a lente lenta

Acerca de Fotografia e de fotografias (ou seja, acerca de qualquer coisa..)

Júlio Assis Ribeiro

Fulano desfocado, despachado e de difuso sentido de humor. Adora falar de si na terceira pessoa e discorre sobre toda uma variedade de assuntos, como se percebesse de algum. Gosta de imagens, de histórias e de parêntesis, e deu-lhe agora para isto...

Quinn Jacobson: O Abandono e a Memória

O desaparecimento que lentamente se vai apoderando da fotografia analógica parece deixar em muitos dos seus praticantes uma sensação de orfandade. Mas para o americano Quinn Jacobson, esta realidade acabou por o orientar para uma técnica que parecia abandonada, remetida para uma memória longínqua, e para um olhar renovado sobre o mundo.


Christian baron_Quinn Jacobson_2010.jpg© Christian Baron, Retrato de Quinn Jacobson, 2010

Os momentos de transição são necessariamente momentos que geram consequências e reacções. A passagem do paradigma analógico para o digital na Fotografia, que se consumou definitivamente na primeira década do nosso século, não escapa a este postulado geral.

De entre as consequências e as reacções daí advindas interessa-me aqui apontar duas: a súbita redução do mercado da fotografia assente em sais de prata, e o desaparecimento de marcas e produtos nesse campo, causam um choque significativo em todos aqueles que cresceram a conhecer nomes como Rodinal, Agfa e Minolta; e o renovado e súbito interesse por processos e objectos que pareciam remetidos para a história. Os dois fenómenos são concomitantes e contagiam-se: é sensação de perda que leva à criação do vários projectos que tentam recuperar filmes, equipamentos, químicos entretanto desaparecidos ou em vias de se perder (the impossible Project, Lomography, a inteligente estratégia do fabricante Adox, entre outros); é o desaparecimento de produtos industriais que renova a atenção sobre a era pré-industrial da Fotografia (e eis que voltam o daguerreótipo, o cianótipo, o papel salgado e o colódio húmido, técnicas e artefactos que não dependem de uma indústria).

Ao mesmo tempo que a Fotografia passava por esta mudança de paradigma, do Analógico para o Digital, o norte-americano Quinn jacobson vivia, no início da década passada, uma transição pessoal. Depois de um largo período como fotógrafo dos quadros das forças armadas, de uma licenciatura em Fotografia, Artes Visuais e Comunicação, Quinn tacteava o seu caminho, digerindo influências que incluíam nomes como Diane Arbus e August Sander, e esgravatava o seu próprio passado em busca de um sentido para o seu trabalho. E é então que se dá um instante decisivo, que ele sabe precisar com grande detalhe: ao observar o livro "Looking at Photographs: 100 Pictures from the Collection of The Museum of Modern Art", deparou-se com a reprodução de um ambrótipo anónimo. O ambrótipo é um positivo directo sobre vidro, utilizando a técnica do colódio húmido, em que a face posterior do vidro é recoberta de um material negro, betume normalmente. Pesquisando sobre o procedimento, que caíra em desuso ainda na década de setenta de oitocentos, conheceu o trabalho do Dr. Hugh Welch Diamond, um médico dedicado à psiquiatria que aprendera a fotografar com o criador da técnica do Colódio Húmido, Frederick Scott Archer.

Welch Diamond acreditara, exercitando o espírito positivista típico de finais do século dezanove, que através da fotografia sistemática dos seus pacientes poderia, de alguma forma, catalogar e organizar padrões de doença mental. Falharia rotundamente nesse aspecto. As suas fotografias dizem-nos muito pouco sobre os problemas do cérebro, mas ficar-nos-iam como um espantoso documento do pensamento e sociedade da época. A sua “Mulher com pássaro morto”, de cerca de 1855, forneceria a Quinn Jacobson o mapa que o orientaria na criação dum olhar próprio. Aquela observação tornar-se-ia uma epifânia.

