a entropia tende ao infinito.

O que seria a ordem sem o caos?

Luciano Leonel Mendes

Se você está há muito tempo sem sentir aquele frio na barriga, então você está fazendo alguma coisa de errado...

O Universo de Possibilidades de Ben Zander

Benjamin Zander é maestro e diretor músical da Boston Philharmonic Youth Orchestra nos Estado Unidos. Além de maestro, Benjamin Zander é conhecido por ministrar palestras motivacionais para líderes de empresas e corporações. Sua abordagem é de integrar as pessoas através de uma visão mais ampla da vida, onde a competitividade não é a única motivação. Em “The Art of Possibility”, Ben Zander deixa claro que aptidão musical não é o seu único dom.


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Há algum tempo atrás eu estava conversando com um amigo, durante um desses cafés depois do almoço, sobre as consequências das escolhas que fazemos em nossas vidas.

Ele dizia estar arrependido de ter feito faculdade em uma instituição que priorizava a prática ao invés da teoria. Devido a deficiência em matemática, ele teve que estudar mais para poder finalizar a sua tese de doutorado.

Eu achei estranho esse comentário, pois a escolha que ele fez para faculdade permitiu-lhe ter um profundo contato com a música clássica. Durante a faculdade ele aprendeu a tocar diversos instrumentos como piano, violão e bateria. Obviamente, ele possui um talento nato para a música, mas o ambiente estudantil permitiu que isso aflorasse. E, no final das contas, ele conseguiu obter a base necessária para desenvolver as suas atividades de pesquisa, embora isso tivesse exigido mais dedicação e perseverança.

Então eu disse-lhe algo no qual eu realmente acredito. Todas as escolhas que fazemos na vida possuem aspectos positivos e negativos. Todas as escolhas trazem vantagens e desvantagens. É necessário refletir muito sobre os benefícios e malefícios antes de tomar a decisão. Mas, uma vez tomada uma dada decisão baseando-se no fato de que as vantagens superam as desvantagens, então deve-se focar apenas nos aspectos positivos da sua escolha. Para mim, não adianta nada ficar remoendo os “e se eu tivesse...” que cada escolha que deixa para trás. Obviamente, isso não quer dizer que todas as decisões tomadas são as melhores, mesmo por que não é possível definir o que é “o melhor”. A meu ver, ao seguir o caminho de uma escolha abre-se um novo mundo de possibilidades, enquanto que o outro mundo, relacionado a outra possível escolha, simplesmente não irá existir. Por isso é importante ponderar sobre a decisão a ser tomada antes de concretizá-la, mas uma vez decidido, busque sempre olhar os benefícios e as vantagens.

Ao terminar esse discurso inflamado, o meu amigo disse a seguinte frase: - Você tirou isso do Ben Zander, não foi?

A minha resposta foi um simples "O quê"? Eu nunca havia ouvido falar em Ben Zander. Então, esse meu amigo me enviou o seguinte vídeo:

Eu achei incrível a forma como o sr. Benjamin Zander envolveu a plateia, como ele compartilhou a visão de oportunidades quando muitas pessoas só vêm obstáculos. No vídeo há uma história que retrata como a mesma “realidade” pode ser vista de formas diferentes.

Uma empresa de sapatos envia dois vendedores para prospectar o mercado de calçados em duas localidades isoladas. Pouco tempo depois dos representantes chegarem aos seus destinos, o gerente recebe uma mensagem de um dos agentes, que diz o seguinte:

- Situação totalmente sem esperanças... Eles não usam sapatos...

Logo em seguida, o gerente recebe uma mensagem do outro vendedor:

- Oportunidade gloriosa! Eles ainda não têm sapatos!

Ao longo desses curtos 20 minutos de palestra, ficou evidente para mim que Ben Zander era uma pessoa especial. Durante outro café, discuti empolgadamente essa palestra com o meu amigo e, depois de alguns dias, ele apareceu na minha sala com um pequeno livro: “The Art of Possibility” de Rosamund e Benjamim Zander.

zander.jpg "The Art of Possibility" de Benjamin e Rosamund Zander

Confesso que este não é o tipo de leitura do qual eu sou fã. Normalmente, eu leio romances baseados em fatos históricos ou livros de ficção científica. Meus autores preferidos são Uris, Michener, Asimov, Crichton, Follet, Orwell e Clarke.

