a lente lenta

Acerca de Fotografia e de fotografias (ou seja, acerca de qualquer coisa..)

Júlio Assis Ribeiro

Fulano desfocado, despachado e de difuso sentido de humor. Adora falar de si na terceira pessoa e discorre sobre toda uma variedade de assuntos, como se percebesse de algum. Gosta de imagens, de histórias e de parêntesis, e deu-lhe agora para isto...

Olivia Locher combateu a Lei

Olivia Locher criou na sua série "I fought the Law", homónima duma famosa gravação da banda inglesa the clash, um conjunto de imagens que ilustram algumas das mais absurdas leis dos Estados Unidos. E apesar duma aparente polidez e artificialidade pop, há nelas um sentido de humor que se revela tão cáustico quanto a fúria acelerada da música e do imaginário punk.


Olivia Locher, Alabama, da série Combati a lei, EUA, 2013.jpgOlivia Locher, Alabama, da série I fought the law, E.U.A., 2013

Apesar de não ser um original (a autoria é do norte-americano Sonny Curtis), a banda inglesa the Clash gravou em 1979 I fought the Law, e esta versão duma música de 1954 acabaria por se tornar um verdadeiro hino do movimento punk.

A canção, Rock and Roll simples, de poucos acordes, letra de rebeldia e desencanto jovem, ajustava-se como uma luva a um movimento de contracultura, de oposição a valores conservadores e bem-comportados, mas sem verdadeira esperança de mudar a sociedade, nem plano para tal. E isto, ironicamente, apesar dos Clash serem alguns dos músicos mais politicamente militantes que o punk conheceu.

Richard E Aaron, The Clash em concerto, sem data.jpg Richard E. Aaron, The Clash em concerto, sem data

Embora se vissem alguns apelos à revolução política no interior do movimento punk de finais dos anos setenta, e início dos anos oitenta, muita da sua prática centrava-se na simples recusa duma aceitação mansa do status quo, fosse ele da ordem dos costumes, fosse ele ao nível da luta política tradicional. Os Sex Pistols, banda incontornável do período, misturavam símbolos nazis e comunistas enquanto provocavam a monarquia. Predominava um tom niilista, de renúncia ao sistema, e a luta política tradicional era vista como parte do sistema.

Recusavam-se os valores, as leis, as tradições, não exactamente por serem maus, mas por serem arbitrários, limitadores da liberdade pessoal.

A norte-americana Olivia Locher nasceu onze anos depois da gravação dos Clash e, à primeira vista, as suas fotografias em nada se parecem relacionar com a fúria gritada dos tempos iniciais do punk. Coloridas, saturadas, artificiais, as imagens de Locher poderiam facilmente ser remetidas para os universos da fotografia de moda e da fotografia publicitária. Mas tal como acontecia com as foices sobreposta a martelos e as suásticas dos Sex Pistols, é possivel usar o símbolo de algo para significar o seu oposto, provocando, perturbando, a normal quietude dos espíritos.

Na série I fought the Law, Olivia Locher usa as suas imagens polidas para, com um sentido de humor abrasivo, perturbar a paz das almas. Sabendo que as leis e os costumes em nada são naturais, mas resultado de contingências culturais e históricas, e partindo duma lei do estado americano do Alabama com que se deparou, iniciou um périplo visual pelas leis mais ridículas do seu país. O processo criativo e operativo que sustenta esta série é simples. Procura relatos de leis estranhas, confirma a sua real existência na letra dos códigos (muitos relatos não passam de mitos urbanos), e depois fotografa o acto tornado ilícito pela lei em causa, quase sempre numa cuidada encenação no seu estúdio, em Manhattan, Nova Iorque, mas também ocasionalmente em exteriores.

E olhando para o edifício legal norte-americano, a fotógrafa não tem tido dificuldade em aumentar o número de imagens que constituem a série. Da lei do Alabama que proíbe os cidadãos de, em qualquer circunstâcia, transportar um gelado no bolso traseiro das calças, seguiu para muitas outras, de que vamos citar apenas alguns exemplos: no Ohio é proibido às senhoras despirem-se defronte dum retrato masculino; na Geórgia são proibidos os piqueniques em cemitérios; no Tennessee não podem ser vendidos troncos ocos; no Nevada não é autorizado que homens de bigode beijem mulheres; em Jew Jersey é expressamente proibido sorver sopa em público, em Rhode Island não se pode usar roupa transparente; no Utah não é autorizado o transporte de violinos dentro de sacos de papel em via pública; no Kansas é ilegal servir vinho em chávenas de chá; em Maryland, é proibido pregar pregos em árvores; e na Califórnia não é permitido usar uma bicicleta dentro duma piscina.

Olivia Locher, Ohio, da série Combati a lei, EUA, 2014.jpgOlivia Locher, Ohio, da série I fought the Law, E.U.A., 2014

Olivia Locher, Georgia, da série I fought the law, EUA, 2014.jpg Olivia Locher, Georgia, da série I fought the Law, E.U.A., 2014

Olivia Locher, Tennessee , da série Combati a lei, EUA, 2014.jpgOlivia Locher, Tennessee , da série I fought the Law, E.U.A., 2014

Olivia Locher, Nevada, da série I fought the law, EUA, 2014.jpgOlivia Locher, Nevada, da série da série I fought the Law, E.U.A., 2014

Olivia Locher, New jersey, da série I fought the lawi, EUA, 2014.jpgOlivia Locher, New jersey, da série I fought the Law, E.U.A., 2014

Olivia Locher, Rhode Island, da série I fought the lawi, EUA, 2014.jpgOlivia Locher, Rhode Island, da série I fought the Law, E.U.A., 2014

Olivia Locher, Utah, da série I fought the lawi, EUA, 2013.jpgOlivia Locher, Utah, da série da série I fought the Law, E.U.A., 2013

Olivia Loche Kansas, da série I fought the lawi, EUA, 2013.jpgOlivia Locher, Kansas, da série I fought the Law, E.U.A., 2013

Olivia Locher, Maryland, da série I fought the law, EUA, 2014.jpgOlivia Locher, Maryland, da série I fought the Law, E.U.A., 2014

Olivia Locher, Califórnia, da série Combati a lei, EUA, 2014.jpgOlivia Locher, Califórnia, da série I fought the Law, E.U.A., 2014

Se é claro que a criação de leis é um acto arbitrário, que são criadas, por bons e maus motivos, para limitar e moldar as acções humanas, a verdade é que a sua eficácia é potenciada por diversos mecanismos de conformação e reprodução social, que tendem a esconder a artificialidade da sua origem.

Uma lei é tão mais eficaz quanto maior é a percepção que se trata de algo natural e inevitável.

Ao tornar evidentes e risíveis os mais ridículos exemplos legais, Olivia Locher quebra a indulgência desatenta com que a maioria de nós olha para as leis e os comportamentos sociais.

Mesmo que disfarçado, camuflado e sorrateiro, o absurdo faz parte da natureza humana e é inevitável que se infiltre e aflore. Resta-nos combatê-lo.


Júlio Assis Ribeiro

Fulano desfocado, despachado e de difuso sentido de humor. Adora falar de si na terceira pessoa e discorre sobre toda uma variedade de assuntos, como se percebesse de algum. Gosta de imagens, de histórias e de parêntesis, e deu-lhe agora para isto....
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