a lente lenta

Acerca de Fotografia e de fotografias (ou seja, acerca de qualquer coisa..)

Júlio Assis Ribeiro

Fulano desfocado, despachado e de difuso sentido de humor. Adora falar de si na terceira pessoa e discorre sobre toda uma variedade de assuntos, como se percebesse de algum. Gosta de imagens, de histórias e de parêntesis, e deu-lhe agora para isto...

O carrapato


Julio_Assis_Ribeiro_SP_V_CRRPT_01_2006.jpgJúlio Assis Ribeiro, SP_V_CRRPT_01, 2006

Existe uma espécie de lei natural que impele os miúdos pequenos a evitar qualquer troço de calçada ou de piso alcatroado, optando por terreiros enlameados e matagais.

É assim hoje, com os meus rebentos. Era assim nos anos setenta, quando eu era um rebento. E só não era assim no tempo dos Neanderthais porque estes ainda não se dedicavam à grande e nobre arte portuguesa de fazer estrada.

Existe igualmente uma lei universal, e perene, que leva os pais a importunarem os petizes por comportamentos tão pouco lógicos e asseados. Comportamentos que, a seu tempo, estes aprendem a negar ter tido (os famosos “ Na lama? Eu?… Eu não andei na lama!” ou “ Não tive culpa, empurraram-me!”). Mas o dom de ocultar factos leva tempo a apurar, e nem todos chegamos à mestria. Os adultos apanhavam-nos pelos indícios - a lama salpicada nas costas, as palhas agarradas à roupa, a areia transportada dentro dos sapatos. Quando era miúdo, um dos sinais mais bufos das minhas escapadas por atalhos cheios de ervas era o Carrapato. Espécie de coroa minúscula de espinhos, existe aos milhares em Portugal, e agarra-se à roupa como uma carraça (daí lhe vem o nome). Para meu infortúnio, funcionava melhor, muito melhor, com os tecidos sintéticos baratos que abundavam na época em que o país se entretinha, e exaltava, com palavras fabulosas como reaccionário, neocolonialismo, proletariado e imperialismo, nas reviravoltas da revolução. Por mais que os retirasse das meias, das calças e das camisolas, havia sempre alguns que escapavam.

Assim, já sabia quem era culpado quando, ao chegar a casa, a minha mãe me recebia com um sonoro “ Mas por onde é que tu andaste?...”.

Era o carrapato.


Júlio Assis Ribeiro

Fulano desfocado, despachado e de difuso sentido de humor. Adora falar de si na terceira pessoa e discorre sobre toda uma variedade de assuntos, como se percebesse de algum. Gosta de imagens, de histórias e de parêntesis, e deu-lhe agora para isto....
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