a lente lenta

Acerca de Fotografia e de fotografias (ou seja, acerca de qualquer coisa..)

Júlio Assis Ribeiro

Fulano desfocado, despachado e de difuso sentido de humor. Adora falar de si na terceira pessoa e discorre sobre toda uma variedade de assuntos, como se percebesse de algum. Gosta de imagens, de histórias e de parêntesis, e deu-lhe agora para isto...

O sobrevivente e o demónio

O fotógrafo norte-americano Arnold Newman teve na sua carreira, afastados por poucos anos, dois momentos marcantes em que lidou com experiências diametralmente opostas.
Num, acompanhou um sobrevivente do Holocausto nazi. Noutro, registou um homem que lucrara com a perseguição judaica e que escapara sem castigo.


Arnold_Newman_auto_retrato_Baltimore_EUA_1939.jpgArnold Newman, Auto-retrato, Baltimore, E.U.A., 1939 Colecções do The Arnold Newman Archive

Dizem-nos os manuais feitos para instruir os novatos na técnica fotográfica que, num retrato, se deve evitar quaisquer elementos que distraiam a atenção do observador. Que o foco tem de estar no rosto. Que o fundo deve ser neutro ou desfocado. Dizem-nos, de certa forma, que a face é uma porta para alma e que tudo o mais nos afasta do verdadeiro ser do retratado.

O fotógrafo norte-americano Arnold Newman (1918–2006) construiu porém a sua longa carreira, assente sobretudo em fabulosos retratos, desdizendo estas regras de bom senso técnico. Fotografava os seus modelos muitas vezes de corpo inteiro, em cenários familiares, rodeados das ferramentas do seu ofício, nem sempre em pose frontal. Fazia-o com uma câmara de grande formato e tripé, registando com grande detalhe os elementos da cena. E apesar de aparentemente contornar todos os princípios da boa prática do retrato, as suas imagens parecem-nos transmitir de forma particularmente viva a essência da vida e da obra das personalidades com que se cruzou. É creditado, por isso, como sendo o fundador daquilo que os anglo-saxónicos chamam de "environmental portraiture", traduzível por algo como "retrato de ambiência".

Com a modéstia dos talentosos, atribuía o sucesso das suas imagens ao trabalho prévio. Criara um método, dizia, e aplicava-o. Estudava as personalidades que iria retratar, lia ou ouvia as suas obras, analisava os seus feitos. Depois procurava um ambiente que pudesse, da forma mais eficiente, transmitir as qualidades do retratado. Preparava a iluminação e estudava o posicionamento. Por vezes, mandava construir estruturas que facultassem a perspectiva certa à sua lente. Por fim, afirmava, bastava colocar o alvo das suas imagens no local, conversar um pouco e esperar que as coisas acontecessem.

Arnold_Newman_Max_Ernest_Nova_Iorque_1943.jpgArnold Newman, Max Ernest, Nova Iorque, 1943 Colecções do The Arnold Newman Archive

Mas, como se sabe, as grandes teorias não explicam tudo. Nalgumas entrevistas que deu, Newman confessou que nem sempre conseguira previamente ter uma ideia clara acerca da forma como abordar os seus modelos. E que nem todos os seus trabalhos foram planeados com antecedência. Por vezes, era evidente que o acaso e a intuição tinham um papel bem mais decisivo que o método.

Uma das mais tocantes fotografias de Arnold Newman, o retrato de Otto Frank, é um desses casos. Não foi propositada a coincidência de Newman se encontrar em Amesterdão, acompanhado da esposa, no dia em que a casa-refúgio de Anne Frank era inaugurada enquanto museu, a 3 de Maio de 1960. Não foi igualmente preparado o facto de estar instalado no mesmo hotel em que o pai de Anne Frank se encontrava. Foi acidental o encontro do casal Newman com Otto Frank no átrio do hotel, na tarde da véspera do evento, quando este descansava de um longa sessão de discursos do presidente da câmara e de outros dignitários. Foi num impulso que Newman se apresentou e iniciou uma conversa. Descobriram ter amigos comuns e, quebrado o gelo, o fotógrafo perguntou a Otto Frank se poderia fotografá-lo. Este aquiesceu e combinaram então que, no dia seguinte, duas horas antes da inauguração, fariam a sessão fotográfica.