Hugh Welch Diamond, Mulher com pássaro morto, cerca de 1855.jpgHugh Welch Diamond, Mulher com pássaro morto, cerca de 1855 Arquivos do J. Paul Getty Museum, Los Angeles, E.U.A

Com conhecimentos limitados no que dizia respeito a procedimentos fotográficos arcaicos, Quinn Jacobson procurou a ajuda de Mark e France Osterman, um casal que tenta recuperar a arte (quase) perdida do Colódio Húmido, na cidade de Rochester, sede da Kodak e uma espécie de capital da fotografia nos Estados Unidos. Nos workshops organizados por estes, teve acesso às peculiaridades do processo, que implica um período curtíssimo entre a execução dos suportes e o seu processamento (em cerca de vinte, trinta minutos, é feita a aplicação da emulsão, a exposição da chapa e a sua revelação e fixação), às particularidades de uma sensibilidade relativamente baixa e à fabulosa gama tonal que esta técnica permite.

A partir de 2003, Jacobson começou uma série, "Portraits From Madison Avenue", onde diferentes componentes se combinam e nos fornecem uma abordagem muito pessoal da fotografia. Partindo da já referida influência estruturante de Diane Arbus e August Sander (onde a atenção ao conceitos de normalidade e identidade são determinantes), abordou a sua própria experiência pessoal, retornando a um bairro da sua cidade natal, Ogden, no estado americano do Utah. Aí, na década de setenta do século passado, o seu pai possuía alguns apartamentos de rendas baixas, e Jacobson acompanhara-o muitas vezes nas suas cobranças, conhecendo os estranhos e fascinantes inquilinos que os habitavam. Gente que se situava nas franjas da sociedade norte americana, que apresentava problemas físicos, mentais, de integração. Uma legião excluída, abandonada longe da normalidade dos subúrbios. Trinta anos depois, o bairro mantinha a mesma tipologia de ocupantes. Fotografá-los com a técnica do colódio húmido permitiu reconstruir a proximidade com que lidara com os seus antecessores. Com câmaras de grande formato, exposições de vários minutos e a necessidade de ter um estúdio à mão, não havia a possibilidade de obter instantâneos furtados da sua vivência. Fotografá-los desta forma implicava convencê-los a posar, levá-los a colaborar, contornar as suas resistências. Implicava conhecê-los .

quinn_jacobson_Jefferson_Kerby_serie_Portraits_from_Madison_Avenue_2003_2006_blog.jpg© Quinn Jacobson, Jefferson Kerby, série "Portraits from Madison Avenue", 2003-2006

A opção pelo colódio húmido revelava-se não fútil, não caprichosa. Forçou uma metodologia de trabalho, permitiu um tipo específico de resultados. E depois havia, para Quinn, um paralelismo não negligenciável: fotografava os abandonados da sociedade americana com uma técnica, belíssima nos resultados, mas que fora abandonada em prol de outras mais simples e práticas. Mais produtivas.

Com "Portraits From Madison Avenue", Quinn Jacobson estabeleceu um padrão , uma orientação de trabalho. Propôs-se abordar e explorar as suas experiências, e questionar acerca de coisas como Identidade, Diferença, Classe social e Memória. Pretendeu criar trabalhos que evoquem em vez de dizer, que sugiram em vez de explicar. Nalguns trabalhos iniciais sentiu a necessidade intervir mais substancialmente nos retratados. Em várias fotografias de Dusty Nance, um jovem adulto com claras limitações mentais, e que tivera problemas com a justiça, sentiu necessidade de o vestir com a roupa listada dos presidiários de outros tempos. Mas estas intervenções foram pontuais e tenderam a desaparecer. As imagens tornaram-se mais depuradas e auto-esclarecedoras.

quinn_jacobson_Dusty_Nance_serie_Portraits_from_Madison_Avenue_2003_2006_blog.jpg© Quinn Jacobson, Dusty Nance, série "Portraits from Madison Avenue", 2003-2006

quinn_jacobson_Dusty_Nance_2_serie_Portraits_from_Madison_Avenue_2003_2006_blog.jpg© Quinn Jacobson, Dusty Nance, série "Portraits from Madison Avenue", 2003-2006

quinn_jacobson_ex_presidiario_serie_Portraits_from_Madison_Avenue_2003_2006_blog.jpg© Quinn Jacobson, ex-presidiário, série "Portraits from Madison Avenue", 2003-2006

quinn_jacobson_Kayla_uma_testemunha_de_Jeova_serie_Portraits_from_Madison_Avenue_2003_2006.jpg© Quinn Jacobson, Kayla - uma testemunha de Jeová, série "Portraits from Madison Avenue", 2003-2006

quinn_jacobson_Rene_Jimenez_serie_Portraits_from_Madison_Avenue_2003_2006_blog.jpg© Quinn Jacobson,Rene_Jimenez, série "Portraits from Madison Avenue", 2003-2006

