Diego da Cruz

As vezes fico cansado de não escrever daí escrevo. O que não é nada de mais especial do que o que você faz quando sente uma necessidade bastante pessoal.

A gente escreve porque o inferno existe

Escrever talvez seja uma das poucas formas de o combater o inferno - representação dos medos e conflitos - que existe de maneira irreparável, dentro ou fora da gente, uma vez que escrever exige uma determinada organização dos pensamentos. A partir dessa concepção de inferno, vê-se que ele é um grande motivo de escrita, desde diários pessoais como forma de tratamento psiquiátrico, até o inferno de Dante.


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A escrita é uma tentativa de comunicar, criar vínculos, relacionar desconhecimentos e, num âmbito maior, desmanchar nossos medos. O inferno sendo o grande símbolo dos nossos medos, representação maior do desconhecido, é o grande motivo da gente escrever. Somos segredos para nós mesmos, enquanto indivíduos e enquanto população, somos agentes de causas inexplicáveis no mundo - suicídios, genocídios, guerras, violência gratuita, tristeza, paixões, etc. -, como se formados por bosques obscuros que não sabemos de onde vêm ou para onde vão, e esse auto desconhecimento é o motivo pelo qual muitos psiquiátras recomendam a escrita de diários para o tratamento de alguns transtornos, já que a escrita só acontece por meio de alguma organização de pensamentos e dessa forma ilumina, ainda que sutilmente, essa escuridão que somos. Escrever é vincular-se ao próprio inferno, o próprio desconhecido, e como conseqüência clarear os próprios conflitos.

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A escritora búlgara Julia Kristeva, certa vez escreveu algo dizendo que “o estrangeiro é o que nos faz escrever”, mas o estrangeiro não é senão a representação humana, externa, do inferno, uma vez que veio de uma cultura alheia e dessa maneira é muito mais o outro, o desconhecido, do que nossos vizinhos e irmãos. Se de acordo com Sartre o inferno são os outros, e o estrangeiro é um “outro” muito mais potente do que meus vizinhos, portanto ele é por si só o maior motivo da escrita e também uma representação do inferno.

Talvez a escrita seja hábito tão vivo, e presente em tantos povos de tantas épocas, pela amplitude desse inferno que faz a gente escrever. Não apenas o meu íntimo desconhecido, o outro ou o estrangeiro são o inferno, mas o conflito em geral, que por sua vez não tem como não ser simbolizado pelo medo. Os conflitos podem ser os Joyceanos, onde a os fatos mais sensíveis são resultado - ou resultante (?), nunca saberei - da tormenta psicológica e profunda, ou podem ser ao estilo Meridiano de Sangue, do escritor Cormac McCarthy, onde um momento histórico e sangrento de um povo é recontado na ficção. Surjam os conflitos de dentro das nossas cabeças ou da sola dos nossos pés, eles são o inferno e mote da escrita.

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Dante Alighieri começa a Divina Comédia pelo inferno, e de maneira muito curiosa:

“Da nossa vida, em meio da jornada, Achei-me numa selva tenebrosa, Tendo perdido a verdadeira estrada.

Dizer qual era é cousa tão penosa, Desta brava espessura a asperidade, Que a memória a relembra inda cuidosa.”

Ao meio do caminho, o ponto mais distante do principio ou do fim, distante ao máximo do conhecido, Dante situa o inferno e começa a sua escrita. Dizer ainda qual é sua verdadeira estrada é penoso, uma vez que sua própria existência é agora uma selva tenebrosa, psicológica ou não, e dessa tomada de consciência de que não mais existe um rumo surge o grande conflito, o inferno, e a escrita da obra.

Não é segredo que sem conflito não existem enredos, e nem se pode pormenorizar o ato da escrita aos conflitos, mas o inferno de fato existe dentro e fora da gente, e escrever é a única forma de alcançá-lo e combatê-lo. Talvez vencer o inferno seja o que a gente passa a vida toda tentando, mesmo sem saber.

“Penso que estou no inferno, portanto estou nele.” Rimbaud


Diego da Cruz

As vezes fico cansado de não escrever daí escrevo. O que não é nada de mais especial do que o que você faz quando sente uma necessidade bastante pessoal. .
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