Otto Frank, fora o único sobrevivente de uma família judia alemã que se refugiara na Holanda em 1933, fugindo da ameaça nazi que crescia de tom no país natal. Otto era casado com Edith Frank-Holländer, e tivera, ainda nascidas na Alemanha, duas filhas - Margot, a mais velha e serena, e Annelies (Anne), a mais nova e de temperamento mais vivo. Em Maio de 1940, a Alemanha nazi invadiu a Holanda e a situação dos Frank, até então relativamente confortável e próspera, começou a estar em risco. Em 1941, para evitar a confiscação das suas empresas comerciais, Otto transferiu as suas acções para funcionários de confiança, holandeses não judeus, e conseguiu por algum tempo garantir a sobrevivência económica da família. Porém, em Julho de 1942, um mal que se temia precipitou-se e atingiu os Frank. Foi recebida uma ordem de deportação para um campo de trabalho. Não sendo ingénuo, Otto encontrava-se a preparar na sede de uma das suas empresas, a Opekta, um esconderijo para a sua família e para amigos judeus mais chegados, e a entrada na clandestinidade foi antecipada. Na manhã de 6 de julho, uma segunda-feira, os Frank abandonaram a sua casa, deixada desarrumada para simular uma partida precipitada, e dirigiram-se para o anexo secreto, um apartamento recuado de três divisões e um sotão, acedido por uma porta dissimulada por uma estante, nos escritórios da companhia. Será aí que, ajudados por amigos, os Frank viverão (acompanhados da família Van Pels e por Fritz Pfeffer, que a eles se juntaram mais tarde) até 4 de Agosto de 1944 quando, alertada por informador até hoje não identificado, a polícia militar alemã irrompeu pelo esconderijo e deteve os residentes. Um mês depois, a família foi deportada para Auschwitz, um complexo de campos de trabalho e extermínio situado na actual Polónia, transportados no último comboio que partiu da Holanda para esse destino.

Como disse, apenas Otto frank sobreviveu. As mulheres foram separadas e as irmãs, Margot e Anne,mais tarde seriam transferidas para outro campo de morte, Bergen-Belsen, na Alemanha. A mãe morreu em Auschwitz, e as filhas pereceram no campo alemão. Primeiro, a primogénita, em Março de 1945, e pouco tempo depois, Anne Frank, a escassos dias da libertação do campo por tropas britânicas, em 15 de Abril de 1945.

George_Rodger_prisioneiras_apos_a_libertação_do_campo_Bergen_Belsen_Maio_1945.jpgGeorge Rodger, Prisioneiras após a libertação do campo, Bergen Belsen, Alemanha,1945 Arquivo da revista Life

Após o fim da guerra, Otto Frank retornou à Holanda e foi acolhido por Jan e Miep Gies, um casal que o auxiliara durante a clandestinidade. Estes entregaram-lhe o que haviam conseguido resgatar do refúgio após a operação policial alemã. Fotografias, documentos diverso e um pequeno caderno- um livro de autógrafos que fora oferecido a Anne pouco antes da ida para o anexo, e que esta usava como diário. A adolescente, inconformada e com aspirações jornalísticas, escrevera aí o registo dos dias de clausura no edifício da Opekta, e registara aí igualmente a sua vida interior, os seus desejos, frustrações, medos e desconfortos. Quando o caderno acabara, Anne continuou o registo noutros blocos de notas, e em folhas avulsas, que os Gies haviam também conseguido recolher. Otto agarrou-se a estes fragmentos soltos, que eram o que lhe restava da família perdida, e deu-lhes ordem. Depois de os organizar, encaminhou-os para uma historiadora, Annie Romein-Verschoor, que com o apoio de marido, o jornalísta Jan Romein, conseguiria a sua primeira publicação, em 1947. A história do diário de Anne Frank tornou-se depois sobejamente conhecida, com inúmeras traduções e uma versão cinematográfica logo em 1959. A par das obras notáveis de Primo Levi e de Imre Kertész, é um dos mais importantes registos da tragédia do Holocausto, demonstrando, de uma forma particularmente pessoal, a brutalidade e o arbritário irracional que irromperam pela normalidade humana, no mundo das décadas de vinte, trinta e quarenta de novecentos.

Autor_não_identificado_Anne_Frank_Amesterdao_Maio_1942.jpgAutor não identificado,Anne Frank, Amesterdão, Maio de 1942 colecções da Anne Frank House, Amesterdão, Holanda

Quando na manhã de 3 de Maio de 1960, Arnold Newman se encontrou com Otto Frank no antigo refúgio de Amesterdão, não fazia a mínima ideia como o iria fotografar. Numa entrevista posterior, à Apogee Photo Magazine, disse que a questão de pedir a Otto que tivesse uma determinada pose simplesmente não se punha. Não o podia fazer, pôde observar como o deambular pelas divisões do anexo era uma experiência esmagadora e pesarosa. E pôde ver como Otto Frank ia progressivamente ficando pensativo, fechado, com o semblante carregado. Ao chegarem ao sótão, fragilizado, Otto apoiou-se num pilar com o ombro, e aí o fotografo teve o seu momento decisivo, obteve a sua imagem. Acto contínuo, começaram a tocar os sinos de uma igreja próxima, e este virou-se para Newman e disse: "São estes os sinos sobre os quais Anne escreveu". Após esta frase, perdeu o controle emocional e abraçou o fotografo. Choraram ambos. A segunda esposa de Otto Frank interveio nesse momento e terminou a sessão fotográfica, pondo igualmente termo a um dos instantes emocionalmente mais fortes da vida de Arnold Newman. Confrontara-se de forma muito próxima, e única, com o lastro que carregavam os sobreviventes do Holocausto.