Eu classificaria “The Art of Possibility” como autoajuda e eu certamente não iria dar a mínima atenção para este livro. Mas como eu havia gostado da palestra, decidi iniciar a leitura deste livro, mas já me armando da minha regra número 1: “Jamais comece um livro e não termine!”

No entanto, eu realmente não precisei da minha regra para terminar esta obra. A leitura foi muito prazerosa e eu nem me dei conta de que o livro já estava no final. Esse livro foi uma agradável surpresa por diversas razões. Primeiro, porque ele é muito bem escrito. Segundo, porque, mesmo sem concordar com muitas das ideias apresentadas pelos autores, o livro me fez pensar sobre diversos aspectos da minha. Terceiro, porque ele traz histórias de pessoas que passaram pelas vidas dos autores que são muito envolventes.

Cada capítulo apresenta uma “frase de impacto” ou “prática", que visa ajudar o leitor a se lembrar do assunto principal tratado no capítulo. No total, o livro possui 12 práticas que eu gostaria de compartilhar com vocês. Abaixo eu vou apresentar o título original de cada prática em inglês e, em seguida, a forma como as interpretei em português. Eu não vou fazer uma tradução literal do texto, mas vou mostrar o que faz sentido para mim, ou seja, a minha interpretação.

Prática 1: “It’s all invented” - a realidade que nos cerca é, em muitos casos, mera convenção. Quebrando paradigmas e mudando a definição da realidade pode-se criar um novo quadro de possibilidades, onde a solução do problema é trivial.

Prática 2: “Stepping into a University of Possibilities” - normalmente nós vivemos num mundo de competitividade, onde ser o melhor é o que importa. Esse cenário é chamado pelos autores de “Mundo das Medidas” onde a integração entre as pessoas é dificultada pelos objetivos e desejos pessoais, que nem sempre são os mais importantes. Os autores propõem uma mudança de cenário, um universo onde há abundâncias de recursos e não há necessidade competição. Neste universo, as pessoas podem priorizar aquilo que as fazem ser felizes, sem se preocuparem com as conquistas das demais pessoas. Neste universo, não é preciso que todas as demais pessoas fracassem para que você tenha sucesso. Na verdade, no universo de possibilidades, o seu objetivo deve ser buscar o sucesso do “Nós" e não do “Eu”.

Prática 3: “Giving an A” - Ben Zander afirma que as notas não refletem a capacidade de absorção e aprendizado do aluno, mas são medidas de correlação entre o que o docente espera (padrão) e as respostas apresentadas pelos alunos. Segundo Zander, o único resultado disso é criar um sistema de classificação dos estudantes, onde um é comparado ao outro, criando um senso de competitividade onde a cooperação e a a criatividade são sacrificadas.

Prática 4: “Being a contribution” - O objetivo desta prática é eliminar o senso de sucesso ou fracasso relacionado à execução de uma atividade. O objetivo é passar a enxergar as nossas ações como contribuições descorrelacionadas de metas. Por mais simples e pequena que possa parecer a sua ação, ela deve ser vista como uma contribuição para o todo. Não compare as suas contribuições com as dos outros. E se você achar que fazer algo é importante, então faça, mesmo que aos olhos dos demais sua contribuição não faça sentido.

Prática 5: “Leading from any chair” - Um maestro é o estereótipo perfeito de líder. Mas o que Ben Zander percebeu ao longo dos seus muitos anos conduzindo orquestras é que músicos que tocam com paixão acabam por influenciar significativamente a apresentação - às vezes mais do que o próprio maestro. Ele acredita que isso acontece em todo o lugar. Uma pessoa realizando o seu trabalho com dedicação, boa vontade e entusiasmo acaba empolgando os colegas a sua volta. Essa pessoa passa a ser um líder, que eleva a moral dos demais simplesmente realizando o seu trabalho com paixão. Logo, não é preciso ser um gerente, diretor ou presidente para ser um líder. Basta ter entusiasmo para contagiar todos a sua volta.

