a lente lenta

Acerca de Fotografia e de fotografias (ou seja, acerca de qualquer coisa..)

Júlio Assis Ribeiro

Fulano desfocado, despachado e de difuso sentido de humor. Adora falar de si na terceira pessoa e discorre sobre toda uma variedade de assuntos, como se percebesse de algum. Gosta de imagens, de histórias e de parêntesis, e deu-lhe agora para isto...

A beleza acidental de Arnold Odermatt

Num primeiro momento, para Arnold Odermatt estava destinada uma vida de padeiro e pasteleiro. Acabaria, no entanto, polícia. Chefe de polícia mesmo. Mas nunca abandonaria a minúcia do artesão nos seus quarenta anos de serviço, conseguindo extrair dos acidentes automóveis que registou uma beleza inesperada.


Autor não identificado, Arnold Odermatt, sem data.jpgAutor não identificado, Arnold Odermatt, sem data

O suiço Arnold Odermatt entrou na idade adulta com a aspiração de ser padeiro e pasteleiro, ofício que aprendera e em que trabalhava. Mas reacções alérgicas continuadas acabaram por afastar as suas mãos da massa.

Procurando alternativas acabou por concorrer para as forças policiais de Nidwalden, um cantão de língua alemã. Seria bem sucedido, tendo sido escolhido, segundo consta, pela sua fluência no francês, qualidade apreciável na multilingue Confederação Helvética.

Mas, ao entrar para a polícia, Odermatt não assumiu uma natureza diferente. A postura do burocrata de ocorrências, alguém que repõe a ordem e a rotina com indiferença profissional, foi algo que não adquiriu. Manteve a ética e a minúcia do artesão: Fazer bem e melhor, atentar ao detalhe e rigor, procurar a realização pessoal no trabalho.

Quando no decurso das suas funções passou a registar rigorosamente os acidentes de trânsito com a sua câmara pessoal, uma estimável Rolleiflex, foi inadvertidamente acintoso para os seu camaradas de serviço. Tamanha dedicação pessoal era, no mínimo, suspeita.

Participações foram feitas e Odermatt foi forçado a justificar-se perante o comando. Tendo conseguindo convencer os responsáveis da polícia cantonal da validade da sua abordagem (fora de Nidwalden, há muito que a fotografia era usada de forma sistemática e sofisticada pelas forças da ordem), desapontou os que dele haviam apresentado queixa ao não só continuar a fotografar os acidentes, como ao fazê-lo com o apoio do comando que, alguns poucos anos depois, criaria mesmo um laboratório fotográfico policial.

Arnold Odermatt, sem título, Oberdorf, Suíça, 1964_b.jpg© Arnold Odermatt, sem título, Oberdorf, Suíça, 1964

A carreira policial de Arnold Odermatt duraria mais de quarenta anos, e nela veria a sua atitude dedicada ser premiada com reconhecimento e promoção: à data da sua entrada na reforma, era inspector-chefe da polícia do cantão. Ao longo desse tempo realizou um extenso número de registos fotográficos profissionais que raramente saíram da esfera policial. Salvo esporádicas solicitações da imprensa local, dos tribunais ou de companhias de seguros, o destino das fotografias do agente Odermatt era as pastas de arquivamento e o esquecimento.

Nesse período, a par das fotografias oficiais dos acidentes, foi tirando outras para efeitos meramente pessoais, que reservou para si. Mas nada havia de mórbido neste comportamento. Ao contrário de vários outros fotógrafos e artistas plásticos que tiveram uma particular fixação com imagens de acidentes rodoviários (como Weegee, Mell Kilpatrick, Enrique Metenides ou Andy Warhol), a Odermatt não o cativava a componente trágica ou antropológica desses eventos.Não lhe interessava a exploração do choque, nem o carro como metáfora da agressividade e da masculinidade, nem a relação entre exposição, repetição e indiferença.

