Diego da Cruz

As vezes fico cansado de não escrever daí escrevo. O que não é nada de mais especial do que o que você faz quando sente uma necessidade bastante pessoal.

A máquina universal dos sonhos

A escolha da intelectualidade científica em detrimento da artística nos trouxe a um pandemônio atual, onde algumas noções básicas se confundem, como a noção de universalidade. A noção de heliocentrismo está confusa diante da noção de egocentrismo, e vivemos tempos onde o indivíduo narcisista e violento é o centro do universo, quando em verdade há uma máquina universal de sonhos e nossa individualidade é, na sua maior parte, coletiva. O papel do artista sempre foi, e nesse momento não deixa de ser, fundamental. O criador de cultura deve conceber o mundo além da ciência, de forma combativa.


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O papel do intelectual é ingerir o mundo e devolvê-lo ao próprio mundo com uma porção a mais de razão. Dissecar os seres, explicar os fenômenos, desmantelar os átomos, analisar as correntes, justificar os fatos, etc. Mas eu vejo, e é muito difícil não ver, o retorno da segregação racial, o inferno nas relações humanas, o pandemônio civil, o regramento da liberdade, o desrespeito do estado, a violência, a fome, a miséria espiritual em todas as regiões, etc. O que me leva a questionar o valor desses intelectuais dos tempos que nos antecederam.

Transitamos, metaforicamente, do heliocentrismo ao egocentrismo, a ideia de universo ampliou e se modificou, hoje falamos comumente em egocentrismo, o que seria o nosso âmago – o eu mais intimo - o centro do universo. Dessa maneira quando não acariciados por uma parcela representativa de pessoas, temos uma tendência a nos tornarmos depressivos, infelizes, doentes, cancerígenos e coléricos: a solitude traz irremediavelmente a solidão; ninguém consegue se suportar, estar sozinho é o demônio da nossa educação. Somos formados com o intuito de que sejamos destaque, as pessoas que nos ampararam e sustentaram, desejam muito que sejamos melhores que o vizinho. Precisamos nos comparar constantemente – compra-se muito, como forma de poder, para se comparar – e enquanto nos vemos fora dos eixos desses objetivos, que acabam se tornando nossos por determinação, nos vemos fora de órbita.

Nossos sonhos não são nossos sonhos, e somos perseguidos se não sonharmos o que querem que sonhemos. Tomamos como nossos esses sonhos coletivos, por medo de não ter com o que sonhar, ou sonhar algo paradoxal á essa maquina universal dos sonhos, cuja manutenção é feita pelo estado, sob a constante vigilância da polícia. Assim é que se dão nossos objetivos, nossa consciência, nossa busca. Ingerimos os espasmos dessa máquina universal e somos educados a amar isso que ingerimos como se fosse exclusividade nossa, pessoal, como se fossemos personalidades. Mas somos apenas um dos vizinhos dos muitos vizinhos.

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O que me faz questionar o papel dos nossos antecessores, é o fato de que a intelectualidade tem sido representada pela figura do cientista, e das muitas opções que tínhamos para seguir nessa saga do heliocentrismo ao egocentrismo, seguimos cegos apenas o da razão, da positividade do resultado, do conforto físico em detrimento do conforto espiritual, o que nos trouxe ao centro desse pandemônio atual.

Temos cinco sentidos para perceber esse universo, esses sentidos são comuns a todos nós, o que torna o nosso consciente coletivo, a nossa imaginação coletiva - dando vazão às fábulas, lendas, par lendas e mitos - porém algumas pessoas sempre pareceram possuir algum sentido além desses cinco que constituem a razão, essas pessoas foram de encontro ao embalo da máquina universal do sonhos. São os artistas, eles infelizmente ainda carregam um histórico de marginalização, desvalorização e repressão. Afinal, em termos gerais, nós ainda temos muitas dificuldades para conceber a maioria das formas de abstração e compreender outras formas de realidade, pois somos nós a máquina, oprimidos, oprimindo os que não se sentem oprimidos como nós, os ridicularizando e excluindo.

O papel do artista é ingerir o mundo e devolvê-lo ao próprio mundo com uma porção a mais de sentimento, de abstração, de possibilidades e espírito, ampliar as sensações pela manipulação do real e dessa forma se aproximar de algo além do suporte dos nossos poucos sentidos. A vala cavada pra separar nós de nós mesmos, se deu pela escolha da lógica em detrimento da arte nessa trajetória do ontem para o hoje, ou seja, do heliocentrismo ao egocentrismo, o que faz a máquina universal dos sonhos continuar funcionando.


Diego da Cruz

As vezes fico cansado de não escrever daí escrevo. O que não é nada de mais especial do que o que você faz quando sente uma necessidade bastante pessoal. .
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