a estética da sinceridade

Leituras: Submundo, de Don Delillo

por em 25 de jan de 2012 às 04:12 | 1 comentário

donclose_webMG_1612-1.jpg

Eu sei da tarefa ingrata que é falar sobre um romance de mais de setecentas páginas e formalmente complexo, como é Submundo, do escritor estadunidense Don Delillo, mas a função deste blog é fundamentalmente registrar sob forma de crônicas algo em torno dos livros que eu venho lendo ou aspectos da literatura que eu acho que valem a pena compartilhar.

Primeiramente, o que eu tenho a dizer sobre Submundo é que antes de eu terminar de lê-lo, já tinha noção de que se tratava de uma obra máxima e que a minha relação com ela permaneceria por mais tempo além da experiência prática da leitura. Ontem, ao ler as páginas finais do romance, eu estava completamente tomado pela paranóia e pelo pessimismo inerentes ao texto e ao autor Don Delillo. Mas não de maneira gratuita, uma impressão herdada do nada que me levou direto à fossa. Em grande medida, do que está escrito em Submundo como fragmentação e falência de um modelo de vida contemporânea, eu consegui enxergar nesta porção remota do mundo que é a minha cidade. O Bronx devastado pelas drogas; a falta de diálogo entre as gerações que se sucedem nas cidades; o problema do lixo; a violência crescente e incontrolável; o eterno conflito do eu social com o eu individual, muitos pormenores da vida contemporânea foram radiografados por Don Delillo com uma sagacidade impressionante e praticamente tudo tem aplicação imediata no processo de urbanização da minha cidade, que envolve crescimento gigantesco da violência, falência moral, e ampla devastação dos jovens (em sua maioria de origem humulde) pela via do crack e outros venenos.

Ao terminar a última página (as três páginas finais são uma digressão sobre a morte de uma personagem, a freira
Edgar) eu apoiei minha cabeça nas mãos e fiquei imóvel por uns quinze minutos, impressionadíssimo com o painel pessimista que Don Delillo me descreveu do tempo em que vivo e de um tempo imediatamente anterior ao meu: o romance se passa em cinqüenta anos de história, do auge da Guerra Fria até o esfacelamento da União Soviética e a ascensão dos novos países do Leste Europeu.

Resumir o livro é trabalho ingrato e desnecessário. O que cabe dizer é que o romance gira em torno de dois personagens principais: Nick Shay e Klara Sax. Ambos moradores do Bronx. Nick, principalmente, nasceu e cresceu no Bronx. Klara, que no romance já aparece mãe de uma filha e casada, mora em um apartamento e é uma artista plástica principiante, que conhecerá fama décadas depois, ao costumizar aviões de guerra B’52. Suas vidas estão ligadas por acontecimentos de conseqüências devastadoras, que não cabe relevar aqui. Além de Nick e Klara, Delillo nos oferece uma galeria de personagens a princípio diferentes entre si, mas que possuem alguma ligação, muitas vezes da maneira mais improvável e conspiratória possível.

Escrito de uma maneira completamente não-linear, ele mistura passado, presente e futuro não em capítulos, mas às vezes em parágrafos e a leitura exige um pouco de esforço inicial, mas depois de assimilada o ritmo da linguagem, a leitura flui bem.

gallery_3752_100_65703.jpg

O primeiro capítulo está entre as melhores literaturas que eu já li na vida. Chama-se “O Triunfo da Morte” (referência a um quadro do pintor Bruegel) e descreve uma célebre partida de baseball no Polo Grounds entre os Giants e os Dogdes em 1951. A fatídica partida em que há uma virada incrível no placar, com o batedor do Giants Bobby Thomson rebatendo a bola para arquibancada e conseguindo com isso uma volta completa e conseqüentemente o campeonato. A descrição das jogadas e do público, bem como de algumas cenas da tribuna de honra, onde figurões como Frank Sinatra e o então chefe da FBI Edgar Hoover assistiam ao jogo são antológicas. A cena mesma que dá título ao capítulo é genial. A multidão abaixo das tribunas de honra joga pedaços de papel pelos ares, um espetáculo lindo, aqueles papeis voando e deixando no ar algo elétrico e colorido. De repente o pensativo Edgar Hoover pega um papel a esmo e lá está um pedaço da reprodução do quadro de Bruegel. Ele olha em volta e a multidão está enlouquecida. Ele compara aquela multidão com a que ver no papel, que está sendo massacrada pela morte. Em sua cabeça martela a notícia de que os russos estão fazendo testes nucleares e que há sim iminência de um ataque nuclear. A descrição piscológica de Hoover é uma das melhores coisas que eu já li na vida. Simplesmente isso.

edervalfernandes
Artigo da autoria de Ederval Fernandes.
Ederval Fernandes é baiano de Feira de Santana..
Saiba como fazer parte da obvious.

Comentários

Os comentários a este artigo são da exclusiva responsabilidade dos seus autores e não veiculam a opinião do autor deste site sobre as matérias em questão.

Ana Maria Rosa

Ederval, gostei da clareza com que você escreve. Não gosto de artigos complicados, difíceis (para mim)de compreender. Sabe que me deixou com vontade de ler o livro desse autor de quem nunca ouvi falar? Parece bem interessante!

Deixe o seu comentário

O e-mail é obrigatório mas não será mostrado no site ou cedido a terceiros. Seja cordial e educado. Comentários ofensivos ou pouco dignos não serão publicados.


Site Meter site statistics