a lente lenta

Acerca de Fotografia e de fotografias (ou seja, acerca de qualquer coisa..)

Júlio Assis Ribeiro

Fulano desfocado, despachado e de difuso sentido de humor. Adora falar de si na terceira pessoa e discorre sobre toda uma variedade de assuntos, como se percebesse de algum. Gosta de imagens, de histórias e de parêntesis, e deu-lhe agora para isto...

Faroeste

Os miúdos que, nas décadas de setenta e oitenta de novecentos, brincavam aos índios e aos cowboys desconheciam a participação portuguesa nas aventuras do Oeste americano, mais de um século antes. E desconheciam Solomon Nunes Carvalho, um homem a quem um infortúnio histórico fez remeter para o esquecimento.


trinita.jpgcartaz de Trinitá, o cowboy insolente ("Lo chiamavano Trinità..." - título original), 1970 Não que daí advenha grande mal ao mundo, mas creio pertencer à última geração que brincou aos cowboys e aos índios. O primeiro filme que vi num cinema, vi-o num cinema a sério (daqueles com plateia e balcão, e várias centenas de lugares) e foi uma obra inenarrável e boçal, exemplo típico da agonia do western. Tratava-se de “Trinitá, o cowboy insolente”( "Eles Me Chamam Trinity", no Brasil).

Adorei! Eu, o meu irmão mais novo e o meu avô, que nos levou! Nós e a torrente de gente que encheu o cinema nessa noite! Uma torrente que comia pipas (sementes de girassol) e não pipocas. Que assobiava, gritava e aplaudia a cada murro, salto e pirueta de Bud Spencer e Terence Hill, e que, no entretanto, provocava os vizinhos do lado e de baixo, atirando as cascas das pipas. A saída do cinema deu-se em apoteose, com profunda satisfação e imersos numa maralha que dispersou a pé, ou montada em motorizadas de escape livre e de outra artilharia. Tudo num enorme banzé, próprio do Portugal pós-PREC* e ainda pré-CEE** e pré-ASAE***.

Mas os "Cóbois" há muito que haviam entrado no meu vocabulário e imaginário. Creio que mesmo antes de os meus pais comprarem a primeira televisão, e de eu começar aí a ver os filmes do John Wayne e companhia, já brincaria com o meu irmão mais velho com pistolas, idealizadas a partir de ramos secos, e arcos e setas manhosas e improvisadas. O que nos levaria a nós, moçanhada mais ou menos europeia, em fins do século vinte, a imaginarmo-nos no imensamente distante Faroeste norte-americano? O nosso século dezanove não foi livre de peripécias e de foras-da-lei. Também tivemos uma guerra civil, então. E bandidos que assaltavam carruagens. Mas o facto é que ninguém, que eu me lembre, teve a ideia de brincar aos liberais e miguelistas (de que aliás nunca tinhamos ouvido falar), nem ao Zé-do-telhado. Só o facto de não termos, na serra algarvia, os fantásticos índios e do nosso Cinema ser incapaz de fazer filmes que nos empolgassem, poderia explicar a capacidade de nos imaginarmos numa envoltura que nos era totalmente alheia, pensei durante muito tempo.

Foi com grande divertimento que, há uns anos, quando via um documentário sobre a diáspora açoriana, descobri que afinal o Faroeste até tinha qualquer coisa a ver connosco. Para meu espanto descobri que o criador de gado do Novo México que denunciou a localização de Billy "The Kid" ao xerife Pat Garrett era português. Que um tal John Phillips, batedor do exército da União (que conseguiu furar o cerco que dois mil índios Sioux, Cheyenne e Arapahos mantinham a Fort Phil Kearny, e garantir a ajuda que salvou noventa soldados) era na realidade Manuel Filipe Cardoso, nascido no lugar de Terras, Lajes do Pico, a 28 de Abril de 1832. Descobri que outros nomes que aparecem em histórias do velho Oeste, como John Vey ou John Enos, não eram senão a denominação americana de João da Cunha Veiga e João Ignácio d’Oliveira. O distante Oeste não foi distante o suficiente para impedir que muitos portugueses, açorianos na sua maioria, lá chegassem fugidos da miséria nacional e em busca do ouro e do sucesso. Fizeram-no à sua maneira, em modo Low Profile. San Francisco desenvolveu-se em parte alimentado por hortelões portugueses.