A sua série seguinte, "Vergangenheitsbewältigung" ( qualquer coisa como o “esforço para lidar com o passado”), iniciada em 2006, coincide com a sua mudança para a Alemanha, onde reside desde então. Começou por se chamar "Kristallnacht: The Night of Broken Glass" (Kristallnacht: a noite dos vidros partidos), numa alusão aos eventos de 9 e 10 de Novembro de 1938, em que milícias nazis e civis destruíram e incendiaram propriedades de judeus, e assassinaram dezanove membros dessa comunidade- enfim, um prenúncio daquilo que viria a ser o holocausto judaico da segunda guerra mundial. Mas a nova designação descreve melhor o pensamento que subjaz nestes trabalhos que, mais que lidarem com um momento traumático e específico, lidam com o lastro da História. Nesta série, o fotógrafo lida com a sua ascendência judaica (a família de Quinn Jacobson adiantara-se ao nazismo uma geração, tendo emigrado para os Estados Unidos no início do século vinte) e com o facto dessa condição ser determinante na sua relação com seu actual país de residência. Aos retratos, que já existiam em "Portraits From Madison Avenue", passou a acrescentar imagens de paisagens urbanas de particular significado como as ruínas da sinagoga de Mainz. E se na série anterior a figura tutelar que parecia pairar predominantemente sobre as fotografias era Diane Arbus, com sua empatia pelas figuras à margem da normalidade, em "Vergangenheitsbewältigung" , será muito mais Auguste Sander o fantasma que as perpassa. Nestas fotografias, os rostos e os corpo, muito mais que representações de pessoas em particular, são representações de um tipo- o estrangeiro, o homossexual, o alemão, o artista.

quinn_jacobson_Homossexual_serie_Vergangenheitsbewältigung_2006_2010_blog.jpg© Quinn Jacobson, Homossexual,série"Vergangenheitsbewältigung", 2006-2010

quinn_jacobson_Bisneta_de_um_oficial_nazi_Beatrice_serie_Vergangenheitsbewältigung_2006_2010_blog.jpg© Quinn Jacobson, Bisneta de um oficial, série"Vergangenheitsbewältigung", 2006-2010

quinn_jacobson_Imigrante_italiana_Oma_serie_Vergangenheitsbewältigung_2006_2010_blog.jpg© Quinn Jacobson, Imigrante italiana, série"Vergangenheitsbewältigung", 2006-2010

quinn_jacobson_Homem_nordico_Aron_serie_Vergangenheitsbewältigung_2006_2010_blog.jpg© Quinn Jacobson, Homem nórdico, série"Vergangenheitsbewältigung", 2006-2010

Também aqui a técnica usada traz uma dimensão única. A definição de imagem muito particular obtida revela-se muito eficaz no seu propósito de comunicar o peso da História e da Culpa, e o carácter diáfano da Memória. No trabalho de Quinn Jacobson, a utilização de um processo fotográfico abandonado revelou-se uma determinante central na construção de um sentido estético, indo muito além da mera curiosidade, do acto extremo de nostalgia, ou do espírito amador do “do-it-yourself”. A orfandade que alguns sentem pelo lento perecer dos suportes analógicos é ultrapassável, com sucesso, pela visão pessoal e pelo experimentalismo (que estranhamente pode passar hoje pela recuperação de algo remetido para o passado).


Júlio Assis Ribeiro

Fulano desfocado, despachado e de difuso sentido de humor. Adora falar de si na terceira pessoa e discorre sobre toda uma variedade de assuntos, como se percebesse de algum. Gosta de imagens, de histórias e de parêntesis, e deu-lhe agora para isto....
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