a entropia tende ao infinito.

O que seria a ordem sem o caos?

Luciano Leonel Mendes

Se você está há muito tempo sem sentir aquele frio na barriga, então você está fazendo alguma coisa de errado...

Nostalgia Fotográfica

Fotografia é uma arte que está nas mãos de todo mundo. A facilidade de capturar e compartilhar imagens hoje faz o ato de fotografar ser corriqueiro, quase automático. Mas há empresas lançando câmeras manuais e só preto e branco, num mercado tão digital e dinâmico. Por que será que a nostalgia pela forma clássica de fotografia ainda é tão cativante?


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Fotografia faz parte do dia-a-dia de todo mundo. As câmeras digitais estão em todos os lugares e não há um único telefone celular hoje em dia que não tenha uma câmera com alguns megapixels acoplada. Os smartphones mais recentes possuem tanta resolução que muitos se questionam se faz sentido ter uma câmera no fim das contas.

celvscamera.jpg As câmeras de smartphones conseguem capturar ótimas imagens, quando as condições de luz são adequadas. Na esquerda, foto tirada com o Samsung Galaxy S3 e na direita foto tirada com a Nikon D5100 18-55mm f3.5-f5.6.

Obviamente, há parâmetros muito mais importantes numa câmera do que a resolução do sensor, mas para aqueles que só querem aquelas fotos ocasionais para guardar de lembrança, talvez faça mesmo sentido usar só a câmera de um bom celular.

Neste contexto, onde os celulares com câmeras cada vez melhores surgem o tempo todo, era de se esperar que os fabricantes de equipamentos fotográficos passassem a oferecer câmeras cada vez com mais recursos: telas maiores e melhores com touch screen, Wi-FI, GPS, 4G, integração com Facebook, Google, Flickr, etc. Foi justamente aí que a Leica, talvez a mais tradicional marca de câmeras e lentes da Europa, surpreendeu o mundo ao lançar a M60 durante a Photokina 2014. A M60 é um modelo comemorativo dos 60 anos da série M, que começou em 1954 com a legendária M3: uma rangefinder tão excepcional que se tornou um ícone entre as câmeras fotográficas.

m3.jpg A clássica Leica M3 é um objeto de desejo para muitos amantes de fotografia.

Bom, mas o que torna a M60 tão especial afinal de contas? Ela é uma câmera digital com sensor Full Frame de 24 M pixels, possui um botão para controle da velocidade do obturador no topo do corpo, um disco para seleção do ISO na parte de trás, vem com a fantástica lente Summicron 35mm f/1.4 com controle de abertura no corpo, foco manual e… não tem display! Nada de tela! Nada de menu! Não tem como saber nem sequer como está a carga da bateria! Tudo isso por €15.000,00 (cerca de R$45.000,00)! Aqueles, que acharem que é uma boa ideia ter um display para checar o nível da bateria ou para ver a foto sem precisar de um computador, podem optar pela Leica MP que, na essência, é igual a M60. Mas para ter o display é necessário pagar….menos! Bem menos! A metade, para ser mais exato. Ah, sim. A Leica também oferece o modelo M Monochrom, que é uma câmera que só consegue tirar fotos preto e branco, por €7.000,00 (R$21.000,00).

leicas.jpg Modelos de câmera da Leica. (a) Leica M60. (b) Leica MP. (c) Leica M Monochrom.

No mínimo, é curioso ver uma empresa colocando esses produtos no mercado e, no geral, tendo sucesso (a Leica foi uma das poucas empresas no setor que viu seu faturamento crescer em 2014). Com tantas opções no mercado, por que alguém compraria uma câmera sem display, ou que só tira fotos preto e branco? A justificativa da Leica para a M60 é que essa câmera permite que a pessoa se preocupe com a cena a ser fotografada, sem distrações com a infinidade de configurações presentes nas demais câmeras. Segundo a Leica, a M60 traz a pureza da fotografia de volta à tona, onde o instinto e a experiência do fotógrafo é que fazem a diferença. Composição, enquadramento, definição da exposição usando a regra Sunny 16 (“em um dia ensolarado, o tempo de abertura ideal deve ser um dividido pelo valor do ISO quando a abertura da lente é configurada para f/16”) e a confiança no seu talento são os fatores que fazem a M60 ser interessante para os fotógrafos mais tradicionais. Para a M Monochrom, a Leica explica que o sensor feito exclusivamente para captar luminância não precisa ter os filtros para cada componente de cor (Vermelho, Verde e Azul), o que significa que não há necessidade de interpolação dos pixels para se obter a imagem final. O resultado é uma maior capacidade de capturar detalhes, mais nitidez e contraste, mas sem cor.