Mais recentemente, navegando no sítio da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos, deparei-me com um nome estranhamente português - Solomon Nunes Carvalho.

solomon_nunes_carvalho_auto_retrato_cerca_1850_600px.jpgSolomon Nunes Carvalho, auto-retrato, cerca de 1850 Colecções da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos da América, Washington, E.U.A.

Pesquisei um pouco. O nome era, de facto, português. Homem de negócios, pintor, fotógrafo e inventor, Nunes Carvalho nasceu na cidade de Charleston, na Carolina do Sul, com direito e deveres de cidadania. Descrevia-se como um republicano (enquanto ideal de governo, não enquanto opção partidária). Pertencia porém a uma comunidade que sempre definiu como portuguesa, e que dessa definição estranhamente não abdicou, apesar da forma como a nação de origem a tratou. Nunes Carvalho provinha de uma família da elite cultural, comercial e técnica judaica portuguesa, das que, em vagas sucessivas, foram sendo forçadas ao exílio e ao desterro em lugares tão variados quanto Amesterdão, Londres, Salónica, Istambul ou o Caribe. É o facto de pertencer a uma comunidade com peso cultural, e económico, que explica a capacidade de fazer prevalecer um nome tão impronunciável para um americano, como é o apelido Carvalho (é relevantemente divertido ver como, em vários textos de língua inglesa, os autores se sentem na obrigação de colocar, entre parêntesis, a forma correcta de o pronunciar- a qual, segundo eles, será qualquer coisa como carvaio). Ao contrário do grosso da restante diáspora portuguesa, a família de Carvalho não era analfabeta , nem fugia da pobreza e da fome. Não estivera, como muitos milhares de emigrantes, à mercê da ignorância e prepotência de funcionários que anglicizavam a eito nomes portugueses, italianos, polacos ou gregos.

Solomon Nunes Carvalho notabilizou-se como fotógrafo daguerreótipista (o daguerreótipo foi uma forma primitiva de fotografia, positiva, elaborada numa chapa metálica, geralmente de latão, e que não permitia cópias), e foi, tão somente, o primeiro homem a fotografar os imensos espaços, as fabulosas paisagens, e as figuras do Oeste Americano. Solomon, um burguês citadino, por motivos não esclarecidos, decidiu-se em 1853 a acompanhar a quinta expedição de John Charles Frémont, um ex-militar, aventureiro e com ambições políticas, que procurava definir uma rota para o caminho-de-ferro entre o Este e a Califórnia. Fá-lo-á até ao Utah, realizando cerca de três centenas de imagens. Aí, gravemente doente, será abandonado por Frémont, a cargo da comunidade Mórmon. O líder da expedição segue adiante e leva todo equipamento e trabalho do fotógrafo. Recuperado, Nunes Carvalho retomará caminho mais tarde e chegará à California, retornando depois à Costa Este. Das suas aventuras na senda do Oeste nascerá o livro autobiográfico ” Incidents of Travel and Adventure in the Far West”, com o subtítulo” With Col. Fremont's Last Expedition”, concluído em 1856 e publicado no ano seguinte.

Mathew_Brady_Jonh_C_Fremont_cerca_1860.jpgMathew Brady, Jonh C. Fremont, cerca de 1860 imagem da Wikipedia Commons

Dito isto, qual é a causa para o enorme desconhecimento que cerca Solomon Nunes Carvalho? Quando se fala de fotógrafos do velho Oeste, vêm-nos de imediato outros nomes. Edward Curtis certamente, Timothy O'Sullivan muito provavelmente. Mas não Carvalho. A razão prende-se com um tremendo infortúnio. Frémont, ao deixar o fotógrafo para trás, pensando possivelmente que não sobreviveria, leva todas as suas imagens consigo. Mais tarde, entregá-las-á a Mathew Brady, o reconhecido fotógrafo nova-iorquino que viria a ser o grande documentador fotográfico da guerra civil americana, poucos anos depois. Tal entrega foi feita com o objectivo de se realizar cópias dos daguerreótipos (o que implicava fotografá-los com a técnica de cólodio húmido, a grande novidade técnica da altura, que permitia negativos de grande qualidade e, grande maravilha, todas as cópias positivas em papel que se desejasse). Ora, mais tarde, em 1881, um incêndio ocorreu no armazém de Staten Island, Nova Iorque, em que Brady guardava parte do seu trabalho e os daguerreótipos de Nunes Carvalho. Todas as fotografias da expedição foram então perdidas.