Arnold_Newman_Otto_Frank_Amesterdão_Holanda_1960.jpgArnold Newman, Otto Frank, Amesterdão, Holanda, 3 de Maio de 1960 Colecções do The Arnold Newman Archive

Uma experiência diametralmente oposta (mas, apesar de tudo, relacionada) seria vivida por Newman, poucos anos depois, em 1963. Raras vezes o fotógrafo retratou gente que desgostava. Mas nesse ano, a revista Newsweek solicitou-lhe que fotografasse o industrial alemão Alfred Krupp. A sua primeira reacção foi recusar. Os sentimentos que nutria pela figura em causa ultrapassavam a indiferença ou a antipatia. Situavam-se numa escala de puro desprezo. Como ser humano dotado de valores, e como judeu, não o podia suportar.

Alfred Krupp havia feito parte da elite económica alemã que prosperara com os nazis durante a segunda guerra mundial. Mais do que meramente colaborar no esforço de guerra, os negócios de Krupp haviam tido uma ligação umbilical com os aspectos mais negros do devaneio nazi. Explorara mão-de-obra escrava, desde prisioneiros de guerra e trabalhadores recrutados à força (nos países ocupados) até às vítimas dos campos de morte- judeus, ciganos, homossexuais, resistentes políticos. E com isso lucrara grandemente. Derrotada a Alemanha, estivera preso durante um curto período, como criminoso de guerra. Mas a política de normalização dos aliados ocidentais, alarmada com a possibilidade de alastramento dos soviéticos, acabaria por fazer sobrepor os objectivos de recuperação económica a “pruridos” éticos e morais. Apesar da condenação dos membros mais graduados do regime nazi, nos chamados julgamentos de Nuremberga, muitos dos colaboradores próximos acabariam por escapar incólumes. Como outros homens de negócios alemães, Krupp foi solto, recuperou a fortuna e as indústrias, e viu ser passado um pano sobre o seu muito sujo passado. E tornou a prosperar, desta feita na democrática República Federal da Alemanha.

Perante a recusa declarada por Arnold Newton, os editores da Newsweek insistiram. Não havia qualquer problema em que considerasse o alemão como uma figura diabólica, como alguém que planava acima da moralidade e da consciência. Eles próprios partilhavam desse sentimento e não lhe solicitavam um retrato que favorecesse o magnata. Antes pelo contrário.

Newton acabou por aceitar o serviço.

Alfred Krupp gostava do trabalho de Arnold Newton. Gostaria de ficar para eternidade registado numa dessas belas imagens que o americano conseguia compor. Ao contactá-lo pessoalmente, Arnold pôde confirmar um axioma comum, o que nos diz que os grandes vilões não são imediatamente detectáveis a olho nu, passam indistintos em sociedade. Krupp apresentava-se como um cavalheiro distinto, de trato simpático e conversa elevada. Nada nele denunciava o empresário que descartava, anos antes e em cadência regular, os operários escravos que se iam tornando menos produtivos ( vítimas da subnutrição e da sobrecarga de trabalho) traçando a sua sorte na máquina de morte nazi.

Para a sessão fotográfica mandou construir uma plataforma com dois metros de altura numa fábrica que produzia carruagens ferroviárias e eléctricos*. Sobre ela colocou uma secretária e uma cadeira, bem como a iluminação. Sobre a luz, evitou o óbvio : não colocou um foco luminoso único, abaixo do rosto. Optou por colocou dois focos laterais, mais expressionistas que a típica iluminação frontal difusa. As primeiras fotografias e poses, não sendo fracas, não o satisfizeram. Após várias experiências , lembrou-se de pedir ao industrial que se debruçasse um pouco sobre a secretária. Alfred Krupp pousou os cotovelos no tampo do móvel e, entrelaçando os dedos, pousou o queixou sobre as mãos. Fez-se magia! O polido empresário adquirira, de súbito, um ar maquiavélico que era potenciado pelo fundo industrial. As soldagens que ocorriam nos planos traseiros, e mais rebaixados, evocavam ressonâncias infernais. Newman percebeu imediatamente o que tinha perante si. Fotografou como um louco, com tudo o que estava à mão: filme a cores, película preto e branco e polaroid. Não se podia dar ao luxo de perder o momento.

Arnold_Newman_Alfred_Krupp_Essen_Alemanha_1963.jpgArnold Newman, Alfred Krupp, Essen, Alemanha, 1963 Colecções do The Arnold Newman Archive

Quando imagem escolhida foi publicada, Krupp ficou furioso, ao que se diz. Não conseguira o retrato simpático para a posteridade que antecipara. O que a Newsweek transmitiu para o mundo era antes a sua incarnação como um demónio. Com grande satisfação pessoal, Alfred Newman dizia que, com essa fotografia, se tornara durante anos persona non grata na República Federal da Alemanha.

*bondes, no português do Brasil.


Júlio Assis Ribeiro

Fulano desfocado, despachado e de difuso sentido de humor. Adora falar de si na terceira pessoa e discorre sobre toda uma variedade de assuntos, como se percebesse de algum. Gosta de imagens, de histórias e de parêntesis, e deu-lhe agora para isto....
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