Ederval Fernandes

Ederval Fernandes é baiano de Feira de Santana.

Hemingway: cinismo e ironia


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Estávamos eu e mais dois amigos conversando sobre alguns livros que andáramos lendo. Eu, que tinha lido recentemente Adeus às Armas, numa edição cuja tradução fora feita por Monteiro Lobato, perguntei a um amigo que eu soubera não ter gostado do livro - não gostado ao ponto de desfazer-se do volume que havia comprado a peso de ouro.

- Mas me diga, por que você não gostou de Adeus às Armas?

- Por que eu tenho bom gosto! – ele disse irônico e exclamativo, o que fez com que nós três começássemos a rir.

Eu, da minha parte, fiquei um tanto constrangido, porque esperava uma resposta mais séria e mais específica. Tornei a perguntar – em parte pra esconder meu fugaz constrangimento, em parte porque eu estava realmente curioso.

- Falando sério, por que você não gostou?

- Olha, não gostei daquela história toda do soldado solitário. Sei lá, não achei atraente. E veja que eu sou um cara até receptivo com Hemingway, acho O Sol Também se Levanta um grande romance, mas realmente esse Adeus às Armas eu achei fraquíssimo.

- Entendo. Eu gostei. Quer dizer, primeiro eu não gostei, mas com o tempo acabei gostando. As cenas em que o cara se vira sozinho na floresta e tal, aquela coisa do cara fazer tudo sozinho, de ser solitário, ser perseverante e determinado, eu gostei. Gostei também porque é um romance muito pessimista, embora haja momentos bonitos ali com o casal protagonista.

Eu tinha lido o romance e, ao final da leitura, não estava certo se tinha achado o romance excelente ou mediano, ou de certo modo medíocre. Reação parecida eu tive ao ler O Sol Também se Levanta, só que em menor grau. Aliás, nos dois romances de Hemingway que li até agora, houve estas semelhanças curiosas: em ambos (e até mesmo quando eu li suas memórias sobre Paris e sobre a “Geração Perdida”) não tive uma leitura fluída e prazerosa, como quase sempre me ocorre com um livro de um autor estadunidense. Todos os romances que li de Hemingway até então foram penosos no sentido de me absorver de tal maneira que eu precisei dar a eles, sem exceção, um tempo para retornar a leitura e de fato terminar de lê-los. Acontece que, após as leituras, sobretudo os dois romances foram “crescendo” dentro de mim. Apenas semanas depois da experiência prática da leitura, as forças das histórias foram tomando forma e sendo, assim, mais claras e “práticas” para mim, no sentido de absorvê-las como a satisfação que uma leitura engrandecedora para a formação do meu caráter.

Essa dificuldade que eu apontei na leitura de seus romances (Por Quem os Sinos Dobram? está na fila de leitura para breve), eu nunca encontrei, porém, em seus contos – que na sua grande maioria me foi uma leitura agradável, sem, no entanto, diminuir seu enorme grau de influência sobre minhas pretensões literárias e, no limite, à minha própria personalidade.

Eu vim adquirindo (ao menos penso que sim), como o narrador de Hemingway, uma ironia e uma desesperança dificilmente percebida pela própria pessoa que adquire, como também por quem ou por onde exatamente ela foi adquirida.

É difícil achar quem não tenha lido ou mesmo quem não goste de Hemingway. Neste sentido, é inegável a sua presença no mundo das letras ocidentais modernas. Há algumas pessoas, porém, que o acham rasteiro, e quando não paradoxalmente piegas (é a opinião de certas pessoas ao lerem as passagens do casal protagonista em Adeus às Armas, por exemplo) e duro, no sentido dele não expressar ou de fazer o maior esforço para não colocar emoção naquilo que escreve. É verdade que tudo que li de Hemingway até agora - os dois primeiros romances, as memórias de Paris, a célebre novela O Velho e o Mar, bem como grande parte de seus contos – absolutamente nada incorreu para o patético, em toda dimensão que essa palavra possa ter de emocional. Há um trecho célebre de Bukowski sobre John Fante que posso usar aqui para deixar mais clara a idéia sobre o patético. Em um trecho de um prefácio para uma edição comemorativa de Pergunte ao Pó, Bukowski escreveu: “Aqui está um homem que não tem medo da emoção!”. Quem leu Fante sabe que muito da sua qualidade como escritor está em criar pequenas e corriqueiras experiências existenciais ao mesmo tempo sofríveis, desesperadas e patéticas, nas quais o drama e a comédia são tão habilidosamente misturados e embutidos em suas personagens que não se adaptam à dura realidade da vida (ou, para usar uma expressão clássica, ao chamado “grande sonho americano”).

Por outro lado, o expediente de Hemingway não toca a comédia propriamente dita, com situações ridículas e patéticas. Hemingway se vale de uma dimensão do humor mais cortante e de ambígua compreensão, que é a ironia – na maioria das vezes um meio de expressão mais utilizado por pessoas cujo cinismo adquiriu status de filosofia de vida e que, embora a desesperança seja algo claro e resoluto diante da existência, não assumem uma dimensão de auto piedade em relação a ela. Aliás, este é o grande trunfo em Hemingway: seu cinismo e sua ironia diante da vida produzem, em sua literatura, personagens capazes de assumir grandes riscos, responsabilidades e missões que colocam o humano sempre em situações limites, seja psicologicamente, seja materialmente. Seu cinismo e sua ironia não servem como paralisia diante da experiência sofrida da vida; não são meios para o desamor pelo próximo – muito pelo contrário.


Ederval Fernandes

Ederval Fernandes é baiano de Feira de Santana..
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