Prática 6: “Rule Number 6” (Não se leve tão a sério) - Em situações de tensão, saber fazer uso da comédia para relaxar os ânimos pode fazer uma grande diferença para criar um ambiente onde todos estejam dispostos a contribuir. Para os Zander, cada um de nós possui dois modos de operação: um chamado de “eu-cálculo” e outro chamado de “eu-central”. O “eu-cálculo” é aquele que opera no “mundo das medidas”, que precisa ser notado e quer se destacar dos demais, chamar mais atenção. O exemplo típico é uma criança fazendo birra. Já o “eu-central” é aquele ávido por se conectar com as outras pessoas, buscando prosperar e criar o universo de possibilidades. O “eu-central” não precisa ser o número 1. O “eu-central” busca ser uma contribuição, busca empolgar as outras pessoas. Usar a Regra Número 6, ou seja, não se levar tão a sério, ajuda o “eu-central” prevalecer sobre o “eu-cálculo”. Isto cria condições para que soluções que beneficiem o conjunto sejam encontradas, ao invés de se criar atrito onde a solução que agrada o mais forte prevalece.

Prática 7: “The way things are” - buscar entender a situação em que se encontra e, partir disso, decidir o que fazer é mais saudável do que tentar encontrar culpados e provar quem tem razão. Isso não significa que tenhamos que ser passíveis e conformistas. O que esta prática sugere é que aceitar que a situação indesejada existe e encarar os fatos são os primeiros passos para chegar a uma solução dos problemas.

Prática 8: “Giving way to passion” - quantas vezes sentimos a empolgação de uma ideia nova, mas acabamos não fazendo nada com isso? Dar vazão a paixão e correr os riscos de não ter tudo sobre controle sempre abre as portas para novas oportunidades - sejam elas quais forem.

Prática 9: “Lightning a spark” - fazer uma fogueira é muito mais fácil quando se tem uma fagulha. O comprometimento e a dedicação são as brasas para a motivação. Aqueles que se comprometem e se dedicam a projetos fazem com que os próximos ajam da mesma forma.

Prática 10: “Being the board” - você é 100% responsável pela sua vida. Você não é culpado por tudo o que ocorre com você, mas você tem que assumir as consequências daquilo que ocorre com você. Quando você busca culpados ou desculpas você acaba agindo como um jogador de xadrez contra um adversário, ou como uma peça, que faz apenas o que pode de acordo com a vontade de alguém e de um conjunto de regras. Agora, se você for o tabuleiro, então não há adversários e somente a integração de tudo - jogadores, peças e regras - é que importa. E lembre-se, tudo não passa de uma invenção. Então, invente outro jogo, se quiser.

Prática 11: “Creating Frameworks for Possibilities” - abrir espaço para um novo universo de possibilidade requer dedicação, comprometimento, responsabilidade e paixão pelos objetivos. Ter uma Visão é fundamental para alinhar todos estes componentes. A visão correta, que nos lembre o porque é importante mantermos o ânimo e a determinação, pode criar o quadro onde novas possibilidades afloram.

Prática 12: “Telling the WE story” - aqui os autores sugerem uma mudança de ponto de vista sobre o “eu" e o “você”. A proposta consiste em ver a situação como sendo algo que afeta a nós - todos nós. O maior exemplo é a Comissão da Verdade e Reconciliação estipulada pelo governo de Nelson Mandella na África do Sul. Esta comissão oferecia anistia para aqueles que, em público, contassem sua participação nas atrocidades do apartheid. O objetivo da comissão não era encontrar culpados, mas sim entender o que aconteceu para que um país unido e para todos pudesse nascer. Para aqueles que buscavam vingança, o governo de Nelson Mandella ofereceu algo muito mais poderoso: ele ofereceu a verdade e a união.

As práticas propostas pelos Zanders não são simples. Eu sequer sei se elas são aplicáveis nas situações cotidianas. Mas o livro “The Art of Possibility” me fez refletir sobre diversos dos meus comportamentos e me fez rever muitos dos meus pontos de vista. Eu gostei do livro por isso. Fazia muito tempo que eu não lia algo assim.


Luciano Leonel Mendes

Se você está há muito tempo sem sentir aquele frio na barriga, então você está fazendo alguma coisa de errado....
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