Mais ninguém tinha paciência para ver aquele monte de fotos de coisas e lugares que nem eu mesmo sabia o que era. Quando eu viajava com a minha esposa, então não tinha para quem eu mostrar as fotos. Eu descarregava aquele monte de arquivos no computador e nunca mais olhava para nenhuma delas, a não ser quando alguma foto aparecia no protetor de tela do computador ou quando dava alguma nostalgia de algum lugar (o que era bem raro).

Há um ano atrás eu parei para tirar uma foto de uma ruazinha e a minha esposa logo me apressou dizendo: - “Vamos logo! Para quê tirar foto dessa rua? As fotos nunca ficam iguais aos lugares e a gente nem vai ver mesmo!”

ruazinha.jpg Foi neste local que comecei a refletir se fazia sentido tentar manter viva as lembranças através de fotografias.

Mais uma vez, ela me fez ver algo que já me incomodava, mas que eu não sabia bem o que era. Essa intervenção me fez ponderar no motivo para eu tirar uma foto. Certamente eu quero registrar as cenas que me chamam a atenção por serem bonitas, diferentes ou marcantes. Mas eu tinha que concordar que as fotos que eu costumava tirar não traziam quase nada do momento que eu observava. Parecia que todas as nuances da cena eram perdidas e a foto ficava impessoal, banal e bem chata. Quando eu olhava para as fotos, parecia que não fui eu quem as havia tirado. É algo estranho de se explicar. Ao ver as minhas fotos, parecia que eu estava vendo um cachorro sem dono: eu podia até achar a foto bonitinha, mas no fim eu virava as costas e nem me lembrava dela depois.

Eis que surgiu a grande questão: como fazer com que uma foto represente mais a minha experiência? O que fazer para que, ao ver uma foto, eu me lembre do que eu senti ao ver aquela cena? Certo de que registrar os momentos fazia sentido, cheguei a conclusão de que os culpados pelas minhas fotos sem graça eram o meu celular e a minha pequena câmera digital de bolso. Então, decidi comprar uma câmera DSLR (Digital Single Lens Reflex). Entrei na loja e fui rapidamente convencido pelo vendedor de que eu precisava de uma câmera Nikon com sensor APS-C e que já vinha com duas lentes: uma zoom padrão de 18-55mm f/3.5- f/5.6 e outra telescópica de 55-200mm f/4-f/5.6. O vendedor me disse que uma era “para perto” e a outra era “para longe”. Bom, eu queria tirar fotos “de perto” e “de longe”. Eu não tinha a menor ideia o que era APS-C, fator de crop de 1.5 vezes, nem o que eram esses números que dividiam o “f”. Mas mesmo assim, inocentemente, eu disse:

- "Perfeito! Isso é tudo o que eu preciso para tirar uma boa foto!"

Mas o bom vendedor tinha uma opinião diferente e retrucou:

-Humm, mais os menos. Você precisa de uma 50mm rápida!

Eu olhei para ele, com aquela cara de “?”. Eu sabia que ele estava falando de uma lente e que a distância focal era 50mm. O que era uma lente “rápida"? Eu não tinha a menor ideia. Mas o vendedor parecia saber muito de fotografia, então me fiz de entendido:

- É. Uma 50 rápida seria bem útil.

E ele me convenceu a comprar a tal 50mm rápida, que tem um f/1.8. Eu estava decidido a não mais ter fotos que não representavam o que eu vivia, e levei para casa a solução do problema. De posse de um saco enorme com uma câmera pesada, três lentes, um mini tripé e uma promessa de me tornar o ganhador do prêmio da National Geographic de melhor fotografia, saí pela cidade para as primeiras fotos. Coloquei a lente 18-55mm, configurei a câmera para o automático e saí clicando pelas ruas. Ao chegar em casa e ver o resultado, eu percebi que as imagens eram melhores, mais nítidas, mas as fotos em si não eram melhores.

boa_chata.jpg Simplesmente comprar uma camera SLR não me ajudou a tirar fotos melhores. As imagens passaram a ser melhores, mas as fotos continuavam se graça.

Elas ainda eram bem chatas. Eu estava tirando boas fotos chatas. Então eu achei que eu estava fazendo alguma coisa de errado e decidi aprender um pouco mais sobre como usar a nova câmera. Li bastante coisa sobre o assunto e aprendi sobre as limitações de captura de diferentes exposições em função da faixa dinâmica limitada do sensor. Estudei a regra “Sunny 16” e passei a tentar a adivinhar a exposição. Li sobre HDR e como conseguir as imagens com três exposições diferentes para o processamento em um computador. Comecei a entender o que era velocidade do obturador, sensibilidade (ISO), abertura, distância focal e qual a influência destes diversos parâmetros na fotografia. Entendi porque a lente de 50mm recomendada pelo vendedor era uma lente rápida. O f/1.8 significa que lente pode ter uma abertura maior e por isso a câmera consegue captar mais luz. Havendo mais luz disponível, o obturador pode ficar aberto por menos tempo, para um dado ISO. Isso reduz as chances da foto sair “tremida” ou “borrada”. Também passei um bom tempo lendo sobre círculo de confusão para a definição da profundidade de foco e razão que leva as lentes a perderem definição quando trabalham com abertura máxima.