Andy Warhol, Cinco mortes, 1963.jpgAndy Warhol, Cinco mortes, 1963

Weegee, Acidente automóvel na 5th Avenue, Nova Iorque, Lisboa, 1941.jpgWeegee, Acidente automóvel na 5th Avenue, Nova Iorque, E.U.A., 1941

Enrique Metenides, A morte de Adela Legarreta Rivas, Monterrey, México, 1979.jpgEnrique Metenides, A morte de Adela Legarreta Rivas, Monterrey, México, 1979

Há nas imagens de Arnold Odermatt (joguemos com as palavras) uma neutralidade suíça. A seguir às fotografias oficiais, feitas com o processo de investigação e de prova em mente, e só depois de retiradas as eventuais vítimas e expurgados os locais da componente mais humana e emocional, é que fotografava para o seu arquivo pessoal. Abordava o cenário das ocorrência como uma composição, procurando criteriosamente o ângulo e a distância certos. Basicamente, tratava de formas, linhas e espaço. E da intuição do movimento. As sua fotografias de planos alargados oscilam entre exercícios formais a tender para a abstracção e o congelamento da acção dum estranho (por vezes, patético) bailado mecânico.

Arnold Odermatt, sem título, Buochs, Suíça, 1965.jpg© Arnold Odermatt, sem título, Buochs, Suíça, 1965

Arnold Odermatt, sem título, Buochs, Suíça, 1958.jpg© Arnold Odermatt, sem título, Buochs, Suíça, 1958

Arnold Odermatt, sem título, Oberdorf, Suíça, 1964.jpg© Arnold Odermatt, sem título, Oberdorf, Suíça, 1964

Arnold Odermatt, sem título, Stans, Suíça, 1962.jpg© Arnold Odermatt, sem título, Stans, Suíça, 1962

Arnold Odermatt, sem título, Oberdorf, Suíça, 1969.jpg© Arnold Odermatt, sem título, Oberdorf, Suíça, 1969

Arnold Odermatt, sem título, Stansstad , Suíça, 1963.jpg© Arnold Odermatt, sem título, Stansstad , Suíça, 1963

Arnold Odermatt, sem título, Stans, Suíça, 1973.jpg© Arnold Odermatt, sem título, Stans, Suíça, 1973

Arnold Odermatt, sem título, Windisch, Suíça, sem data.jpg© Arnold Odermatt, sem título, Windisch, Suíça, sem data

Arnold Odermatt, sem título, Stansstad, Suíça, 1969.jpg© Arnold Odermatt, sem título, Stansstad, Suíça, 1969

Nas fotografias com planos mais aproximados há um interesse quase escultório pelos materiais, pelas formas e pela deformação. Os carros prevalecem enquanto objectos, distanciando-se da acção do acidente.

Arnold Odermatt, sem título, Hergiswil, Suíça, 1986.jpg© Arnold Odermatt, sem título, Hergiswil, Suíça, 1986

Arnold Odermatt, sem título, Buochs, Suíça, 1966.jpg© Arnold Odermatt, sem título, Buochs, Suíça, 1966

Curiosamente, no momento em que abandonou o serviço policial, no ano de 1990, Arnold Odermatt não olhava para o seu trabalho de mais de quarenta anos como uma verdadeira obra. Acreditava que só a partir de então poderia realmente dedicar-se à sua arte, e realizar a longamente acalentada ambição de fazer um livro de fotografia colorida de paisagem. Seriam outros a reconhecer o valor daquilo era para ele um mero interesse pessoal: o filho, o realizador Urs Odermatt, que o tentara demover do projecto das paisagens suíças coloridas e que usaria algumas das suas fotografias no filme "Wachtmeister Zumbühl"; o curador e historiador alemão Beate Kemfert que, em colaboração com o filho, ajudou a expor o trabalho de Arnold; e finalmente, o também curador e historiador suíço Harald Szeemann que o consagraria definitivamente ao o integrar na representação do seu país na 49ª Bienal de Veneza.

Independentemente de ter, ou não, perfeita noção do valor artístico do seu trabalho, Arnold Odermatt construiu a partir duma insólita temática, com o prazer e a dedicação do artesão, um original corpo fotográfico, uma notável e coerente obra duma acidental beleza.


Júlio Assis Ribeiro

Fulano desfocado, despachado e de difuso sentido de humor. Adora falar de si na terceira pessoa e discorre sobre toda uma variedade de assuntos, como se percebesse de algum. Gosta de imagens, de histórias e de parêntesis, e deu-lhe agora para isto....
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