a lente lenta

Acerca de Fotografia e de fotografias (ou seja, acerca de qualquer coisa..)

Júlio Assis Ribeiro

Fulano desfocado, despachado e de difuso sentido de humor. Adora falar de si na terceira pessoa e discorre sobre toda uma variedade de assuntos, como se percebesse de algum. Gosta de imagens, de histórias e de parêntesis, e deu-lhe agora para isto...

O cão da imperatriz

A história de um fotógrafo oitocentista para quem os cães, tal como humanos, não eram todos iguais. Alguns eram muito mais iguais que os outros.


Disderi_autoretrato_b.jpg Disdéri, Auto-retrato, 1860-70

André Adolphe Eugène Disdéri, o homem a quem é geralmente creditada a invenção do formato carte-de-visite, gostava de cães.

Fotografou-os durante o seu período de glória profissional e económica. Fotografou o seu, Corral, assim se chamava, alguns outros cães anónimos (eis aqui um conceito interessante!) e ainda o cão da imperatriz Eugénie, esposa de Napoleão III de França. E registou-os com os mesmos critérios que usava em modelos humanos.

Disdéri, que depois de múltiplos ofícios e falhanços financeiros em Paris, se tornara fotógrafo daguerreótipista em Brest, na Bretanha, adoptou mais tarde o processo do colódio húmido quando estabelecido em Nimes, no sul de França. Retornou a Paris e aí, em 1854, patenteou um processo que produz dez imagens numa única placa de vidro com emulsão fotossensível. Na prática virá apenas trabalhar com oito imagens por placa, utizando uma câmara de sua concepção, com quatro lentes e um mecanismo que permitia movimentar a placa após as primeiras quatro exposições. As imagens, depois de impressas ( e convém lembrar que a impressão era feita por contacto), tinham individualmente uma dimensão muito reduzida, aproximadamente a de um cartão de visita.

Embora na realidade não tenha sido o primeiro a trabalhar com este formato ( sabe-se que, em 1851, um fotógrafo de Marselha, chamado Dodero, já o fizera) foi ele quem primeiro o popularizou, e explorou em larga escala. O processo permitia multiplas cópias num único procedimento, poupando químicos e tempo, e adequava-se quer ao anónimo pequeno burguês, que podia de forma acessível obter rapidamente vários retratos, quer às celebridades da época, actores, poetas, compositores, que posavam para as câmaras e cujas cópias eram vendidas aos milhares.

Disderi_Adelaide_Ristori_na_Médeia_de_Legouve.jpgDisdéri, Adélaïde Ristori na tragédia "Medeia"de Legouvé, 1860 prova de albumina a partir de negativo de vidro com oito exposições colecções do musée d'Orsay, Paris, França

Em 1859, Napoleão III faz-se fotografar de forma algo imprevista, ao que se diz, entrando subitamente no estúdio de Disdéri e de lá saindo satisfeito. A notícia favoreceu o negócio, que se multiplica por vários estúdios, e Disdéri passará a ser um dos fotógrafos oficiais do imperador. Fotografará nos anos sequentes boa parte da nobreza, intelectualidade e alta burguesia europeias, tornando-se um dos mais conceituados retratistas da época, a par de Nadar.

Porém, ao contrário deste último, Disdéri não procura, por assim dizer, captar a psicologia dos retratados. Fotografa sobretudo em corpo inteiro, pose estática. Interessa-lhe mais a iconografia. As roupas, os objectos de ofício do retratado e os adereços são os agentes principais da sua forma de trabalhar. Quando fotografa gente comum, em exterior, as suas fotos tem outra ligeireza. Mas remetido para o estúdio, perante barões e banqueiros, encosta-os a colunas, móveis e balaustradas. Quere-os sérios e hirtos como paus-de-cabeleira.

Disderi_conde_de_Morny_1861_1865_b.jpgDisdéri, Conde de Morny,1861-65 Fotografia carte-de-visite colecções do musée d'Orsay, Paris, França

Disderi_o_tocador_de_realejo_cerca_1853_b.png Disdéri, tocador de realejo, cerca de 1852 prova de papel salgado colecções do J. Paul Getty Museum, Los angeles, EUA

Voltando aos cães, quando Disdéri fotografa Corral, o animal abana a cauda que fica arrastada devido à exposição longa. Encontra-se junto de uma das balaustradas fingidas, mas não há encenação, é apenas um cão de fotógrafo no estúdio do dono. Descontraído,com a língua de fora, junto à trela de que fora libertado e que se encontra no chão.

Disderi_corral.jpg Disdéri, Corral, 1850-1860 Prova de albumina colecções do musée d'Orsay, Paris, França

Já o cão da imperatriz é toda uma outra coisa. A imperial criatura aparece-nos em pose altiva, após passagem por cabeleiro canino, empoleirada numa pequena cadeira - um trono à sua escala. Mimetizam-se com o bicho tiques e composições da clientela de sangue mais ou menos azulado. Não estamos perante um cão plebeu.

Disderi_o_cao_da_imperatriz.jpg Disdéri, O cão da imperatriz Eugénie, cerca de 1860 Prova de albumina colecções do Metropolitan Museum of Art, Nova iorque, EUA

Não sei se é o meu preconceito republicano, se é o meu gosto por rafeiros, mas a segunda imagem parece-me muito mais circense do que outra coisa. O cão da imperatriz lembra-me os caniches apalhaçados que, há muitos anos atrás, nos estranhos natais televisivos de então, apareciam no Festival de circo de Montecarlo, fazendo habilidades e dando pulinhos por uma festa no focinho.


Júlio Assis Ribeiro

Fulano desfocado, despachado e de difuso sentido de humor. Adora falar de si na terceira pessoa e discorre sobre toda uma variedade de assuntos, como se percebesse de algum. Gosta de imagens, de histórias e de parêntesis, e deu-lhe agora para isto....
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