a lente lenta

Acerca de Fotografia e de fotografias (ou seja, acerca de qualquer coisa..)

Júlio Assis Ribeiro

Fulano desfocado, despachado e de difuso sentido de humor. Adora falar de si na terceira pessoa e discorre sobre toda uma variedade de assuntos, como se percebesse de algum. Gosta de imagens, de histórias e de parêntesis, e deu-lhe agora para isto...

A Etiópia dos copiadores

As primeiras fotografias da Etiópia, nação africana milenar, foram realizadas por militares britânicos no meio de uma guerra hoje quase esquecida. Essas imagens não estavam porém previstas nos seus deveres oficiais. As suas funções tinham uma natureza bem mais burocrática.


Fotógrafos dos Royal Engineers, Torre de Addigerat, Etiópia, 1868-69_2.jpgFotógrafos dos Royal Engineers, Torre de Addigerat, Etiópia, 1868-69 Arquivos da Northwestern University Library, Evanston, E.U.A.

O aparecimento da Fotografia dá-se num quadro de acelerado e competitivo desenvolvimento tecnológico. Não é estranha a sua quase simultânea descoberta por diversos processos e em locais distintos, nem a sua rápida expansão e o seu constante melhoramento técnico.

O século dezanove é um período de enorme fé na ciência e no poder da máquina, e é aí que a fotografia se insere, entre o poder do aço que se instala, as máquinas que tomam posse da produção, os químicos que constroem um mundo novo, a electricidade que avança para os lares.

O século dezanove é igualmente um século de nacionalismos, de imperialismo, e de ideologias que nascem e tentam afirmar-se. É um período de grandes e muitas guerras, e nestas o progresso técnico é aproveitado. Seja com o recurso ao aço que substitui o bronze nos canhões, seja com a produção de armamento estandarizado que melhora significativamente a logística, seja a introdução do motor a vapor e da couraça nos meios navais. Ensaia-se a matança industrial que caracterizará os conflitos globais do século seguinte.

E também aí a Fotografia não fica à margem. Desde logo, pela tentação de registar os conflitos. Em 1855, passados poucos anos da publicitação do daguerreótipo (a primeira técnica fotográfica, com originais únicos e realizados numa chapa metálica), e andando ainda a técnica longe de tornar a tomada de imagens algo prático, vêem-se os esforços de Fenton, Robertson e Beato na cobertura da distante Guerra da Crimeia, em que uma estranha coligação de britânicos, franceses,italianos e otomanos se opôs ao expansionismo russo, em terras da actual Ucrânia. Na década seguinte, a guerra civil americana foi amplamente registada por fotógrafos como Mathew Brady, Thomas Roche e Alexander Gardner.

James Robertson e Felix Beato, reduto abandonado, sevastopol, Crimeia, 1855.jpgJames Robertson e Felix Beato, reduto abandonado, Sevastopol, Crimeia, 1855

Roger Fenton, Vallley of the shadow of death, Crimeia, 1855.jpgRoger Fenton, Valley of the shadow of death, Crimeia, 1855 Arquivos da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos da América

Alexander Gardner, Franco-atirador confederado morto no sopé de Round Top, Julho de 1863.jpgAlexander Gardner, Franco-atirador confederado morto no sopé de Round Top, E.U.A., Julho de 1863 Arquivos da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos da América

Mas, à parte desta vertente documental, a Fotografia foi rapidamente acolhida também como um instrumento militar. Na Campanha da Abíssinia de 1868/69, um conflito hoje quase esquecido, uma força expedicionária britânica faz-se deslocar pela Etiópia com o primeiro contingente fotográfico militar, constituído inicialmente por sete homens encabeçados pelo Sargento John Harrold, pertencente ao batalhão dos Royal Engineers. Curiosamente, a sua principal função não consistia na recolha de imagens para a guerra de propaganda ou para efeitos de reconhecimento, como seria de esperar em função do que aconteceu em guerras posteriores. O seu propósito central era copiar fotograficamente os mapas, os esboços e as instruções militares que foram sendo elaborados ao longo da expedição, de forma a fazer circular a informação pelos muitos milhares de homens que compunham as forças britânicas. No essencial, os fotógrafos dos Royal Engineers eram fotocopiadores. Para isso se fez transportar equipamento, químicos e papel em grandes quantidades, por um território remoto e pouco conhecido.

Mas, no meio das imensas cópias de documentos informativos, os militares foram procedendo a um dos primeiros registos fotográficos do Corno de África e do terrível desafio logístico que é pôr um exército moderno em movimento. A Grã-Bretanha, respondendo a uma provocação do desajeitado e brutal imperador etíope Tewodros II, arregimentara uma força de 30 000 homens de diferentes proveniências, uma verdadeira demonstração do poder do seu império. Desembarcara esse número de tropas na Eritreia e fizera-as deslocar centenas e centenas de quilómetros pela montanhosa Etiópia, um país que, apesar de milenar, não possuía um mínimo de vias de comunicação. Esse esforço, muito criticado pela desproporção e despesa, acabaria com a derrota do impopular líder etíope, e com o seu suicídio ante a inevitabilidade de ser capturado pelos britânicos.

Recorrendo a uma única câmara Dallmeyer, que havia sido levada com o propósito de realizar alguns retratos, e utilizando a difícil técnica do colódio húmido (em que, entre o fabrico da emulsão, a exposição da fotografia e a sua revelação, não podiam passar mais que vinte, trinta minutos), estes fotógrafos burocratas, extravasaram os limites estritos da sua missão e deixaram-nos algumas dezenas de espantosas imagens de uma Etiópia áspera, árida e exótica. As primeiras.

