Diego da Cruz

Já apodreci muito cadarço e desfiz muita sola de sapato, mas a ideia de que "o caminho mais longo é o caminho mais curto para casa" ainda não fez sentido para mim. Estou na lida.

A verdadeira poesia está no asilo

Em tempos da supervalorização de tudo o que é visual, fazer poesia se torna cada vez mais, além de um ato necessário, um ato de coragem, visto que nossas liberdades estão regulamentadas como nunca. Embora o Brasil esteja publicando poetas que o tempo se encarregará de consolidar, surge também uma poesia sufocada, rasa, falha e nada transformadora, resultado da ditadura do consumo, da imagem e da comunicação.



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As transformações artísticas vão acontecendo - como o filme que aconteceu por extensão da fotografia - e em tempos do mercantilismo da rebeldia e supervalorização da imagem, a poesia ganhou uma extensão muito egoísta e ensimesmada.

Há aquelas pessoas que saem rapidinho do escritório para ir continuar a tatuagem, deixam o décimo terceiro salário com o tatuador, muitas vezes são os mesmos que fumam um cigarro meio escondidos, se sentem os caubóis da Marlboro e logo voltam para o PC nº15. Esses não são a contramão, são a corrente: a imagem encoleirada. Esses símbolos que antes fortaleciam uma pessoalidade, hoje são estampas que carrega o sujeito mais comum, fruto desse mercantilismo da rebeldia nascida em James Dean.

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Nas últimas décadas nenhum outro estímulo foi tão valorizado quanto o visual. Vimos o advento da pop arte e o monopólio da imagem na figura das modelos, mais próximo de hoje vimos ainda a valorização da fotografia e o surgimento do provérbio “Uma imagem vale mais do que mil palavras”.

A maioria da poesia atual parece ser formada por mil palavras na construção de uma imagem. Essa poesia é geralmente descritiva ou narrativa, pois falta articulação para entender o abstrato, ou seja, o que não se visualiza não faz muito sentido nessa poesia da geração do clique.

Se houve ontem um poeta que morria no esquecimento e deixava uma obra vasta que só seria descoberta depois da sua morte, se haviam poetas subversivos que fugiam para a áfrica para traficar armas ou organizavam clubes satanistas em São Paulo, o poeta de hoje só encontra estímulo e satisfação na exposição imediata do seu trabalho para um grupo de clicantes, como uma ferramenta de sustento da própria imagem, quase como uma tatuagem de resina, pois essa poesia também é passageira.

Porém, seria bastante reducionista dizer que não existe mais a poesia do homem do mundo inteiro, que deseja aproximar a alma da terra, afinal, para além da poesia do clique, que só existe dentro dos computadores, o Brasil tem atualmente uma gama representativa de poetas sendo impressos, como Paulo Henriques Britto, Antonio Cicero, Eucanaã Ferraz, Marcelo Yuka, Bruno Brum, Angélica Freitas, Diego Grando, Ana Martins Marques, Gabriel Pardal, Ismar Tirelli Neto, a paranaense Ana Guadalupe, Etc., e eu ainda acredito que estamos para encontrar manuscritos de gente que escreveu coisas verdadeiras.

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Eu me lembro ainda do texto da Carol Bensimon, A maior das transgressões, em que você percebe que o grande dedo do meio levantado para o mundo rápido de hoje em dia, é parar, e o grande soco no meio da fuça desse mundo é parar e ler algum maldito. Afinal, num mundo gerido pela máxima que “tempo é dinheiro”, você subverte tudo ao parar o tempo para uma leitura depois de ter comprado um livro baratinho, apesar de no Brasil eles ainda estarem meio caros.

Nesse mundo pós-utópico onde nossa liberdade está completamente restrita ao consumo e à imagem, e todas as possibilidades de escolha estão engessadas dentro de alguns aspectos burocráticos, virou raridade a poesia verdadeira, vinculada ao homem e não a sua imagem, pois onde impera o politicamente correto ela é um profundo ato de subversão e vandalismo, como uma marretada em alguma peça de museu ou uma facada que vai deixar cicatriz.

O fato é que por termos sido catequizados a valorizar a imagem e nela regrarmos nossa vida, somado à facilidade comunicativa atual e o regramento das liberdades, a poesia está sendo sufocada e ganhando uma parcela de banalidade terrível, um conjuntinho de palavras preguiçosas que pouco exprimem e quase nada expressam. A verdadeira poesia está no asilo, fora de cena.

O claustro

A vida no claustro muitos enganosamente crêem ser de clausura. Não sobrassem palavras nesse tempo que nos falta, eu concordaria. Mas a vida no claustro é silêncio.

O claustro é rotundo e julgado sem sentido. Não sobrassem fraquezas na razão que nos rege, eu concordaria. Mas o claustro imita a vida.

Quem conheceu um homem de verdade até o ver chorar Entende a gruta O homem não chora e a pedra não dá água pra ninguém.

Não fora do claustro Só no claustro existe o bem.

Diego da Cruz

Já apodreci muito cadarço e desfiz muita sola de sapato, mas a ideia de que "o caminho mais longo é o caminho mais curto para casa" ainda não fez sentido para mim. Estou na lida. .
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