a lente lenta

Acerca de Fotografia e de fotografias (ou seja, acerca de qualquer coisa..)

Júlio Assis Ribeiro

Fulano desfocado, despachado e de difuso sentido de humor. Adora falar de si na terceira pessoa e discorre sobre toda uma variedade de assuntos, como se percebesse de algum. Gosta de imagens, de histórias e de parêntesis, e deu-lhe agora para isto...

O Fantasma de Lincoln

Na altura da Guerra Civil Americana, um gravador de ourivesaria da cidade de Boston começou a anunciar a sua capacidade de fotografar fantasmas. Numa sociedade especialmente afectada pela morte, o trabalho inicialmente parecia não lhe faltar. E os problemas também não.


Nicholas_H_Shepherd_Abraham_Lincoln_cerca_de_1847_b.jpg Nicholas H. Shepherd, Abraham Lincoln, cerca de 1847 Colecções da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos, Washington, EUA A 4 de Março de 1861, Abraham Lincoln tomou posse como 16º presidente dos Estados Unidos da América. Foi o primeiro presidente do recente Partido Republicano que, espante-se, não tinha então uma agenda propriamente conservadora e encontrava a sua base de apoio nos estados do Norte. Foi o início de um período simultaneamente decisivo, fundamental e trágico. Os anos seguintes seriam profundamente marcados, muito para além do que já era comum nesse século, pela morte, pela violência e pela doença.

À Guerra Civil Americana, que durou de 1861 a 1865, somar-se-iam o degradar das condições de vida, as epidemias e os actos de vingança e de resistência, que com ela se instalaram e que se prolongariam muito para além do período efectivo das confrontações organizadas entre o Norte e o Sul.

A este ambiente generalizado de luto, sofrimento e desgosto não escaparia a família de Lincoln. O presidente seria assassinado por John Wilkes Booth, a 14 de Abril de 1865, enquanto assistia à peça de teatro Our American Cousin. E dos seus quatro filhos, apenas um chegaria à idade adulta.

President_Lincoln_Currier_and_Ives_1865.jpgGravura de Currier & Ives,O assassinato de Lincoln, 1865 Colecções da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos, Washington, EUA

A dor e a falta de esperança são um mercado fácil para o escapismo, o embuste e a encenação. É nesta América, de gente que sobrevive com dificuldade aos que ama, que um gravador de ourivesaria de Boston, usando químicos e instalações de um amigo, descobre algo que ainda hoje tende a divertir aqueles que aprendem as bases da fotografia - a possibilidade de realizar imagens semitransparentes e fantasmagóricas. Em 1861, William Mumler, terá verificado ao revelar uma chapa com o seu auto-retrato que nela aparecia a figura desvanecida de uma menina. Uma vez imprimida a fotografia, tê-la-á mostrado a amigos que terão visto na imagem semelhanças com uma falecida prima de Mumler. A história poderia ter ficado por aqui, e dela não teríamos hoje conhecimento. Ter-se-ia perdido no limbo dos acontecimentos banais e insignificantes. Mas doses razoáveis de oportunidade, vontade e contingência intervieram e tal assim não foi.

Mumler_1861.jpgWiliam Mumler, auto-retrato com fantasma de prima, 1861 colecções do Museum of Hoaxes, San Diego, EUA

A fotografia era então uma realidade recente e pouco acessível. George Eastman e a sua Kodak company estavam a décadas de distância, e os fotógrafos de então eram também químicos amadores que fabricavam os seus materiais de trabalho. Para a generalidade da população, a fotografia tinha algo de ciência oculta e de alquimia. A guerra que grassava a sul trazia a morte com demasiada frequência para o quotidiano. E começavam a prosperar as seitas espíritas que reivindicavam a capacidade de restabelecer o contacto com as almas dos familiares perdidos. Na sua autobiografia, Mumler alega ter mostrado por brincadeira a fotografia a um conhecido, que se movia nos meios espíritas, e que este terá aceite com grande entusiasmo a natureza sobrenatural da imagem. Em pouco tempo foi montado um próspero negócio de retrato de espíritos e a fama de William Mumler espalhou-se rapidamente pela cidade de Boston.

Ao entrar, os clientes eram recebidos primeiro pela esposa do fotógrafo, Hannah Mumler, entretanto convertida em médium. Numa conversa preliminar eram questionados acerca da natureza dos espíritos que pretendiam contactar. Muitas vezes os fantasmas revelavam ser algo evasivos, e o cliente tinha de voltar várias vezes ao estabelecimento de Mumler até que estes fossem efectivamente fotografados junto ao requerente.