As explicações para justificar essas câmeras e o glamour em torno da Leica estão intimamente ligadas com o processo clássico de fotografia, ou seja, com a experiência de fotografar usando filme. Confesso não ter vivido essa experiência, uma vez que as câmeras de filme que eu usava eram aquelas descartáveis e já em 1998 eu era um adepto da fotografia digital com uma Cassio QV-11, capaz de gerar estas incríveis imagens.

qv11.jpg Fotos tiradas com a Casio QV-11, início do declínio da era do filme.

Então, para tentar entender melhor o mistério de como o filme pode ajudar alguém a fotografar melhor e a razão por trás desta nostalgia, decidi me arriscar neste mundo com uma câmera mecânica e manual Zeiss Ikon Contina de 1956, achada numa liquidação de garagem.

zeiss.jpg Câmera mecânica e manual: uma ferramenta incrível para aprender as técnicas clássicas de fotografia. (a) Zeiss-Ikon Contina. (b) Medidor de luz, onde a agulha indica a exposição medida pelo sensor de selenium e o ponteiro com o círculo define a exposição configurada. O círculo deve sobrepor a agulha para uma exposição "perfeita". (c) Foco, tempo de obturador e abertura são definidos na lente. Nesta foto, o foco está configurado para a distância hiper-focal para f/16. Tudo entre 1,45m e infinito está em foco, segundo a definição do círculo de confusão de 0,035mm em uma ampliação de 5x7. (d) Visor com as marcas que representam a imagem que será capturada em filme. Não há controle de paralaxe, então a imagem capturada é muito diferente da composição quando o motivo está muito perto da câmera. Uma vantagem deste tipo de visor é a possibilidade de se ver o entorno do quadro, facilitando a captura do "momento decisivo".

O único recurso presente nesta câmera para auxiliar o fotógrafo é um medidor de intensidade de luz de selenium, que funciona sem bateria. O foco é feito adivinhando-se a distância até o motivo da foto. Como é muito difícil saber se aquilo que você está fotografando está a três ou cinco metros de distância, a melhor escolha é utilizar a distância hiper-focal com uma abertura pequena (f/16, por exemplo). Ainda é preciso escolher o tempo de abertura de acordo com a luz disponível (usando a regra Sunny 16 ou confiando no medidor de selenium de quase 60 anos de idade). Feito isso, você só tem que se preocupar com o motivo e compor a foto através do enorme e claro visor com uma coloração âmbar que deixa tudo mais bonito. É claro que não há ajuste de paralaxe neste visor. Mas isso não é um problema, já que, com a distância hiper-focal, o motivo não pode ficar muito perto da câmera mesmo…

Fotografar com uma câmera destas é algo totalmente diferente daquilo que se faz hoje com uma câmera digital. Essa câmera te obriga a pensar na cena e na composição muito antes de você pegá-la. Primeiro, é necessário definir o motivo da foto, depois decidir se o fundo deve estar focado ou não. Em função disso, deve-se escolher a abertura e definir o foco, adivinhando a distância ou usando a distância hiper-focal. Finalmente, deve-se acertar o tempo de abertura de acordo com o medidor de luz. Então, quando você leva o visor da câmera até o olho, você não tem preocupação nenhuma a não ser a composição da foto. Não tem nenhum número, ponto, gráfico, led, agulha ou qualquer outra coisa saltando e piscando no visor e te distraindo da imagem a sua frente. Satisfeito com a cena, basta segurar a respiração, apertar suavemente o obturador até ouvir um leve “click" e suspirar com alívio por não ter tremido. Aí, vem a expectativa de como ficou a foto. Será que foi sobre-exposta? Ou sub-exposta? Será que o horizonte estava reto? Será que ficou em foco? Para saber as respostas, é preciso tirar outras 35 dessas e depois esperar uma semana para ver as fotos reveladas, a não ser que você tenha um laboratório de revelação em casa.

Tirar fotos com uma câmera assim é bastante divertido e já tem muita gente descobrindo isso. Talvez o maior exemplo seja o movimento chamado de Lomography, que explora mundo da fotografia analógica e uma forma “cult”. Há uma loja associada com este movimento que oferece câmeras simples (e caras) que dão um ar de anos 60 ou 70 nas fotos. Particularmente, não gosto muito do resultado e prefiro imagens obtidas de câmeras antigas, mas com excelente óptica, como a Olympus 35 RC, Yashica Electro 35 ou Nikon FE2, que são fáceis de encontrar em bom estado e por uma fração do preço daquelas oferecidas pela loja da Lomography. Mas, de qualquer forma, a Lomography ganha adeptos o tempo todo. Aliás, o nome deste movimento é um tanto curioso. Lomo é uma fabricante de equipamentos ópticos russa, que faz câmeras de baixo custo desde 1930, que visavam atender o mercado comunista. As câmeras Lomo são de plástico, possuem lentes baratas, sofrem com infiltração de luz e há uma forte vinheta nas fotos. Na década de 90, jovens europeus começaram a utilizar estas câmeras para tirar fotos não convencionais. Muitas vezes, nem sequer usavam o visor para compor os quadros. O estilo acabou por cativar muita gente e o movimento da Lomography é bastante popular em diversos países.