Todas excepto uma. Das três centenas de fotografias realizadas sobrevive um daguerreótipo, danificado, identificado por alguns como uma cópia de Brady ( identificação pouco credível, dado o uso de placas húmidas de colódio que este terá feito), por outros como um original resgatado do destroços do armazém. A imagem sobrevivente encontra-se na posse da Biblioteca do Congresso dos estados Unidos.

solomon_nunes_carvalho_auto_aldeia_cheyenne_1852_600px.jpgSolomon Nunes Carvalho, Vista de uma aldeia Cheyenne em Big Timber (Colorado), E.U.A.,1853 Colecções da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos da América, Washington, E.U.A.

Nela observa-se parte de uma aldeia índia Cheyenne, provavelmente a de Big Timber. Poderá ser um dos daguerreótipos que Carvalho descreve ter realizado no décimo capítulo do seu livro e, a assim ser, resulta algo irónico que a imagem sobrevivente não seja uma de particular investimento, mas uma realização com fins mais instrumentais. Descreve Solomon Nunes Carvalho que perante enormes dificuldades em convencer os Cheyenne em manterem-se imóveis, ou tão simplesmente em deixarem-se fotografar, optou por fotografar primeiro algumas tendas. Ao mostrar este daguerreótipo conseguiu então a atenção e abertura pretendidas, o que lhe permitiu fotografar de seguida uma idosa acompanhada de uma criança, e depois as figuras mais notáveis, que se prontificaram para o registo, nomeadamente o chefe da aldeia e a sua filha, que Carvalho apresenta como princesa.

Temos assim que, além de sobreviver apenas uma imagem, não é uma das foram realizadas com maior investimento e interesse. Não é uma fotografia das de espantosas paisagens ou de estranhos fenómenos e eventos que Carvalho realizou, nem um dos seus retratos das figuras de um território em mutação acelerada. Sobreviveu provavelmente uma imagem feita com o fim de facilitar outras, numa disposição em figuram tendas, peles a secar e duas figuras que observam à distância com curiosidade e desconfiança, eventualmente em doses iguais.

Pode ler mais sobre Solomon Nunes Carvalho aqui, aqui, aqui e aqui.

* Processo Revolucionário em Curso - período de actividades revolucionárias, de instabilidade política e social, iniciado com o golpe militar de 25 de Abril de 1974 e concluído com a aprovação da Constituição Portuguesa, em Abril de 1976, mas que normalmente é referido atendendo em particular ao espaço entre os eventos de 11 de Março de 1975 e de 25 de Novembro do mesmo ano.

** Comunidade Económica Europeia- Antecessora da actual União Europeia.

***Autoridade de Segurança Alimentar e Económica. Organismo de polícia criminal do Estado português cujas brigadas são responsáveis pela avaliação e comunicação dos riscos na cadeia alimentar, bem como pela disciplina do exercício das actividades económicas nos sectores alimentar e não alimentar. A par de um papel muito positivo ao nível da melhoria das condições de higiene, é-lhe atribuído algum exagero e arbitrariedade na aplicação de directivas, muitas oriundas de decisões da União europeia, que ignoram hábitos culturais portugueses, como interdição do uso de colheres-de-pau nos restaurantes e a proibição do consumo de certos géneros alimentares.


Júlio Assis Ribeiro

Fulano desfocado, despachado e de difuso sentido de humor. Adora falar de si na terceira pessoa e discorre sobre toda uma variedade de assuntos, como se percebesse de algum. Gosta de imagens, de histórias e de parêntesis, e deu-lhe agora para isto....
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