a lente lenta

Acerca de Fotografia e de fotografias (ou seja, acerca de qualquer coisa..)

Júlio Assis Ribeiro

Fulano desfocado, despachado e de difuso sentido de humor. Adora falar de si na terceira pessoa e discorre sobre toda uma variedade de assuntos, como se percebesse de algum. Gosta de imagens, de histórias e de parêntesis, e deu-lhe agora para isto...

Encolhidos

Em 1968, um jovem estudante americano ganhou uma bolsa de estudo para trabalhar nas ruínas romanas de Conímbriga, Portugal. Mas acabaria por ficar mais fascinado pelo país e pelas suas gentes do que pelos vestígios arqueológicos. Três anos mais tarde, dessa atracção, e das fotografias que fez, nasceria um livro que ostentava na capa uma estranha e enigmática imagem.


Neal_Slavin_Portugal_livro.jpgNeal Slavin, livro "Portugal", edição Lustrum Press, 1971

É belissima a imagem que Neal Slavin usou na capa de “Portugal”, o livro que publicou em 1971, em edição da Lustrum Press. É belíssima, estranha e misteriosa. Uma menina de gorro sorri-nos ligeira e serenamente, quase como Gioconda, a partir de um interior. Um acaso da moda de então faz com que a configuração do gorro acentue o caracter orientalizante da janela de cantaria, através da qual ela nos sorri. A capa de um livro chamado Portugal, geograficamente o mais ocidental país europeu, apresenta-nos assim uma fotografia que remete para um Levante indefinido.

Depois, a imagem atinge-nos por uma óbvia incongruência de escala, a criança e a arquitectura contradizem-se. Num primeiro momento, parece-nos uma menina que olha através de uma janela pequena, mas observando-se com atenção a altura da criança desdiz essa impressão. Os edifícios são feitos para gente grande e a altura do parapeito das janelas, mesmo das janelas pequenas, é pensada para o seu uso. Debatemo-nos então entre a possibilidade de uma criança que subitamente foi ampliada, qual Alice no País das Maravilhas, e a de uma criança normal retida num edifício de pedra e cal em terra de gente liliputiana.

Neal_Slavin_Portugal.jpg© Neal Slavin, Portugal dos Pequenitos, Coimbra, 1968

Neal_Slavin_Portugal_pormenor.jpg© Neal Slavin, Portugal dos Pequenitos (pormenor), Coimbra, 1968

Para um português atento e perspicaz, a estranheza da imagem é varrida por uma explicação bem prosaica. A menina de estatura corrente encontra-se dentro dum edifício real de escala diminuta, em Coimbra. A imagem foi captada no estranho parque temático do “Portugal dos Pequenitos”.

Inaugurado em 1940, no mesmo ano em que o regime salazarista, apesar da Europa mergulhada na guerra, se apresenta na sua grande “Exposição do Mundo Português” em dupla comemoração dos centenários da independência e da restauração da independência, este parque faz com o grande evento um estranho contraponto. Não em termos ideológicos (Bissaya Barreto, o encomendador do parque era uma figura com responsabilidades oficiais) ou filosóficos ( ambos ilustram o isolamento voluntário que o Estado Novo toma como estratégia, um auto-centramento nas “virtudes” nacionais), mas ao nível da durabilidade, da função e da dimensão.

O Portugal dos pequenitos propunha-se educar pela brincadeira (propósito alienígena no contexto da doutrina educativa salazarista) introduzindo as crianças nas arquitecturas tradicionais e populares (ou pelo menos naquilo que algumas elites consideravam como tal), nos grandes valores monumentais nacionais e na representação dos feitos do Império. Tudo isto era feito através da replicação de modelos arquitectónicos em edifícios de escala reduzida aproximadamente a metade, que forneciam uma experiência lúdica e pedagógica. Os projectos ficaram estranhamente a cargo de Cassiano Branco, arquitecto maior do primeiro modernismo português, mas figura politicamente incómoda para o regime, que o afastara totalmente da “Exposição do Mundo Português”, onde outros nomes fariam um ilusório universo monumental, propagandístico e provisório, com muito, muito gesso, numa estética de afinidades totalitárias. E Cassiano Branco desenha com enorme seriedade uma paródia perene ( involuntária?) à corrente da chamada “casa portuguesa” e aos marcos do Império Português para um parque que tinha por objectivo ensinar aos pequenos portugueses como era Portugal.

Mario_Novais_Exposicao_do_Mundo_Português_1940.jpgMário Novais, Exposição do Mundo Português - Pavilhão da Honra e de Lisboa, Lisboa, 1940 Colecções da Fundação Calouste Gulbenkian

Mario_Novais_Portugal_dos_Pequenitos.jpgMário Novais, Portugal dos pequenitos, Coimbra, s/data Colecções da Fundação Calouste Gulbenkian

A fotografia de Neal Slavin, fosse ela uma imagem guardada num álbum fotográfico familiar, seria uma dessas obras-primas acidentais (dir-se-ia estatísticas) que são encontradas em feiras de velharias, que retratam com enorme felicidade estética momentos vulgares e insignificantes. Mas não o é. Trata-se duma fotografia tirada por um jovem americano a braços com trabalho de campo em Conímbriga, afrontado com a estranheza duma terra que lhe era alheia e que, na cidade universitária mais próxima, encontra um local que nuns poucos metros quadrados se propunha explicar tudo - com um país e um império encolhidos como se tivessem ido à máquina de lavar no programa errado. Tal como acontece aos nacionais, as casas de alvenaria daquele Portugal explicado aos pequeninos, por si só, decerto não terão esclarecido em nada Neal Slavin acerca da real natureza do país. Mas proporcionaram-lhe uma oportunidade fabulosa de apresentar o mistério de um país obcecado com as suas representações.


Júlio Assis Ribeiro

Fulano desfocado, despachado e de difuso sentido de humor. Adora falar de si na terceira pessoa e discorre sobre toda uma variedade de assuntos, como se percebesse de algum. Gosta de imagens, de histórias e de parêntesis, e deu-lhe agora para isto....
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