a lente lenta

Acerca de Fotografia e de fotografias (ou seja, acerca de qualquer coisa..)

Júlio Assis Ribeiro

Fulano desfocado, despachado e de difuso sentido de humor. Adora falar de si na terceira pessoa e discorre sobre toda uma variedade de assuntos, como se percebesse de algum. Gosta de imagens, de histórias e de parêntesis, e deu-lhe agora para isto...

Uma valente barricada

A presença de uma câmara fotográfica num evento bélico tende a produzir efeitos, e nem sempre estes são os mais esperados.
Horácio Novais, na revolta de 26 de Agosto de 1931, viveu essa experiência.


Horácio_Novais_Bravata_Revolta_26_Agosto_1931_rescaldo.jpgHorácio Novais, Revolta de 26 Agosto de 1931, Lisboa Colecções da Fundação Calouste Gulbenkian É conhecida a estranha relação entre a câmara fotográfica e os soldados. A ideia do fotógrafo como um agente neutro, que apenas capta as coisas à medida que estas se dão, é muitas vezes desmentida pelos factos. A presença de um fotógrafo (ou de outro repórter de imagem) funciona com frequência como um catalisador, incentiva a acção e o fotógrafo torna-se um encenador (involuntário, na esmagadora maioria das vezes). Por vezes, o resultado é trágico, com linchamentos e actos que se dão no frenesi criado pela presença da câmara; por vezes, é atenuador, quando o fotógrafo é uma testemunha incómoda e há que refrear ou adiar acções que não se quer registadas. Por vezes ainda, o resultado é simplesmente patético.

Os conflitos, ao contrário dos filmes bélicos, conjugam a urgência e brutalidade dos momentos de combate com períodos longos de espera e de tédio. Aí, a presença do fotógrafo desencadeia, de quando em quando, uma agitação estranhamente infantil, com os combatentes a simularem, a brincarem aos soldados.

A revolta de 26 de Agosto de 1931, em Portugal, não foi inócua, tendo-se registado cerca de quarenta mortos e enormes estragos materiais. A reportagem que dela fez Horácio Novais, disponibilizada pela Fundação Calouste Gulbenkian no Flickr, parece ter sido feita após os momentos mais intensos, quando o resultado já estava decidido. Há nela as imagens dos estragos, das armas apreendidas, do transporte de prisioneiros e das barricadas governamentais.

Horácio_Novais_Revolta_26_Agosto_1931_buraco.jpgHorácio Novais, Buraco de projéctil de artilharia, Revolta de 26 Agosto de 1931, Lisboa Colecções da Fundação Calouste Gulbenkian

Horácio_Novais_Bravata_Revolta_26_Agosto_1931_transporte_prisioneiros.jpgHorácio Novais, Transporte de prisioneiros, Revolta de 26 Agosto de 1931, Lisboa Colecções da Fundação Calouste Gulbenkian

Horácio_Novais_Bravata_Revolta_26_Agosto_1931_barricada.jpgHorácio Novais, Barricada das forças governamentais, Revolta de 26 Agosto de 1931, Lisboa Colecções da Fundação Calouste Gulbenkian

Nestas últimas, perpassa por vezes a sensação de encenação, de pose para a câmara. Mas na imagem abaixo esta postura atinge uma dimensão particularmente divertida.

Horácio_Novais_Bravata_Revolta_26_Agosto_1931_blog.jpgHorácio Novais, Barricada das forças governamentais, Revolta de 26 Agosto de 1931, Lisboa Colecções da Fundação Calouste Gulbenkian

Treze soldados tentam atrapalhada e dessincronizadamente apresentar um momento de valentia e tensão combatente. Um mirone cívil permanece no fundo. O jornal, que terá servido para matar o tempo, foi atirado para o chão junto à barricada. Tudo isto somado ao soldado sentado que aponta a espingarda para a frente, mas que olha (presumivelmente) para Horácio Novais, compõe um ramalhete de cómica inverosimilhança.

Horácio_Novais_Bravata_Revolta_26_Agosto_1931_pormenor.jpgHorácio Novais, Barricada das forças governamentais (pormenor), Revolta de 26 Agosto de 1931, Lisboa Colecções da Fundação Calouste Gulbenkian

Horácio_Novais_Bravata_Revolta_26_Agosto_1931_pormenor_3.jpgHorácio Novais, Barricada das forças governamentais (pormenor), Revolta de 26 Agosto de 1931, Lisboa Colecções da Fundação Calouste Gulbenkian

Horácio_Novais_Bravata_Revolta_26_Agosto_1931_pormenor_2.jpgHorácio Novais, Barricada das forças governamentais (pormenor), Revolta de 26 Agosto de 1931, Lisboa Colecções da Fundação Calouste Gulbenkian

Horácio_Novais_Bravata_Revolta_26_Agosto_1931_pormenor_4.jpgHorácio Novais, Barricada das forças governamentais (pormenor), Revolta de 26 Agosto de 1931, Lisboa Colecções da Fundação Calouste Gulbenkian


Júlio Assis Ribeiro

Fulano desfocado, despachado e de difuso sentido de humor. Adora falar de si na terceira pessoa e discorre sobre toda uma variedade de assuntos, como se percebesse de algum. Gosta de imagens, de histórias e de parêntesis, e deu-lhe agora para isto....
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