a lente lenta

Acerca de Fotografia e de fotografias (ou seja, acerca de qualquer coisa..)

Júlio Assis Ribeiro

Fulano desfocado, despachado e de difuso sentido de humor. Adora falar de si na terceira pessoa e discorre sobre toda uma variedade de assuntos, como se percebesse de algum. Gosta de imagens, de histórias e de parêntesis, e deu-lhe agora para isto...

Os desenhos de William Fox Talbot

Poderá uma das mais importantes invenções do século dezanove dever-se à inépcia artística de um dos seus autores?
O inglês William Henry Fox Talbot afirmava-o e os seus desenhos dão-lhe credibilidade.


Antoine_Claudet_retrato_Henry_Fox_Talbot_daguerreotipo_inicio_1840s_coleccoes_British_library.jpgAntoine Claudet, Retrato de William Henry Fox Talbot, Daguerreótipo, 1840-45 Colecções da British Library

A fazer fé nas palavras do próprio, podemos situar de forma muito precisa o momento em que se imaginou a Fotografia e uma forma de a concretizar.

Estar-se-ia nos primeiros dias do mês de Outubro de 1833. Num comportamento próprio da classe abastada e culta da época, William Henry Fox Talbot abandonara a ilha natal e fazia o circuito do Grand Tour, em busca de beleza, cultura e arte.

Encontrava-se nas margens do lago Como, em Itália, mais concretamente, junto da balaustrada da Villa Melzi. Debatendo-se com a sua manifesta falta de talento, tentava desenhar a paisagem.

Mas nem com a ajuda de um ligeiro engenho óptico, patenteado por Wollaston, a Camera Lucida, conseguia transpor a riqueza visual e tridimensional que o envolvia para a folha de papel. Esta apenas funcionava como prova de uma inépcia que o desapontava.

Henry_Fox_Talbot_Villa_Melzi_Lago_Como_Italia_Outubro_1833_b.jpgWilliam Henry Fox Talbot, Villa Melzi, Lago Como, Itália, 5 de Outubro de 1833 Colecções do National Museum of Photography, Film and Television, Inglaterra

Henry_Fox_Talbot_Villa_Melzi_Lago_Como_Italia_Outubro_1833.jpgWilliam Henry Fox Talbot, Villa Melzi, Lago Como, Itália, 5 de Outubro de 1833 Colecções do National Museum of Photography, Film and Television, Inglaterra

Henry_Fox_Talbot_Villa_Melzi_Lago_Como_Italia_Outubro_1833_pormenor.jpgWilliam Henry Fox Talbot, Villa Melzi (pormenor), Lago Como, Itália, 5 de Outubro de 1833 Colecções do National Museum of Photography, Film and Television, Inglaterra

Contrariamente a Daguerre, outro dos vértices da trindade anglo-francesa a quem é atribuída a paternidade da Fotografia, Talbot era senhor de uma personalidade reservada. Mas essa natureza não significava falta de ambição intelectual. Tirara proveito de uma educação esmerada e evidenciou-se pela sua cultura polifacetada, destacando-se quer como matemático, químico e físico, quer como estudioso de línguas orientais, e em particular da escrita cuneiforme.

Terá sido então que, confrontado com o pouco sucesso pessoal no campo do desenho, nas margens do lago Como, em Outubro de 1833, Henry Fox Talbot terá pensado o quanto encantador seria se as imagens, que via através do prisma da camera lucida, se fixassem de forma duradoura no papel. Porque é que tal não haveria de ser possível?

Não sendo estranho ao mundo da química, e sabendo da degradação dos sais de prata por acção da luz, no espaço de dois anos, após um longo processo de tentativa e erro, desenvolveria um processo de fixação de imagens. Reservaria para si os seus primeiros sucessos ( e muitos falhanços), desejando divulgá-los apenas quando conseguisse plenamente captar a natureza nas suas folhas de papel sensibilizado.

Em 1839, sabendo da exposição pública do trabalho de Daguerre, que em França conseguira fixar imagens em chapas metálicas, exporia prontamente as suas imagens na Royal Institution of Great Britain, a 25 de Janeiro, então apenas Fotogramas- impressões directas de objectos no papel ( as imagens que vinha fazendo com câmaras, desde 1835, não tinham ainda atingido um sucesso sistemático que lhe permitisse uma divulgação alargada). Poucos dias depois, num ensaio apresentado perante a Royal Society, divulgaria os detalhes técnicos daquilo a que chamou, não estranhamente, "Photogenic drawing" (Desenho fotogénico).

Henry_Fox_Talbot_Folha_de_planta_desenho_fotogenico_imagem_do_livro_the_pencil_of_nature_1844.jpg William Henry Fox Talbot, Folha de planta, Desenho fotogénico imagem do livro "The pencil of Nature" de 1844

Em 1844, com o seu processo de captura de imagens com câmara plenamente desenvolvido, num sistema negativo/positivo, publicaria o primeiro livro fotográfico de tiragem significativa*. Fazendo justiça à origem das suas preocupações com a imagem fotográfica, Talbot chamou à obra “ The pencil of Nature”, ou seja, o lápis da Natureza.

Henry_Fox_Talbot_capa_do_livro_the_pencil_of_nature_1844.jpg William Henry Fox Talbot, Capa do livro "The pencil of Nature" de 1844

Henry_Fox_Talbot_Um_carvlho_no_inverno_1842_43_coleccoes_British_library.jpgWilliam Henry Fox Talbot, Um carvalho no inverno, 1842-43, Colecções da British Library

Pode-se olhar para esta história de um ângulo moral, como se fosse uma fábula (embora não intervenham bichos falantes). Talbot quando confrontado com uma limitação, transformou a adversidade, através do seu trabalho e intelecto, num feito de incontestável valor.

Prefiro vê-la porém de uma forma ligeiramente diferente. Perante alguma glorificação actual da Ignorância, na era do “reality show”, considero fantástico verificar como um homem, obviamente brilhante nos campos das letras e das ciências, valorizava de forma tão acentuada as artes, ao ponto de considerar um tremendo fracasso pessoal não estar aí ao mesmo nível com que manobrava números, químicos e escritos antigos. Um fracasso que tinha de ser compensado com um grande triunfo .

Poucas outras vezes, ou nenhuma, o mundo deveu tanto a uns desenhos tão fracos.

* Fox Talbot não publicou o primeiro livro fotográfico em absoluto porque uma botânica inglesa amadora, do seu círculo de conhecidos, se lhe adiantou uns meses. Em Outubro de 1843, Anna Atkins lançou uma edição pessoal, artesanal e de pequena tiragem, de um livro intitulado "Photographs of British Algae: Cyanotype Impressions".


Júlio Assis Ribeiro

Fulano desfocado, despachado e de difuso sentido de humor. Adora falar de si na terceira pessoa e discorre sobre toda uma variedade de assuntos, como se percebesse de algum. Gosta de imagens, de histórias e de parêntesis, e deu-lhe agora para isto....
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