Enfim, fiz um bom esforço para tentar entender a mecânica e a física por trás da fotografia, mas não quero tratar dessas coisas aqui. O mais importante neste processo foi que ao tentar entender os impactos das escolhas dos parâmetros da câmera ao tirar uma foto, eu passei a observar o que estava sendo fotografado de uma forma diferente. Eu comecei a prestar mais atenção às pequenas coisas. Comecei a perceber como a luz muda a nossa percepção de uma pessoa, objeto ou animal. Afinal, nós só vemos a luz que é refletida no motivo da foto. Se a luz muda, “a coisa” muda também. De repente, eu estava prestando atenção em como o sol iluminava uma árvore de manhã ao sair para o trabalho e como a mesma árvore era diferente ao voltar para casa, de tarde. Além disso, passei a perceber como as árvores vão mudando ao longo do tempo. E também passei a reparar melhor nos passarinhos e insetos que ficam nestas árvores, em como eles são coloridos e como são rápidos. Aí, começou a passar pela minha mente:

- Distância focal elevada, para poder ficar longe e não assustar a abelha. Diminuir a abertura para aumentar a profundidade de foco e conseguir captar detalhes da abelha e da flor. Aumentar a velocidade do obturador para evitar “tremer”. Aumentar o ISO para compensar a redução da luz e, … não é que essa danada é bonitinha, preta e listrada de amarelo?

abelha_flor.jpg Abelha em um girassol. Tomar cuidado ao tirar a foto me fez prestar atenção nos detalhes e me fez ver melhor.

Antes, eu jamais iria reparar na abelha em si, ainda mais se ela era listrada ou não! Ia tirar uma foto da flor e correr para a próxima sem ter a menor ideia do que estava a minha frente ou o que foi que eu fotografei. Com essa câmera, passei a ver com uma nova dimensão.

E não foi só a minha percepção das flores e das árvores que mudou. Passei a observar as pessoas de uma outra forma também. E, em especial, passei a ver minha esposa de uma forma diferente. Primeiro, foi apenas para testar as dicas e técnicas. Virar o rosto para o sol, preencher uma sombra com o flash, desfocar o fundo para trazer a atenção para o motivo, usar a regra dos terços, valorizar os detalhes do motivo. Mas ao fazer isso, você passa a ver melhor a pessoa que você está fotografando. Você passa a distinguir melhor as feições nos diferentes humores.

Alguém já parou para perceber como as pessoas mudam de comportamento em função do clima? É muito mais fácil conseguir uma foto descontraída da minha esposa quando o dia está ensolarado e quase nunca consigo uma foto com um sorriso espontâneo num dia nublado. Chovendo, então, pode estar certo que vai ser uma foto carrancuda. E nesse ínterim passei a admirar suas diferentes belezas, suas diferentes fases e diferentes humores, de uma forma que eu não fazia antes. Isso fez um bem danado para mim.

E hoje, ao chegarmos em casa, passar as fotos para o computador, montar as HDRs, rever os detalhes que só eu ou só nós vimos, comparar o efeito do vento no cabelo em duas fotos seguidas e decidir qual foi a melhor, não é mais algo mecânico. Passou a ser algo gostoso. Afinal, as fotos já não são mais chatas e ninguém tem fotos iguais às estas. Essas fotos passaram a contar uma história que é minha.

E isso é bom, muito bom.

Eu coloquei mais algumas fotos logo abaixo. Espero que vocês gostem!

Boa1.jpg Rosa amarela. Esta flor estava em uma exposição que aconteceu no início da primavera. Fiquei surpreso pelo fato do fundo ter saído escuro. O local estava claro e eu queria usar o flash para remover as sombras sobre a flor. O resultado foi que o fundo ficou sub exposto e o flash só iluminou as pétalas. Sorte...

boa2.jpg Campo de trigo maduro ao por do sol. Ao me deparar com este campo de trigo dourado, eu me lembrei daquelas propagandas onde uma mulher de vestido esvoaçante passeia por entre as espigas, roçando levemente as mãos no trigo...

Boa3.jpg Pirâmide de pedras na praia. As pessoas que caminham por esta praia costumam empilhar as pedras redondas. Há várias pilhas de pedras por todo o lugar. Eu acho que as pessoas querem deixar para trás algo mais perene do que as pegadas na areia.

boa4.jpg Belissímo por do sol. As andorinhas estavam gostando mais do que eu.

boa5.jpg Esse simpático bichinho apareceu em casa um dia. Nesta foto ele está tomando um pouco de água com açúcar, usando um cotonete como canudinho.

boa6.jpg Por do sol numa fazenda perto de casa. A terra tinha sido adubada a pouco tempo, então a vista era linda, mas o cheiro terrível. Ainda assim, valeu a pena.

boa7.jpg Isto é um lustre feito de papel que estava a venda numa feira de artesanato. Tentei usar o mesmo truque da rosa amarela e até que deu certo.

boa8.jpg Algumas folhas no outono. Eu fico impressionado com a variedade de tons e de formas entre as folhas de uma mesma árvore.

boa9.jpg Senhor com um cachorro. Não foi só eu quem achou a cena do senhor levando um cachorro na garupa engraçada.

boa10.jpg Água empossada numa rosa depois da chuva. Que tal plantarmos mais rosas para colher a água da chuva? Será que ajudaria neste tempos de seca? Ou causaria um surto de dengue no verão?

boa11.jpg Nunca tinha visto a Lua assim antes!

boa12.jpg O miolo deste girassol mudava de cor a cada dia! E tinha um mosquito nele com a mesma tonalidade de azul. Será que o mosquito também muda de cor? Seria um mosquito-camaleão?

boa13.jpg Esse besouro estava mais curioso do que eu.


Luciano Leonel Mendes

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