Fotógrafos dos Royal Engineers, baia de Annesley, Eritreia, 1868-69.jpgFotógrafos dos Royal Engineers, baia de Annesley, Eritreia, 1868-69 Arquivos da Northwestern University Library, Evanston, E.U.A.

Fotógrafos dos Royal Engineers, A escadaria do diabo, Sooroo, Etiópia, 1868-69.jpgFotógrafos dos Royal Engineers, A escadaria do diabo, Sooroo, Etiópia, 1868-69 Arquivos da Northwestern University Library, Evanston, E.U.A.

Fotógrafos dos Royal Engineers, A escadaria do diabo, Sooroo, Etiópia, 1868-69, pormenor.jpgFotógrafos dos Royal Engineers, A escadaria do diabo (pormenor), Sooroo, Etiópia, 1868-69 Arquivos da Northwestern University Library, Evanston, E.U.A.

Fotógrafos dos Royal Engineers, Alagi Amba, Etiópia, 1868-69.jpgFotógrafos dos Royal Engineers, Alagi Amba, Etiópia, 1868-69 Arquivos da Northwestern University Library, Evanston, E.U.A.

Fotógrafos dos Royal Engineers, Escarpa junto ao rio Bashelo, Etiópia, 1868-69.jpgFotógrafos dos Royal Engineers, Escarpa junto ao rio Bashelo, Etiópia, 1868-69 Arquivos da Northwestern University Library, Evanston, E.U.A.

Fotógrafos dos Royal Engineers, fortaleza perto de Adabaga, Etiópia, 1868-69.jpgFotógrafos dos Royal Engineers, fortaleza perto de Adabaga, Etiópia, 1868-69 Arquivos da Northwestern University Library, Evanston, E.U.A.

Fotógrafos dos Royal Engineers, Acampamento em Focada, Etiópia, 1868-69.jpgFotógrafos dos Royal Engineers, Acampamento em Focada, Etiópia, 1868-69 Arquivos da Northwestern University Library, Evanston, E.U.A.

Fotógrafos dos Royal Engineers, regimento indiano, Etiópia, 1868-69_2.jpgFotógrafos dos Royal Engineers, regimento indiano, Etiópia, 1868-69 Arquivos da Northwestern University Library, Evanston, E.U.A.

Fotógrafos dos Royal Engineers, regimento indiano, Etiópia, 1868-69_pormenor.jpgFotógrafos dos Royal Engineers, regimento indiano (pormenor), Etiópia, 1868-69 Arquivos da Northwestern University Library, Evanston, E.U.A.

Fotógrafos dos Royal Engineers, A brigada naval em Goon-Goona, Etiópia, 1868-69, pormenor.jpgFotógrafos dos Royal Engineers, A brigada naval em Goon-Goona, Etiópia, 1868-69 Arquivos da Northwestern University Library, Evanston, E.U.A.

Fotógrafos dos Royal Engineers, Lago Ashangi , Etiópia, 1868-69, pormenor.jpgFotógrafos dos Royal Engineers, Lago Ashangi , Etiópia, 1868-69 Arquivos da Northwestern University Library, Evanston, E.U.A.

Fotógrafos dos Royal Engineers, rio Tacazzee, Etiópia, 1868-69.jpgFotógrafos dos Royal Engineers, rio Tacazzee, Etiópia, 1868-69 Arquivos da Northwestern University Library, Evanston, E.U.A.

Fotógrafos dos Royal Engineers, Rio Tellari, Etiópia, 1868-69.jpgFotógrafos dos Royal Engineers, Rio Tellari, Etiópia, 1868-69 Arquivos da Northwestern University Library, Evanston, E.U.A.

Fotógrafos dos Royal Engineers, Rio Tellari, Etiópia, 1868-69, pormenor a.jpgFotógrafos dos Royal Engineers, Rio Tellari(pormenor), Etiópia, 1868-69 Arquivos da Northwestern University Library, Evanston, E.U.A.

Fotógrafos dos Royal Engineers, Vale de Meshek, Etiópia, 1868-69.jpgFotógrafos dos Royal Engineers, Vale de Meshek, Etiópia, 1868-69 Arquivos da Northwestern University Library, Evanston, E.U.A.

Fotógrafos dos Royal Engineers, A ecasa do rei, Magdala, Etiópia, 1868-69.jpgFotógrafos dos Royal Engineers, A casa do imperador, Magdala, Etiópia, 1868-69 Arquivos da Northwestern University Library, Evanston, E.U.A.

Fotógrafos dos Royal Engineers, Torre de Addigerat, Etiópia, 1868-69.jpgFotógrafos dos Royal Engineers, Torre de Addigerat, Etiópia, 1868-69 Arquivos da Northwestern University Library, Evanston, E.U.A.


Júlio Assis Ribeiro

Fulano desfocado, despachado e de difuso sentido de humor. Adora falar de si na terceira pessoa e discorre sobre toda uma variedade de assuntos, como se percebesse de algum. Gosta de imagens, de histórias e de parêntesis, e deu-lhe agora para isto....
Saiba como escrever na obvious.
version 5/s/fotografia// @obvious, @obvioushp //Júlio Assis Ribeiro
Site Meter