a lente lenta

Acerca de Fotografia e de fotografias (ou seja, acerca de qualquer coisa..)

Júlio Assis Ribeiro

Fulano desfocado, despachado e de difuso sentido de humor. Adora falar de si na terceira pessoa e discorre sobre toda uma variedade de assuntos, como se percebesse de algum. Gosta de imagens, de histórias e de parêntesis, e deu-lhe agora para isto...

O país das sombras de chumbo

O fotógrafo Alexei Titarenko, ao tentar captar o quotidiano duma grande cidade russa na década de noventa de mil e novecentos, deixou-nos não só o registo dum período de desencanto como também um olhar sobre a alma russa, e sobre aquilo que ele considera ser imutável na história do seu país.


Alexey Titarenko, série City of shadows, 1992-1994, f.jpg© Alexey Titarenko, sem título, da série "City of shadows", São Petersgurgo, Rússia, 1992-1994

Alturas há em que, sobre os países, as nuvens parecem carregar chumbo. Nascida da súbita (mas não totalmente inesperada) morte da União Soviética, a Rússia actual titubeava no último decénio de mil e novecentos. O seu líder inicial, Ieltsin, fora em larga medida o coveiro-mor da aventura soviética e partindo de uma aura de coragem acabaria os seus dias de presidente num registo patético, como uma personificação do estereótipo do russo beberrão. Num par de anos, o país decaíra de cabeça dum império que financiava pretendentes a revolucionários e “repúblicas democráticas” a uma nação caótica que depende de ajuda externa durante os invernos. O entusiasmo pelo mercado redundara na apropriação dos negócios mais rentáveis por milionários instantâneos, uma enorme parte do aparelho industrial colapsara, o secessionismo aparecera no Cáucaso, as máfias e o poder confundiam-se. Tentavam-se revoltas e bombardeava-se o parlamento.

Foi uma altura de deriva, de abuso solto, de desesperança. O país imenso e a sua enorme população pareciam mexer-se sobretudo por inércia acumulada e sem destino. A Rússia foi então uma nação movida pelo passado e pelo orgulho ferido. Poder-se-ia ilustrar a década perdida com as fotografias de Jim Nachtwey, da Grozny destruída de 1996, talvez as das crianças de cabelo rapado a brincar nas ruínas.

James Nachtwey, Ruínas do centro de Grozny, Chechénia, 1996.jpg© James Nachtwey, Ruínas do centro de Grozny, Chechénia, 1996

Mas seriam demasiado documentais e precisas, demasiado parciais e específicas. A realidade da Rússia desorientada da era Ieltsin parece-me agarrar-se de forma muito mais forte às imagens das séries City of Shadows e Time standing still de Alexey Titarenko. O fotógrafo russo trabalha nelas a sua cidade, S. Petersburgo, e recorre a exposições longas e enquadramentos que combinam elementos arquitectónicos e pessoas em movimento.

Na década de oitenta, quando a União Soviética se tentava redefenir e regenerar , desenvolvera a série NomenKlatura of Signs, procurando fazer a crítica de uma sociedade repressiva que reduzia os cidadãos a signos, a inscrições. Embora o tom fosse de crítica, e se situasse claramente fora do campo da propaganda oficial soviética, esta primeira série baseada no uso de colagens, duplas exposições e montagens, era no entanto devedora duma tradição fotográfica soviética, de experimentalismo e fusão entre grafismo e fotografia.

Alexey Titarenko, série Nomenklatura of signs, 1986-91.jpg© Alexey Titarenko, sem título, da série "Nomenklatura of signs", São Petersgurgo, Rússia, 1986-1991

Mas a Fotografia de Titarenko parece depois mudar com o país, nos anos noventa. Da câmara escura e dos artifícios das montagens, o seu foco transita para o trabalho com a câmara e as exposições alongam-se. Da denúncia da desumanidade soviética transita para a documentação do negrume da alma russa, mas o seu trilho não é o do fotojornalismo envolvido. Contorna o imediato pela via da metáfora e reside aí a força das suas imagens.

As enevoadas massas humanas que povoam as fotografias de São Petersburgo, resultantes dos tempos de exposição demorados que usou, carregam um discurso sobre o imutável e a desconsideração do indivíduo na história russa, onde a força do Estado acaba sempre por ser o valor basilar. As imagens densas, pouco contrastadas, destas séries remetem-nos para a dureza do ambiente urbano e o peso dos destinos pessoais, ressonâncias do universo do escritor oitocentista Dostoievski. Particularmente poderosas são as imagens feitas na escadaria da estação de metro de São Petersburgo. A multidão desvanecida que as percorre convoca-nos as escadarias Primorsky ,em Odessa, local da mais recordada cena de O Couraçado Potemkin, um dos filmes maiores de Serguei Eisenstein. À brilhante propaganda de 1925 e à construção da mitologia soviética, com um massacre que não existiu de facto na revolta de 1905, Titarenko contrapõe os degraus de uma rotina quotidiana e desanimada. Não há nelas a caminhada para a construção do Homem Novo, apenas gente que se movimenta pela cidade em busca de armazéns com bens para levantar com os cupões de racionamento.

Eisenstein, imagem do couraçado Potemkin.jpgSerguei Eisenstein, imagem de "O Couraçado Potemkin" Eisenstein, imagem do couraçado Potemkin,b.jpgSerguei Eisenstein, imagem de "O Couraçado Potemkin"

Alexey Titarenko, série City of shadows, 1992-1994, b.jpg© Alexey Titarenko, sem título, da série "City of shadows", São Petersgurgo, Rússia, 1992-1994

Alexey Titarenko, série City of shadows, 1992-1994, c.jpg© Alexey Titarenko, sem título, da série "City of shadows", São Petersgurgo, Rússia, 1992-1994

Alexey Titarenko, série City of shadows, 1992-1994.jpg © Alexey Titarenko, sem título, da série "City of shadows", São Petersgurgo, Rússia, 1992-1994

Ao contrário das imagens do filme de Eisenstein, as fotografias de Alexey Titarenko não contêm o optimismo de sacrifícios sofridos por um futuro grandioso, carregam somente o peso do desencanto.

Alexey Titarenko, série Time standig still, 1998-2000.jpg© Alexey Titarenko, sem título, da série "Time standig still", 1998-2000

Alexey Titarenko, série Time standig still, 1998-2000,b.jpg© Alexey Titarenko, sem título, da série "Time standig still", 1998-2000

Alexey Titarenko, série City of shadows, 1992-1994,d.jpg© Alexey Titarenko, sem título, da série "City of shadows", São Petersgurgo, Rússia, 1992-1994

Alexey Titarenko, série City of shadows, 1992-1994,e.jpg© Alexey Titarenko, sem título, da série "City of shadows", São Petersgurgo, Rússia, 1992-1994


Júlio Assis Ribeiro

Fulano desfocado, despachado e de difuso sentido de humor. Adora falar de si na terceira pessoa e discorre sobre toda uma variedade de assuntos, como se percebesse de algum. Gosta de imagens, de histórias e de parêntesis, e deu-lhe agora para isto....
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