Esse crescimento do interesse pelas fotografias clássicas está fazendo algumas reviravoltas no mercado de filmes. A Filmes Ferrania é um exemplo interessante. Famosa pela excelente qualidade de seus produtos, a Filmes Ferrania, localizada na Italia, era uma das grandes fornecedoras de filmes de 35mm e 120mm. Fundada na década de 20, a popularidade da Ferrania atingiu seu auge nos anos 50 e 60. Sua popularidade na Itália era imensa e grande parte dos clássicos longa metragens italianos foram rodados usando filmes Ferrania. Federico Fellini era um fã incondicional da marca e não aceitava outra coisa em suas câmeras. Todo italiano queria ter um rolo de filme P30 em sua 35mm.

fotos_ferrania.jpg Algumas fotos tiradas com o filme Ferrania nas décadas de 50 e 60.

Em 1964 a Ferrania foi adquirida pela 3M, trazendo novo fôlego para empresa, que passou a atuar também no setor da saúde, principalmente com filmes para raio-X. Mas a competição com Ilford, Agfa, Fuji e Kodak era muito acirrada e, apesar de sempre ter se mantido no mercado com produtos de diversas marcas distintas, a Ferrania acabou por fechar as portas em 2000. Foi a primeira grande empresa produtora de filmes fotográficos a pedir falência.

Em 2012, dois entusiastas por fotografia, juntamente com alguns ex-funcionários da Ferrania, comparam o laboratório de desenvolvimento da empresa e fizeram a engenharia reversa do Scotch Chrome ASA 100. Os resultados obtidos na limitada linha de produção do laboratório foram mais do que satisfatório e os novos donos decidiram dar o próximo passo: voltar a produzir os filmes Ferrania em larga escala. Mas para isso, eles precisavam realocar três grandes máquinas, chamadas de “Trixie”, “Walter” e “BigBoy”, instaladas nos prédios condenados da Ferrania. O custo para remoção e reinstalação das monstruosas máquinas era de US$250.000,00. A forma que os sócios encontraram para levantar o dinheiro foi contar com o entusiasmo dos fotógrafos mundo afora. Eles iniciaram uma campanha no KickStarter oferencendo rolos de filmes 35mm e 120mm produzidos no laboratório de pesquisa para aqueles que apoiassem o projeto. O resultado foi extraordinário. Em outubro de 2014 eles conseguiram mais de US$320.000,00 de 5500 investidores, quase 30% a mais do que o valor necessário para trazer a Ferrania de volta ao mercado. Um sucesso estrondoso, embora haja muito trabalho ainda pela frente.

Muitas pessoas ainda sonham com a possibilidade de continuar utilizando seus excelentes equipamentos de filme na era digital e, no dia primeiro de abril de 2014 as esperanças destes entusiastas foram renovadas. A empresa alemã Rogg&Pott anunciou o lançamento do Re-35 - um sensor digital retrátil, no formato de um rolo de filme 35mm, para ser inserido em qualquer câmera fotográfica analógica. Bateria, sensor e memória integrados dentro de um único rolo de 35mm! O sonho de qualquer um que adora o modo clássico de fotografar, mas que não quer os custos de filme e revelação da fotografia analógica.

re_35.jpg RE-35: o sonho daqueles que querem continuar usando suas câmeras de filme na era digital.

O único problema é que o tal “sensor num rolo de filme” da Rogg&Pott não existe. O anúncio não passou de uma brincadeira de “primeiro de abril”, mas que só foi desmentida por uma nota no site em janeiro deste ano. Um belo balde de água fria em muita gente. Mas alguma coisa boa saiu desta “brincadeira”, pois mostrou que o interesse pela forma "clássica" e “pura” de fotografia está muito vivo. Acredito que seja por isso que as propostas da Leica não são tão sem sentido assim. Eu só não posso dizer o mesmo daqueles preços!


Luciano Leonel Mendes

Se você está há muito tempo sem sentir aquele frio na barriga, então você está fazendo alguma coisa de errado....
Saiba como escrever na obvious.

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