a lente lenta

Acerca de Fotografia e de fotografias (ou seja, acerca de qualquer coisa..)

Júlio Assis Ribeiro

Fulano desfocado, despachado e de difuso sentido de humor. Adora falar de si na terceira pessoa e discorre sobre toda uma variedade de assuntos, como se percebesse de algum. Gosta de imagens, de histórias e de parêntesis, e deu-lhe agora para isto...

A Representação Certa

Existe uma estranha relação entre a caricatura e capacidade de obter bons retratos fotográficos - imagens reveladoras da personalidade dos seus sujeitos. Para prová-lo apenas há que olhar para a obra de alguns pioneiros da Fotografia.


Nadar_auto_retrato_1856_58.jpgNadar, Auto-retrato, 1856-58 Colecções do Musée d'Orsay

A historiografia da fotografia, em particular a de matriz francesa, tende a atribuir a invenção do retrato fotográfico moderno a Nadar e a Carjat, sobretudo ao primeiro.

Etienne Carjat_autoretrato_ 1870_1880.jpgEtienne Carjat, auto-retrato, 1870-80 Colecções da National Gallery of Canada

Atribui-se-lhes a inovação de uma representação centrada no sujeito, na exposição do seu pathos, e o desligamento relativamente a convenções mais arcaicas, oriundas da pintura romântica e anterior, em que o gesto, o cenário e o adereço pesavam por vezes mais que a estrita representação (e a correcta escolha) da expressão do retratado.

Felix Nadar_Charles Baudelaire_1862.jpgFelix Nadar, Charles Baudelaire, 1862

Etienne Carjat_Charles Baudelaire_1863.jpgÉtienne Carjat, Charles Baudelaire, 1863 Colecções do Metropolitan Museum of Art

Curiosamente, esta demanda do essencial, e fuga ao acessório, advém precisamente de dois homens que se notabilizaram como caricaturistas. Quer Carjat ,quer Nadar, são senhores de uma assinalável obra gráfica, que aparentemente se situa nos antípodas dos seus retratos fotográficos. Na caricatura prevalecem o exagero e a desproporção, que parecem faltar no relativo minimalismo da sua faceta fotográfica, tecnicamente simples, sem devaneios de foco (como amiúde se verifica, por exemplo, em Julia Margaret Cameron), sem abusos de tom e contraste, com poses descontraídas e fundos simples e neutros. Mas há na caricatura uma capacidade de capturar o esgar, a expressão exacta, e de os trabalhar para neles melhor se reconhecer o sujeito alvo, e este é um talento que é fundamental para um retratista. Descontando-se o oceano de diferenças técnicas e estilísticas que separa as caricaturas e as fotografias de Carjat e Nadar, une-as esta propensão para capturar a representação certa.

Félix Nadar_Charles Baudelaire_ s_data.jpgFélix Nadar, caricatura de Charles Baudelaire, sem data Étienne Carjat_ Gaetano Braga _compositor e violoncelista italiano_sem data.jpgÉtienne Carjat, caricatura de Gaetano Braga (compositor e violoncelista italiano), sem data

Já do grande rival de Nadar e de Carjat, o bem sucedido André Disdéri, não se lhe conhece muita obra além da fotográfica. Este, com um enorme talento comercial, soube perceber o que os seus clientes, nem sempre muito elucidados, esperavam de um retrato. Com isso (conjuntamente com a utilização do formato carte de visite que popularizou, e que permitia grandes séries a baixo custo), terá empurrado muitos dos fotógrafos contemporâneos para fora da actividade. Esta pulsão mercantilista, fez Disdéri perceber que, mais do que uma representação serena e “verdadeira” de si próprios, os europeus de oitocentos pretendiam maioritariamente obter nos seus retratos a imagem do seu estatuto, real ou almejado, uma configuração segura do que esperavam que os outros vissem neles. Aos fundos neutros preferem as balaustradas, os panos, o mobiliário pretensioso e as colunas falsas que Disdéri usa para povoar o estúdio e os seus retratos. À naturalidade preferem o gesto encenado. Preferem as convenções seguras, e uma validação que entendem ser trazida pelas referências clássicas.

Os retratos de Disdéri dizem-nos muito mais da época, do ar do tempo, do que dos retratados. As suas fotografias, muitas vezes, fazem-nos lembrar o quadro de Goya “ Carlos V e a sua família”, em que o espanhol nos fez chegar a imagem (pouco lisonjeira) de uma família real que parece tão ofuscada e satisfeita com os brilhos e os fulgores dos trajes e do cenário, que não terá percebido o patético com que foi registada.

Ironicamente, Disdéri, que não era um caricaturista, graças às suas opções e à oportunidade, transforma com frequência os seus clientes numa caricatura infeliz de si próprios, e da sua época.

André Disdéri_Comte de Castellane_1857_65.jpgAndré Disdéri, Conde de Castellane, 1857-65 Colecções do musée d'Orsay

Andre Disderi_retrato de M_ Duprez_actor francês_s_data.jpgAndré Disdéri, retrato de M. Duprez (actor francês), sem data Colecções do Victoria & Albert Museum

André Disdéri_retrato de Victor Emmanuel II_1  rei da Itália unificada_sem data.jpgAndré Disdéri, retrato de Victor Emmanuel II (1º rei da Itália unificada),sem data Colecções do National Media Museum


Júlio Assis Ribeiro

Fulano desfocado, despachado e de difuso sentido de humor. Adora falar de si na terceira pessoa e discorre sobre toda uma variedade de assuntos, como se percebesse de algum. Gosta de imagens, de histórias e de parêntesis, e deu-lhe agora para isto....
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/fotografia// @destaque, @obvious //Júlio Assis Ribeiro