Ederval Fernandes

Ederval Fernandes é baiano de Feira de Santana.

Como ser um grande escritor

Apenas beba a sua cerveja.


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Alguns anos atrás eu costumava frequentar a casa de um grande poeta que mora aqui na minha cidade natal. As reuniões serviam basicamente para que eu (e os demais jovens que admiravam o poeta e tencionavam ser também escritores) mostrar o que vinha escrevendo naquele período para que o poeta, mais lido e mais “experiente”, desse sua opinião sobre aqueles textos que se apresentavam.

Acontece que as opiniões deste excelente poeta, evidentemente, eram emitidas de acordo com o ideal de escritor e de literatura que ele estava impregnado, de modo que tudo que se afastasse desses paradigmas, ele naturalmente classificava como um caminho estético desaconselhável.

Naquele tempo eu comecei (muito devagar, confesso) a desconfiar que, embora ele fosse um poeta muito bom, um dos melhores da sua geração em todo Brasil, suas ideias acerca do que é poético ou não, literário ou não, certo ou errado no mundo da criação, suas ideias não deveriam ser tomadas como dogmas. Mas até que essa desconfiança começasse a ganhar contornos, eu penei bastante para entender e em grande medida, me adequar ao ideal literário desse grande poeta. Foi um período difícil, que eu pensei (e até por 15 dias cheguei a realizar) em lagar essa coisa de literatura.

Quando, por um número de acasos, eu e mais alguns conhecidos não pudemos mais frequentar a casa do poeta, e por causa disso a influência dele em mim foi diminuindo substancialmente, eu pude, aos poucos, começar o esboço do que eu posso chamar de minha própria “consciência literária”, que, embora seja primária e até em certos aspectos ruborizante, me trouxe confiança ao escrever.

Nada é mais importante ao escrever do que a confiança. Ela pode ter naturezas diversas, não importa, seja pelo talento, seja pelo domínio teórico, seja pela desmistificação do ato da escrita, seja por uma arrogância intrínseca ao caráter daquele que escreve, o determinante em escrever bem é ter confiança naquilo e sobre aquilo que você está escrevendo.

Um exemplo tácito sobre essa questão da confiança em escrever é Charles Bukowski – escritor que virá como tema em um outro texto muito em breve. Se pegarmos apenas a sua obra poética, percebemos que a força dos seus poemas não reside no apuro formal ou qualquer coisa parecida, mas sim na confiança embutida em seus versos de que aquilo que está escrito ali, embora nos pareça a coisa mais banal do mundo, como uma corrida de cavalos ou um carro de estimação que fora roubado, possui beleza e inventividade, porque se não os possuísse, Bukowski certamente não iria se sentar defronte à máquina para escrevê-lo. Como qualquer obra artística, ela pode funcionar ou não, ser bela ou não, ser “grande” ou “pequena” – a questão em si não é essa, como eu disse, a questão está em construir uma confiança e partir dela ir aprimorando, com os meios que você achar melhor, o seu modo de escrever. Há poemas de Bukowski que chegam a ser ruins, há outros simplesmente bons, há outros que eu nem consigo dizer se gosto ou desgosto, mas há alguns que são um primor, algo de gênio, mas de uma genialidade apenas possível dentro daquilo que, com a sua confiança lírica, Bukowski logrou ter. Como o poema que dá título e sentido a esse texto, por exemplo:

COMO SER UM GRANDE ESCRITOR (Tradução Pedro Gonzaga)

você tem que trepar com um grande número de mulheres belas mulheres e escrever uns poucos e decentes poemas de amor.

e não se preocupe com a idade e/ou com os talentos frescos e recém-chegados.

apenas beba mais cerveja mais e mais cerveja

e vá às corridas pelo menos uma vez por semana

e vença se possível.

aprender a vencer é difícil - qualquer frouxo pode ser um bom perdedor.

e não se esqueça do Brahms e do Bach e também da sua cerveja.

não exagere no exercício.

durma até o meio-dia.

evite cartões de crédito ou pagar qualquer conta no prazo.

lembre-se que nenhum rabo no mundo vale mais do que 50 pratas. (em 1977).

e se você tem a capacidade de amar ame primeiro a si mesmo mas esteja sempre alerta para a possibilidade de uma derrota total mesmo que a razão para essa derrota pareça certa ou errada -

um gosto precoce de morte não é necessariamente uma coisa má.

fique longe de igrejas e bares e museus, e como a aranha seja paciente - o tempo é a cruz de todos, mais o exílio a derrota a traição

todo este esgoto.

fique com a cerveja.

a cerveja é o sangue contínuo.

uma amante contínua.

arranje uma grande máquina de escrever e assim como os passos que sobem e descem do lado de fora de sua janela bata na máquina bata forte

faça disso um combate de pesos pesados

faça como o touro no momento do primeiro ataque

e lembre dos velhos cães que brigavam tão bem: Hemingway, Céline, Dostoiévski, Hamsun.

se você pensa que eles não ficaram loucos em quartos apertados assim como este em que agora você está

sem mulheres sem comida sem esperança

então você não está pronto.

beba mais cerveja. há tempo. e se não há está tudo certo também.


Ederval Fernandes

Ederval Fernandes é baiano de Feira de Santana..
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