O sucesso comercial de William Mumler e a natureza do seu mister não tardaram a atrair a animosidade dos demais fotógrafos da cidade. Rapidamente alguns concidadãos reparam na estranha parecença de algumas das vagas imagens de espíritos com personalidades da cidade, bem vivas por sinal. A sua prosperidade económica ficou em risco, e em 1868, Mumler transferiu-se para Nova Iorque. Aí reproduz o negócio e inicialmente o sucesso. Porém a contestação e a dúvida perseguem-no, e após algumas queixas o Mayor da cidade ordena uma investigação. Um agente da lei, Joseph Tooker, desloca-se ao estúdio e, apresentando-se com uma falsa identidade, encomenda um retrato com a presença de um espírito. Após a concretização do pedido, Tooker e os seus homens procedem à detenção de Mumler, alegando que espírito retratado não correspondia à descrição dada. A acusação formal dirá que tirara proveito de pessoas crédulas com aquilo que apresentava como fotografias de espíritos.

harpers_weekly_may_8_1869_mumler_trial.jpg1ª página do jornal Harpers Weekly de 8 de Maio de 1869 com a cobertura do julgamento de Mumler

A 21 de Abril de 1869 inicia-se, sob a presidência do juiz Joseph Dowling, o julgamento de William Mumler, que se revelará particularmente mediático e polémico. Seguido com muita atenção por toda a imprensa nova-iorquina e pelo público, o caso fará com que inúmeras cartas sejam publicadas com testemunhos e opiniões, alimentando a controvérsia. Sentindo que o Espiritismo estava igualmente em julgamento (pesem embora algumas renitências internas em relação ao trabalho do réu) destacadas figuras deste movimento vieram em defesa de Mumler, como Joseph Dowling, um antigo juiz do Supremo tribunal de Nova Iorque.

Do lado da acusação, o empresário Phineas Taylor Barnum, promotor de freak shows e um reconhecido sensacionalista, faz-se convocar e tenta de forma determinada apresentar William Mumler como burlão. Alega ter trocado correspondência com este, na sequência da compra de várias fotografias para exposição no seu Barnum's American Museum, um espaço em que combinava em partes iguais atracções didácticas e bizarrias. Nesta troca epistolar, afirma, o fotógrafo teria assumido que estas resultavam de um processo de falsificação. A linha de argumentação de Barnum foi totalmente descredibilizada pela defesa, invocando o estatuto duvidoso do empresário e o facto de este não apresentar as cartas, alegadamente perdidas no incêndio que destruiu o museu. Na ânsia de provar a imoralidade de Mumler, P. T. Barnum recorreu ao famoso fotógrafo Abraham Bogardus para que este elaborasse uma fotografia que fosse a demonstração técnica da possibilidade de forjar imagens de espíritos. Bogardus retratou então o empresário numa imagem, que visando ridicularizar as fotografias de Mumler, fazia aparecer o fantasma facilmente reconhecível do falecido presidente Abraham Lincoln.

mumler_barnum_large.jpgAbraham Bogardus, retrato de P. T. Barnum com o "fantasma" de Lincoln, 1869 colecções do Museum of Hoaxes, San Diego, EUA

Apesar da convicção afirmada pelo juiz Joseph Dowling de que as fotografias de espíritos não seriam documentos reais, não foi possível provar, acima de qualquer dúvida, a culpabilidade de Mumler. Tendo saído do julgamento sem ser condenado, William Mumler retornará a Boston e verá a sua carreira de caçador de imagens fantasmagóricas esmorecer lentamente, mercê da exposição do caso e do crescente cepticismo do público relativamente ao próprio meio. A fotografia já não era tão ingenuamente aceite como veículo da Verdade.

Mas antes de Mumler morrer falido e em total descrédito, o seu nome volta a cruzar-se com o de Abraham Lincoln. Na autobiografia, em sua defesa e tentando provar a natureza verdadeira da sua capacidade de capturar a figura das almas, Mumler alega que a mulher que entrou no seu estúdio em 1871, cobrindo a cara com um véu negro de luto, se apresentou com um falso nome. Seria, para ele, uma total estranha. Não poderia, por isso, saber que se tratava de Mary Todd Lincoln, a sobreviva esposa do presidente. Tal só se tornaria claro quando, ao revelar o negativo, reparou que o líder assassinado seis anos antes aparecia junto da figura sentada que apenas desvelara o rosto no momento da fotografia.

William_Mumler_Mary_Todd_Lincoln_1871.jpgWilliam Mumler, Mary Todd Lincoln, 1871 colecções do Museum of Hoaxes, San Diego, EUA

A versão de Mumler é naturalmente a sua, aquela com que quis ser recordado, e não é obviamente possível contraditá-la de forma absoluta. Mas o facto de Mary Todd Lincoln ser reconhecidamente uma frequentadora dos meios espíritas (onde buscara consolo após a morte violenta do marido e o falecimento prematuro do filho mais novo, Thomas Lincoln, nesse ano de 1871) torna difícil aceitar esta descrição dos factos, sabendo-se a ligação do fotógrafo ao movimento. Não sabemos se foi por pura falta de vergonha, por vontade de provar a verdade da sua prática, ou por simples necessidade económica, que Mumler aceitou fotografar o fantasma de Lincoln, com que havia sido escarnecido dois anos antes. Mas ao fazê-lo, William Mumler criou a sua foto mais conhecida e reproduzida. E entrou merecidamente na galeria dos episódios mais caricatos da História da Fotografia.


Júlio Assis Ribeiro

Fulano desfocado, despachado e de difuso sentido de humor. Adora falar de si na terceira pessoa e discorre sobre toda uma variedade de assuntos, como se percebesse de algum. Gosta de imagens, de histórias e de parêntesis, e deu-lhe agora para isto....
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